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O CULTO À BUNDA GRANDE

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Libertação Feminina ou Nova Prisão Estética? Nas redes sociais moçambicanas e africanas em geral, o “ rabo grande ” virou religião. Mulheres posam de costas, de lado, sentadas em bancadas, com jeans colados ou vestidos justos que parecem feitos para desafiar a gravidade. Muitas usam hijab ou lenços coloridos, misturando fé, tradição e sensualidade extrema. Para umas, é libertação: “Meu corpo, minhas regras! Celebro minhas curvas africanas!”. Para outras, é só mais uma prisão: um novo padrão estético que pressiona as mulheres a terem quadris impossíveis, cintura fina e um traseiro que “quase senta copo de vinho”. Historicamente, em muitas culturas africanas – incluindo em Moçambique – corpos curvilíneos eram sinal de saúde, fertilidade e prosperidade. Uma mulher “cheia” era desejada, respeitada. Mas o que vemos hoje nas redes não é só celebração cultural. É um culto globalizado, impulsionado por Kim Kardashian , Beyoncé, twerking e, mais tarde, pelo boom das BBL (Brazilian Butt Lif...

FINALMENTE, O PECADO JÁ CABE NO BOLSO

A Era em que o Smartphone Substituiu o Confessionário

Há séculos, a humanidade tem carregado os seus pecados na consciência, nos gestos falhados, nas palavras mal proferidas, nos actos ocultos que a memória insiste em guardar. Hoje, porém, já não é a alma que regista o erro — é o smartphone. Essa pequena máquina reluzente, sempre na palma da mão, converteu-se no mais vasto arquivo moral da era moderna.

Se dependesse dos nossos telemóveis poucos teriam a salvação do Senhor.

Diz-se que “os smartphones são os maiores depósitos dos pecados, actualmente”. A frase pode parecer humorística, mas é mais verdadeira do que ousamos admitir. Porque, se Deus quisesse julgar a humanidade hoje, não precisaria de abrir os livros celestiais. Bastava-lhe exigir:
“Entreguem-me os vossos telefones.”

E, nesse instante, o céu ficaria vazio.

O novo templo: um ecrã de vidro

O smartphone tornou-se extensão da identidade, da memória, do desejo e da tentação. Tudo cabe ali:
— vídeos que jamais deveriam ter sido gravados;
— conversas que contradizem o carácter público de cada um;
— fotografias que revelam máscaras privadas;
— áudios que traem intenções;
— documentos escondidos a sete chaves;
— pesquisas que revelam o lado obscuro da curiosidade humana.

Nenhuma igreja, nenhum confessionário, nenhuma instituição religiosa, política ou jurídica acumulou tanta verdade humana como um simples telefone de bolso. É ali que cada pessoa guarda o que não ousa partilhar — não pela sua imoralidade em si, mas pela nudez que representa.

O telefone não mente.
O telefone não esquece.
O telefone não perdoa.

A moralidade fragmentada

Vivemos numa era contraditória: publicamente moralistas, privadamente libertinos; socialmente indignados, secretamente cúmplices de tudo aquilo que criticamos. As redes sociais fabricam uma imagem purificada, enquanto o smartphone arquiva a verdadeira biografia moral — uma história que ninguém tem coragem de publicar.

A distância entre quem somos e quem exibimos nunca foi tão grande. E quanto maior a distância, maior a ansiedade, a culpa e a sensação de falha existencial.

O smartphone lembra-nos disso todos os dias.

A tentação digital

No passado, dizia-se que a tentação sussurrava. Hoje, ela vibra, acende luzes, envia notificações e oferece atalhos para desejos instantâneos. A tentação deixou de ser uma provação espiritual: tornou-se uma funcionalidade do sistema operativo.

Os sete pecados capitais ganharam novo formato:

Luxúria: em vídeos, chats, fotografias escondidas em pastas disfarçadas.
Inveja: em timelines que exibem vidas perfeitas e irreais.
Ganância: em esquemas, golpes e sonhos de dinheiro fácil.
Soberba: em selfies, filtros e a procura desesperada por validação.
Gula: no consumo compulsivo de conteúdo, notícias, escândalos.
Ira: em comentários, ataques digitais, cancelamentos.
Preguiça: no deslizar infinito do ecrã.

O smartphone é o espelho onde os pecados deixam de ser abstractos e passam a ter forma, data, hora e backup automático.

Se o julgamento fosse hoje…

Imagine o último dia. Não há tronos, nem trovões, nem pergaminhos celestiais. Apenas um pedido simples:

“Desbloqueia o teu telefone.”

Esse seria o maior teste moral da modernidade.
E, provavelmente, o mais devastador.

Porque ninguém se salvaria.

Não porque somos necessariamente maus, mas porque somos humanos — e a tecnologia tornou visível aquilo que antes apenas o íntimo conhecia. Se o pecado sempre existiu, o smartphone apenas o arquivou com melhor resolução.

A nossa salvação pode estar no mesmo objecto

Mas o smartphone não é apenas condenação. Também pode ser um espaço de cura, de consciência, de reeducação emocional e espiritual. A tecnologia, afinal, não tem moral própria: reflecte a moral de quem a usa.

O problema não está no dispositivo.
Está na humanidade que ele revela.

A grande questão passa a ser:
Estamos preparados para ver-nos como realmente somos?

Porque, no fim, cada smartphone é uma pequena arca onde guardamos as verdades que tememos confessar — e talvez a salvação comece quando assumirmos que nenhum de nós é tão puro quanto a imagem que publica.






Comentários

  1. Os smartphones nós tornaram tão alienados que não conseguimos perceber como erramos com nós mesmos 😔
    Talvez seja pela busca incessante pela dopamina barata 😭💔

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