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“PAGA PARA MIM, SOU TEU PROFESSOR”

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Quando a hierarquia se dissolve na bebedeira Uma análise do caso que abala a Escola Secundária da Liberdade, na Matola, e expõs as fragilidades das relações de autoridade dentro e fora da sala de aulas. Não são raras as vezes que há esse cenário de violência no ambiente escolar, se não for entre professores e alunos, como nesse caso, tem havido também situações entre professores, alunos e até entre alunos e os agentes de serviço, etc.  Foi numa barraca, dessas de esquina com bancos de madeira e garrafas vazias a fazer de cinzeiro, que a linha ténue entre o respeito institucional e a mais crua falta de limites foi atravessada. Um aluno da Escola Secundária da Liberdade, no município da Matola, como dizem, agrediu fisicamente o seu professor durante uma sessão de consumo de bebidas alcoólicas. O motivo? A segunda rodada. Segundo testemunhas, o encontro entre ambos acontecera fora do contexto escolar, longe dos quadros, do giz e dos manuais que a cada ciclo governamental se escasseia...

DINHEIRO É SEMPRE BEM-VINDO, NÃO IMPORTA DE ONDE

Dinheiro Limpo, Negócios Sujos: é Moz entre Oportunidades e Silêncios

Dinheiro exibido abertamente nas ruas de Hargeisa, muitas vezes em grandes pilhas no mercado informal de câmbio de moeda na Somalilândia.

Não é nesse texto que vamos abordar sobre as formas mágicas de fazer dinheiro ou dizer como a superstição pode transformar folhas secas em dinheiro limpo. Mas, é nesse contexto que viemos partilhar que em Moçambique, há quem evite ao máximo reencontrar pessoas do passado – velhos amigos, colegas de trabalho, primos distantes ou conhecidos.

Para muitos, o ideal seria cruzar-se com cada indivíduo apenas uma vez na vida e, depois disso, só numa próxima encarnação, se existe. Exceptuam-se filhos, pais, irmãos e avós; o resto poderia desaparecer do mapa social sem qualquer peso na consciência. Não se trata de desejar mal ou morte a ninguém, mas de proteger a própria paz de espírito, que pode estar por detrás do imã de captar potenciais oportunidades e visão para ter dinheiro e sobreviver até viver o glamor que nos é negado pelo governo e outras entidades.

Numa praia quase deserta de gente, mas cercada por edifícios turísticos vazios na maior parte do ano, essa ideia ganha contornos mais claros. Ao longo da estrada que leva a esses locais, alinham-se casas e moradias construídas exclusivamente para aluguer de curta duração. São residências modestas, elegantes, com quintal murado, vista para o mar e toda a privacidade que um turista de bolso cheio procura. Fora da época alta ficam vazias; na época alta, rendem entre dez e trinta salários mínimos nacionais por mês – por casa.

O preço por noite varia entre um e três salários mínimos. Há quem pague, e muito. Em Dezembro, algumas já têm lista de espera. Quem aluga são pessoas comuns: o antigo colega de escola, o primo que se via nas festas de família, o amigo que outrora pedia conselho sobre política ou negócios enquanto tomava uma cerveja. Hoje são eles os proprietários. Nunca partilharam a oportunidade, apenas ouviram as ideias que se lançavam ao ar e, com coragem ou astúcia, colocaram-nas em prática.

Os nomes são banais, os negócios parecem formais. Mas o caminho que levou à construção e exploração dessas casas levanta sobrancelhas a qualquer leigo. A internet oficial, as inteligências artificiais calibradas e até grande parte da deep web escondem, censuram ou disfarçam as verdadeiras modalidades de gerar rendimento rápido e elevado. Quando se pergunta directamente “como fazer dinheiro de verdade”, a resposta vem sempre enviesada, protegida, moralmente aceitável.

Existem, porém, actividades que ninguém menciona em voz alta a não ser por eufemismos: cafetinação disfarçada de “guias turísticos”; intermediação de vícios apresentada como “promoção de eventos”; tráfico de influência (comissionistas - nhonguistas) camuflado de consultoria; prostituição anunciada como “acompanhemento VIP”; tráfico de drogas escondido atrás de farmácias, bares e serviços de entrega; segurança privada que às vezes se confunde com extorsão organizada e quem lá sabe: grupos de sequestros; clínicas que compram órgãos “doados” a preço de miséria; mulas feitos de catadores de lixo; etc. Para cada euro ou dólar que entra a mais no bolso, há sempre um nome limpo por cima e uma actividade suja por baixo.

Entre todas essas formas, o imobiliário turístico paralelo destaca-se pela subtileza. Funciona com as mesmas tarifas dos hotéis de cinco estrelas, mas sem licença hoteleira, sem pagar IVA, sem inspecções da AT ou do Ministério do Turismo, etc. Em Moçambique, essas casas particulares escapam quase totalmente ao fisco. Facturam mais do que muitos hotéis declarados e entregam zero aos cofres do Estado. Até governantes, depois de negociar lugares de direcção, transformam as próprias residências em “casas protocolares” e obrigam o Estado a pagar rendas absurdas enquanto ocupam o cargo – e, muitas vezes, depois de o deixar.

O dinheiro entra limpo na conta, independentemente da proveniência. As consequências quando aparecerem, são resolvidas mais tarde – com mais dinheiro, mais contactos ou mais silêncio, se não for o caso de envenenamentos ou perseguições aos procuradores e juízes por detrás dos casos.

Lição de moral absurda: quem tem certificado mas não tem contactos morre pobre e honesto; quem tem contactos morre rico e, se morrer preso, pelo menos morre com ar condicionado e vista para o mar ou para o rio e uma floresta densa. Mas quem lá sabe, se o SERNIC continuar no ritmo actual, talvez discobram o que tentamos discurtinar nessas linhas. 


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