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HERÓIS MOÇAMBICANOS ONTEM, HOJE E AMANHÃ

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Entre o Sacrifício Fundador e a Disputa Pelo Sentido do Heroísmo O 3 de Fevereiro de 2026 volta a encontrar Moçambique num exercício delicado de memória. Celebramos o Dia dos Heróis Moçambicanos evocando, antes de tudo, Eduardo Chivambo Mondlane , assassinado em 1969 por uma bomba dissimulada num livro — um acto que não matou apenas um homem, mas tentou silenciar um projecto colectivo de unidade nacional. Mondlane permanece como símbolo maior da resistência ao colonialismo português , arquitecto de uma ideia rara e ambiciosa: um país plural, unido para além de etnias, línguas e geografias. Mas o que torna o heroísmo moçambicano verdadeiramente singular não reside apenas nas figuras consagradas, repetidas nos discursos oficiais e nos manuais escolares. O extraordinário está, muitas vezes, no que não se vê. Está nos nomes que não foram gravados em estátuas, nas histórias que sobreviveram apenas pela oralidade, nas aldeias onde resistir significava esconder combatentes, partilhar o pouc...

NÃO É SÓ SOBRE AMOR, MAS SOBRE VALORES, FÉ E HUMANIDADE.

"Quando o amor vira abrigo, até paredes rachadas sustentam um reino" 

Também concordo que ser pobre, nem sempre significa ser humilde. Pois mesmo os ricos, há dentre eles os humildes. Então: humildade - sempre, pobreza - se eu falhar a batalha. ~ Paulino Intepo.

Há imagens que gritam sem abrir a boca. Esta é uma delas.

Numa casa de paredes de terra maticada, onde o reboco é luxo e o chão ainda guarda a poeira do quintal, uma fotografia simples conseguiu fazer o que muitos discursos, sermões e conferências não conseguem: lembrar-nos do que realmente sustenta a vida humana quando tudo o resto é escasso.

No centro da cena, um casal jovem ocupa um quarto modesto que, aos olhos apressados, poderia ser visto como sinónimo de carência. Mas a lente captou outra coisa. A mulher, envolta num pano verde-amarelo e calçando chinelos coloridos, está sentada com uma serenidade que não se compra. Ao lado, uma televisão antiga serve mais como símbolo de presença do que de consumo. Sobre ela, um quadro com animais pintados acrescenta um toque de imaginação a um espaço onde a criatividade substitui o dinheiro.

O homem, deitado de lado sobre uma cama coberta por tecido xadrez, segura um livro aberto. Não é um gesto teatral; é natural. Com a outra mão, faz um sinal descontraído, acompanhado de um sorriso largo, daqueles que nascem de dentro e não para a câmara. Perto da cama, um bidão amarelo transforma-se em mesa improvisada para sustentar um altifalante ligado por fios visíveis, quase orgulhosamente assumidos. No chão de terra batida, sandálias largadas contam a história de um dia comum.

E é exactamente aí que reside o extraordinário.

A composição é quase cinematográfica, mas sem encenação: não há luxo, mas há presença. Não há sofisticação, mas há cumplicidade. Não há abundância material, mas há um tipo de riqueza que muitos ambientes requintados nunca conheceram: o contentamento partilhado.

A televisão está desligada. O livro está aberto. O entretenimento ali não depende de pacotes, assinaturas ou ecrãs de última geração. O centro de gravidade daquela casa não é um objecto — são duas pessoas que parecem em paz uma com a outra e consigo mesmas.

Essa imagem reaviva uma verdade antiga, quase esquecida numa era obcecada por exibição: o valor real de uma relação não se mede pela conta bancária, mas pela qualidade da convivência que ela proporciona. Onde há respeito mútuo, apoio emocional, paciência e gentileza, até uma casa sem acabamento pode tornar-se palácio. Não por ilusão, mas por experiência interior.

O homem da fotografia não parece estar a representar pobreza digna para inspirar ninguém. Ele simplesmente parece bem. E isso é raro. A mulher não ostenta nada, mas a sua postura diz muito: não é submissão, é tranquilidade. Não é resignação, é equilíbrio.

Claro, a imagem não é um conto de fadas congelado no tempo. A vida real traz contas, cansaços, necessidades que crescem, pressões que testam qualquer união. Amor não paga tudo, e romantizar a dificuldade também é uma forma de injustiça. Mas a fotografia aponta para outra camada da verdade: quando a base emocional é sólida, os desafios deixam de ser sentença e passam a ser travessia.

Há também uma lição mais profunda, quase espiritual.

Num mundo onde tantos se digladiam em nome de Deus — defendendo templos, doutrinas, bandeiras religiosas e discursos de exclusão — esta cena silenciosa prega um sermão mais fiel ao coração da fé do que muitos púlpitos. Ali não há altar, não há microfone, não há plateia. Mas há algo que todas as tradições espirituais sérias colocam no topo: amor vivido no quotidiano.

Amor que não humilha.

Amor que não controla.

Amor que não transforma o outro em propriedade.

Amor que é abrigo.

De que serve erguer templos imponentes, repetir palavras sagradas e disputar quem está “mais certo”, se dentro das casas faltam respeito, paciência e cuidado? Que espiritualidade é essa que sabe falar de céu, mas falha em criar paz dentro de quatro paredes de terra?

A fotografia parece responder sem acusar ninguém: o verdadeiro sagrado manifesta-se primeiro na forma como tratamos quem se senta ao nosso lado todos os dias. Antes de ser doutrina, é prática. Antes de ser discurso, é convivência. Antes de ser religião, é humanidade.

No fundo, a imagem não prova uma fórmula universal, mas oferece uma evidência difícil de ignorar: em muitos contextos, sobretudo nos mais duros, a escolha de um/a companheiro/a que respeita, apoia e constrói junto continua a ser um dos maiores factores de resiliência e dignidade. Não é sobre ter pouco ou muito. É sobre com quem se atravessa a escassez ou a abundância.

E talvez seja essa a maior provocação da fotografia: o trono mais importante da vida não é feito de ouro, nem fica em palácios, nem em templos monumentais. Ele instala-se, silencioso, onde duas pessoas decidem tratar-se com amor, todos os dias, mesmo quando o mundo lá fora é áspero.

Ali, naquela casa de paredes talvez feitas de pau-à-pique, o que se vê não é miséria. É realeza interior.



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