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MOTOCICLISTAS QUE PROTEGEM CRIANÇAS

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Quando a Aparência Engana e a Força Serve ao Bem Imagine um grupo de homens de barba longa, coletes de couro cheios de patches , motos potentes e ar intimidador. À primeira vista, muitos pensam logo em violência, gangues ou problemas. Mas e se esses mesmos homens entrassem num tribunal não como réus, mas como escudo humano para uma criança vítima de abuso sexual? Essa realidade existe e transforma vidas. Organizações internacionais de motociclistas dedicam-se precisamente a isso: empoderar crianças que sofreram violência doméstica ou abuso sexual. Eles comparecem às audiências judiciais, vestidos com os seus trajes característicos, para transmitir uma mensagem clara: "Estás protegido. Não estás sozinho." A presença física desses "durões" cria um campo de segurança simbólica e real. A criança, muitas vezes aterrorizada pelo confronto com o abusador, ganha coragem ao ver um grupo inteiro ao seu lado. O impacto vai além do tribunal. Fazem visitas a casa, participam ...

AMAR TRANSCENDE LIMITES E É POR CAUSA DISSO QUE É PERIGOSO

O Amor é Belo Quando é Inocente e Não Tem a Consciência de Si

Há uma beleza particular no amor que ainda não se questionou, que não fez exames, que não pediu provas nem garantias. É o amor que simplesmente acontece, como a chuva que cai sem pedir licença ao céu. Este amor inocente carrega em si uma pureza quase infantil, uma entrega sem cálculo, e é justamente nesta vulnerabilidade que reside tanto o seu encanto quanto o seu perigo.

Quando dois corações se encontram sem que nenhum deles tenha feito os exames recomendados — aqueles testes de compatibilidade emocional, de histórico afectivo, de condições psicológicas para amar — o que nasce entre eles é uma criatura frágil e teimosa. É um amor que desconhece os próprios limites, que ignora os sinais vermelhos, que avança mesmo quando a prudência aconselharia recuo. E talvez seja exactamente isto que o torna memorável: a sua capacidade de existir apesar de tudo, de florescer em terreno não examinado.

Este amor inconsciente de si mesmo não sabe que deveria verificar se os valores se alinham, se as visões de futuro convergem, se as feridas do passado já cicatrizaram o suficiente. Ele simplesmente é. Move-se por instinto, guiado apenas pela atracção magnética entre duas pessoas que se reconhecem sem saber porquê. É o amor que se lança do precipício com a certeza inexplicável de que haverá asas no caminho da queda.

Mas toda inocência tem o seu preço. Quando o amor não tem consciência de si, quando não passou pelos exames necessários, pode tropeçar precisamente onde mais precisava de firmeza. Pode descobrir, tarde demais, que havia incompatibilidades fundamentais escondidas sob a paixão inicial. Pode perceber que as expectativas não ditas criaram abismos onde deveria haver pontes. E então, a mesma inocência que o tornou belo transforma-se em dor, numa confusão de sentimentos que não consegue compreender o que correu mal.

É nestes momentos que a ausência dos exames se faz sentir com mais força. Sem ter verificado a saúde emocional de cada um, o amor inocente pode tornar-se refém de padrões destrutivos que nenhum dos dois reconheceu a tempo. Sem ter avaliado a capacidade de comunicação, pode afogar-se em mal-entendidos que uma simples conversa honesta teria evitado. Sem ter examinado os objectivos de vida, pode descobrir que caminhava em direcções opostas desde o início.

E ainda assim, mesmo quando termina mal, mesmo quando deixa marcas, este amor inocente ensina-nos algo que nenhum exame consegue prever: a coragem de nos entregarmos completamente. Ele mostra-nos que somos capazes de amar sem reservas, de confiar sem provas, de acreditar sem garantias. E esta experiência, por mais dolorosa que possa ser, alarga a nossa capacidade de sentir, de nos conectarmos, de sermos humanos.

O amor consciente, aquele que faz todos os exames, que verifica todas as condições, que se certifica de tudo antes de avançar, tem as suas vantagens inegáveis. É mais seguro, mais sustentável, menos propenso a desastres previsíveis. Mas será tão belo? Terá a mesma intensidade arrebatadora? Ou será que, ao ganharmos em prudência, perdemos algo de essencial na equação do amor?

A verdade é que precisamos de ambos. Precisamos da sabedoria que nos aconselha a fazer os exames, a verificar as condições, a entrar no amor com os olhos abertos. Mas também precisamos preservar aquela centelha de inocência que nos permite acreditar que, apesar de todos os riscos, vale a pena tentar. Porque o amor, na sua essência mais pura, sempre será um salto de fé, uma aposta no desconhecido, um território onde as garantias nunca são absolutas.

O amor inocente que não tem consciência de si é como uma criança que aprende a andar: cai muitas vezes, magoa os joelhos, chora de frustração, mas levanta-se sempre para tentar de novo. E é precisamente nesta resiliência inconsciente, nesta teimosia de continuar mesmo sem saber ao certo o caminho, que reside a sua maior lição. Ele ensina-nos que, por mais exames que façamos, por mais preparados que estejamos, o amor sempre terá uma dimensão de mistério, de surpresa, de descoberta.

Quando o amor inocente encontra o seu fim, não é necessariamente porque falhou. Talvez tenha cumprido exactamente o seu propósito: ensinar-nos algo sobre nós mesmos que não sabíamos, abrir portas que não sabíamos que existiam, mostrar-nos capacidades que desconhecíamos ter. E se deixa cicatrizes, também deixa sabedoria. Se dói, também transforma. Se termina, também prepara o terreno para recomeços mais conscientes.

O desafio está em encontrar o equilíbrio entre a inocência que nos permite amar com plenitude e a consciência que nos protege de nos perdermos completamente no outro. É aprender a honrar aquela parte de nós que quer mergulhar de cabeça, enquanto mantemos uma pequena luz acesa para nos guiar de volta a nós mesmos se necessário. É entender que os exames do amor não servem para matar a espontaneidade, mas para a sustentar ao longo do tempo.

No fim, o amor mais completo talvez seja aquele que começa inocente e aprende a tornar-se consciente sem perder a capacidade de se maravilhar. Aquele que preserva a entrega total mesmo depois de conhecer os riscos. Aquele que faz os exames mas não deixa que eles apaguem a magia do não-sabido. Porque o amor, afinal, é sempre uma dança entre o que controlamos e o que nos escapa, entre o que planeamos e o que simplesmente acontece, entre a razão que nos protege e o coração que insiste em acreditar que, desta vez, pode ser diferente.

Por Paulino INTEPO

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