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HOMENS QUEIMADOS NO LAR

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A Vergonha que Mata Mais que o Óleo Quente em Moçambique Às vezes dá medo se casar... Olhe para a foto que serve de capa deste artigo. Um homem deitado de bruços, o corpo nu coberto de crostas escuras e feridas abertas que expõem a carne viva. As costas, os ombros, as nádegas – tudo marcado por queimaduras graves, como se alguém tivesse derramado uma panela de óleo a ferver ou água a escaldar em cima dele enquanto dormia ou tentava fugir. Não é uma imagem de guerra. Não é um acidente de trabalho. É o resultado de violência doméstica. E a vítima é um homem moçambicano. @whatsapp "Homens estão a sofrer, e o pior é a vergonha de denunciar." Esta frase, que acompanha a imagem, não é exagero. Mésio, um rapper nortenho, uma vez chamou o público em geral para reflectir sobre o assunto numa das suas músicas. É a dura realidade que se repete nos bairros de Maputo, Matola, Beira, Dondo, Pemba, Manica, etc.  Casos recorrentes, documentados pela imprensa moçambicana e pela Polícia da Re...

EMPREENDER SEM BATER DE FRENTE COM A POLÍTICA: MITO OU REALIDADE SUICIDA

Em Moçambique é possível investir sem entrar em choque com a política nacional (Governo)?

A imagem é poderosa: uma mulher de costas, curvada sob o peso de sacos cheios de cebolas, alhos e vegetais, vendendo na rua à sombra de um chapéu-de-sol da Coca-Cola. Ela representa milhões de moçambicanos que todos os dias tentam sobreviver com pequenos negócios informais – as mamparas, os vendedores ambulantes, os donos de cantinas e barracas. Muitos dizem: “Não me meto em política, só quero trabalhar e enriquecer a família”. É possível? Ou, como a realidade tem mostrado, mesmo quem tenta ficar “quieto” acaba por chocar com o poder político de forma brutal?

No mundo “democrático”, a política já é inevitável

Em países com instituições fortes, o empreendedor até pode tentar evitar a política partidária, mas nunca escapa dela completamente. Licenças, impostos, regulamentações, contratos públicos, acesso a crédito – tudo passa pelo Estado. Quem cresce muito acaba por precisar de lobby, doações eleitorais ou, pelo menos, de não incomodar quem manda.

Mas em regimes autoritários ou híbridos (como classifica a maioria dos países africanos pelo índice da Economist Intelligence Unit), a fronteira desaparece. O Estado não é neutro: é capturado por uma elite político-partidária que vê o sector privado como fonte de renda ou como ameaça. Aí, empreender sem “choques com a política” torna-se quase impossível.

África: o continente onde o sucesso económico pode ser crime

Em muitos países africanos, ser empresário bem-sucedido e independente é perigoso.

- Strive Masiyiwa (Zimbábue): Para lançar a Econet, teve de lutar cinco anos nos tribunais contra o monopólio estatal de Robert Mugabe. Ganhou no Tribunal Constitucional, mas foi obrigado a exilar-se na África do Sul durante uma década. Regressou só depois da queda de Mugabe.

- Aliko Dangote (Nigéria): O homem mais rico de África sobreviveu porque soube jogar o jogo: mantém excelentes relações com todos os governos que passam. Quando tenta ser demasiado independente (como na recente refinaria), enfrenta boicotes, burocracia infernal e ameaças veladas.

- No Quénia, Sudão do Sul, Etiópia ou RD Congo, empresários que crescem sem alinhar com o partido no poder veem contratos cancelados, fábricas queimadas ou são simplesmente raptados.

Em África, o empreendedorismo sem conivência política raramente chega longe. Ou alinhas, ou pagas protecção, ou foges.

Moçambique: o caso mais cruelmente real

Na nossa terra gloriosa - a pérola do Índico, a resposta à pergunta do título é clara: não, não é possível empreender sem choques com a política – e esses choques podem ser fatais.

1. Os raptos como arma política-económica 

   Nos últimos 12 anos, cerca de 150 empresários foram raptados (dados da Confederação das Associações Económicas de Moçambique – CTA, 2024-2025). Muitos são de origem asiática ou portuguesa, mas também moçambicanos. Em 2024-2025 registaram-se casos quase mensais em Maputo e Matola. A CTA diz que mais de 100 empresários abandonaram o país por medo.  

   A impunidade é total: a polícia detém executantes, nunca os mandantes. Analistas independentes apontam que parte destes raptos serve para extorquir, mas outra parte é mensagem política: “Não cresças demais sem partilhar com quem manda”.

2. Partidarização do crédito e dos negócios

   Como denunciaram jovens empreendedores em 2014 (e continua actual): nas províncias, o acesso a microcrédito depende da filiação na FRELIMO. “A credibilidade de um jovem é quase nula quando não é da FRELIMO”, disse um participante numa conferência nacional de empreendedorismo. Em 2025, nada mudou.

3. Assassinatos de quem incomoda  

   - Siba-Siba Macuácua (2001): Nomeado para limpar o Banco Austral, descobriu dívidas de altas figuras da FRELIMO. Foi assassinado a tiro. 24 anos depois, ninguém foi condenado.  

   - **Gilles Cistac (2015)**: Constitucionalista francês naturalizado moçambicano, defendeu a autonomia provincial (posição da Renamo). Morto a tiro em Maputo.  

   - Elvino Dias e Paulo Guambe (2024): Advogado de Venâncio Mondlane e mandatário do PODEMOS, fuzilados dentro de um carro após as eleições contestadas.  

Jornalistas, observadores eleitorais e activistas também morrem: mais de 300 mortos nos protestos pós-eleitorais de 2024, segundo organizações independentes.

Mesmo quem não é “político” acaba político”. Basta ser bem-sucedido e não pagar a “taxa revolucionária” (oficial ou oficiosa).

Então, é melhor não se meter em política e ficar rico quietinho?

Essa é a ilusão que muitos repetem: “Vivo sem política e enriqueço mais”. Em Moçambique isso só funciona enquanto fores pequeno e invisível. No dia em que a tua barraca cresce, precisas de licença, de terreno, de crédito, de protecção policial… e aí entras no radar.

A mulher da fotografia talvez consiga vender os seus alhos e cebolas sem problemas graves hoje. Mas se amanhã quiser abrir uma loja maior, importar contentores, contratar 20 pessoas? Aí começa o calvário: inspectores, multas arbitrárias, “parcerias” forçadas com filhos de generais, ou pior.

O empreendedorismo livre exige cidadania activa (e corajosa)

Em Moçambique, como na maior parte de África, a política não é uma opção – é o ambiente onde respiramos. Quem tenta ignorá-la acaba por sufocar.

É possível enriquecer “sem política”? Sim, se aceitares ser cúmplice do sistema, pagar a tua parte e calar a boca.  

É possível enriquecer e manter a dignidade, sem medo de ser raptado, preso ou assassinado? Só quando o país tiver instituições fortes, justiça independente e alternância real de poder.

Até lá, a imagem daquela vendedora ambulante continuará a ser o retrato mais honesto do empreendedorismo moçambicano: carrega o peso sozinha, de costas para o poder, rezando para que ninguém repare nela.

Mas um dia, alguém repara sempre.



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