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O REGRESSO DO PROVEDOR

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Memórias de um Pai Entre o Rio Lugenda e a Modernidade Por: Paulino Intepo, Cronista das Memórias e Tradições Moçambicanas Há imagens que o tempo não apaga, antes cristaliza na alma como joias preciosas. Uma delas é a do meu pai a regressar a casa, sempre com algo nas mãos, sempre com um propósito que transcendia o simples acto de chegar. Nascido e criado em Mitande, entre a selva e o rio Lugenda que serpenteia o distrito de Mandimba, no Niassa, cresci no período pós-guerra dos 16 anos, nos finais da década de 80, mergulhado numa comunidade pobre, mas tradicionalmente forte e humilde. Ali, a masculinidade não se media pela quantidade de vezes que o país se zangava em casa – como por vezes acontecia –, mas pelo destaque do homem como provedor. O meu pai viajava muito de moto, sua paixão confessada, e nunca regressava de mãos vazias. Cresci entre os distritos de Mecanhelas, Maúa, Cuamba, Metárica e Cuamba de novo, acompanhando-o enquanto exerceu funções como técnico de agricultura duran...

A FÉ QUE DÁ LIKE

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Votos, Vaidade e o Poder do Sagrado Digital Num domingo, 6 de Setembro de 2026, há escassos km da Ponta de Cabo Delgado, recebemos uma imagem que nos chega, o qual não é a da tradicional clausura silenciosa, mas a de duas jovens mulheres com hábitos lilás impecavelmente moldados, maquilhagem coordenada e sorrisos de influencer a fazerem uma selfie. Esta imagem, que facilmente poderia ser um anúncio de moda, é, na verdade, uma metáfora poderosa dos novos tempos: a era em que o sagrado se tornou tendência para capturar audiências. Vivemos imersos na sociedade do espetáculo. Nela, o que não é visto, não existe. E é aqui que reside o paradoxo visual: há uma linha ténue que separa a devoção da estética, o êxtase místico do brilho digital. A Igreja, ciente do seu peso histórico e da sua influência moral, parece ter percebido que, para permanecer relevante, precisa de vestir a sua melhor "maquilhagem" estratégica. O detalhe mais provocador reside na palavra "voto". As jov...

O ESPECTÁCULO E A FORCA

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Quando a Fama Digital não Redime o Crime Por: Benjamim Gomes Aniceto. Há qualquer coisa de profundamente desconcertante na imagem que nos chega do Cairo: uma mulher de 39 anos, rosto conhecido das telas, seguida por mais de dois milhões de almas no Instagram, condenada à morte por enforcamento. Sarah Khalifa, apresentadora do programa Mission Impossible, dedicado a questões de segurança e criminalidade, viu-se, ela própria, transformada no centro de um drama judiciário cujos contornos parecem saídos de um enredo que ela própria poderia ter apresentado. O Tribunal Penal do Cairo não hesitou: a pena capital, por enforcamento, para Khalifa e outros onze arguidos, pela formação de uma organização criminosa dedicada à fabricação e tráfico de drogas sintéticas. As autoridades apreenderam mais de 750 quilogramas de estupefacientes e matérias-primas, descobriram laboratórios secretos em edifícios residenciais e reuniram depoimentos de vinte testemunhas, além de provas electrónicas que incluía...

A AGONIA DO EFÉMERO

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Quando a Busca pela Perfeição Cobra um Preço Fatal A notícia correu mundo como mais um episódio trágico do universo digital: Igho “Tiny” Ubiribo, um influenciador britânico-nigeriano de 43 anos, faleceu após submeter-se a um procedimento de aumento peniano durante uma viagem de luxo à Tailândia. A causa foi uma embolia pulmonar fatal, desencadeada pela aplicação de 40 mililitros de ácido hialurônico e lidocaína.  O que parecia ser mais uma intervenção estética entre tantas que a cultura contemporânea banalizou transformou-se, nas horas seguintes, numa dor no peito, dois desmaios durante uma massagem e uma morte na UTI, após mais de 100 minutos de reanimação. Este caso, tão chocante quanto sintomático, não é apenas sobre um homem que quis alterar o próprio corpo. É sobre uma época em que a imagem se sobrepõe à substância, em que o corpo é tratado como uma vitrine em permanente renovação e em que a validação externa dita as regras do jogo.  O influenciador, que exibia uma vida ...

A ENCENAÇÃO DA VIOLÊNCIA NA CENA DO CRIME

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Quando a Justiça se Traveste de Vingança Há imagens que nos obrigam a suspender a respiração. Não pela carnificina que exibem, mas pelo que revelam sobre a condição humana. O vídeo que circula nas redes sociais, captado nas movimentadas ruas da Índia, mostra um homem algemado a ser espancado por agentes da autoridade durante uma reconstituição do crime que teria cometido. O que deveria ser um procedimento técnico-científico, que é a reconstituição de um homicídio,  acaba sendo ou transforma-se num teatro de violência onde a lei parece esquecer os seus próprios princípios. A cena e o seu simbolismo O suspeito, acusado de ter assassinado uma mulher, é conduzido ao local do crime para que os investigadores possam recriar os eventos. É neste contexto que os agentes, munidos de cassetetes, desferem golpes precisos e calculados. Um observador nas redes sociais comenta, com ironia mordaz: " Döven Polis Tam profesyonel... Her vurduğu tam isabe t" que significa "A polícia que es...

O PREÇO DA VISIBILIDADE

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Quando o Entretenimento Se Cobra em Membros A imagem é brutal, quase cinematográfica na sua crueldade: um jovem de 21 anos, no auge da sua vitalidade, a pescar com arpão nas águas cristalinas da Ilha Saona, na República Dominicana. O que deveria ser mais uma prova de sobrevivência num dos realities mais populares do mundo transforma-se, num instante, no pesadelo que nenhum seguro de vida cobre. A hélice de um barco turístico (daqueles que transportam turistas em busca de sol e selfies) corta a perna esquerda de Stavros Floros acima do joelho. O membro desaparece no oceano. A vida, essa, quase se vai junto. Stavros sobreviveu porque um desconhecido, a bordo do mesmo barco que o feriu, teve a presença de espírito para aplicar um torniquete. Um gesto amador, improvisado, que nenhuma equipa de produção do Survivor Grécia providenciou. O jovem passou 61 dias internado num hospital em Miami, submetido a múltiplas cirurgias, e hoje move um processo de 100 milhões de dólares (cerca de 639 mil...

O FIM DA ILUSÃO: A REDEFINIÇÃO DA REALIDADE GEOGRÁFICA

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A ONU Corrige a Cartografia e Devolve a África ao seu Verdadeiro Lugar no Mundo Mais uma teoria de conspiração posta correr há anos ganha a luz e torna-se uma realidade. Infelizmente, ainda se tem o diabo do lado do oprimido, fingindo ou não, armando outra maneira de exploração ou não, admite-se que a África não é pequena que o parece. Mais uma vez, a história ganha pontos ao revelar que realmente, a disciplina de Geografia era reservada aos reis e príncipes, não mais além da minoria privilegiada.  A Redefinição da Realidade Geográfica Durante séculos, a forma como vemos o mundo foi moldada não pela geografia física, mas por uma imposição visual e ideológica. A decisão recente da Assembleia-Geral das Nações Unidas de promover oficialmente a projecção " Equal Earth " em detrimento do tradicional mapa de Mercator representa um corte profundo com um passado de distorções.  Esta mudança não é apenas técnica; é uma afirmação de que a visão de mundo ocidental, enraizada em conven...