5 MINUTOS DEPOIS DE MORRER DE FOME
A Comida que não Salva o Vivo, mas Alimenta os que Sentem pelo Morto Há verdades que doem mais que a própria fome. Imaginemos: um ser humano esgota-se lentamente, dia após dia, sem ter o que comer. O corpo fraqueja, a força desaparece, a vida esvai-se em silêncio. Morre de fome. E, cinco minutos depois ou poucas horas, o quintal enche-se de gente, de fogo aceso, de panelas enormes fumegando, de sacos de farinha, de arroz e de tudo quanto é ingrediente. As mulheres mexem com vigor, o fumo sobe, o cheiro espalha-se. Prepara-se um banquete. Não para quem partiu. Mas para os que ficam. Esta imagem não é apenas uma cena de cozinha colectiva. É um espelho incómodo da nossa condição humana. Morre-se de fome na mesma comunidade onde, depois da morte, se mobilizam vizinhos, familiares, amigos e conhecidos para trazerem comida em abundância. Cozinha-se para o terceiro dia. Cozinha-se para o quadragésimo dia. Cozinha-se como manda a tradição, com dignidade e respeito ao falecido. E a pergun...