DA FAMÍLIA EM ISRAEL AO IMPÉRIO RELIGIOSO EM ÁFRICA
A província de Tete, localizada no centro de Moçambique, é amplamente conhecida pelo seu clima extremo, marcado por temperaturas elevadas e precipitações irregulares. A cidade de Tete regista médias anuais superiores a 30 °C, com picos que frequentemente ultrapassam os 40 °C durante a estação quente. Esta realidade climática tem alimentado debates intensos entre a população local, que associa o fenómeno a factores diversos, desde a presença de minerais no subsolo até crenças tradicionais sobre o “amarrar de chuvas” e rumores de manipulação climática por empresas estrangeiras ligadas à mineração de carvão.
Este artigo analisa, de forma crítica e fundamentada, as causas científicas do calor excessivo e da escassez de chuvas em Tete, desmistifica crenças populares e avalia os impactos reais da actividade mineira, com base em dados climáticos, estudos ambientais e relatos comunitários.
O clima de Tete é fortemente influenciado pela sua localização no vale do Zambeze, uma região interiorana com características semi-áridas. A precipitação média anual situa-se entre 600 e 800 milímetros, concentrando-se sobretudo entre Novembro e Março, o que contrasta com as zonas costeiras mais húmidas de Moçambique. Esta escassez resulta do posicionamento da província numa zona de transição climática, aliada à influência de massas de ar seco provenientes do interior do continente africano.
Um factor determinante é o fenómeno El Niño, que periodicamente afecta Moçambique, provocando secas prolongadas sobretudo nas regiões centro e sul. Em anos recentes, este fenómeno contribuiu para reduções significativas das chuvas em Tete e para a ocorrência de temperaturas extremas. As mudanças climáticas globais agravam ainda mais este cenário, aumentando a evaporação, reduzindo a humidade disponível para precipitação e tornando os padrões de chuva mais irregulares.
A topografia do vale do Zambeze também desempenha um papel crucial. As formações montanhosas circundantes favorecem a retenção de ar quente, criando um verdadeiro “efeito de forno”. A este fenómeno soma-se a redução da cobertura vegetal, causada pela desflorestação e pela agricultura extensiva, o que intensifica o chamado efeito de ilha de calor, uma vez que o solo exposto absorve e irradia mais energia térmica.
Entre muitas comunidades de Tete persiste a crença de que a presença de minerais, como carvão e ferro, aquece o subsolo e, consequentemente, o ar à superfície, afastando as chuvas. Do ponto de vista científico, esta ideia não encontra sustentação. Os depósitos minerais não produzem calor suficiente para alterar o clima local, e o fluxo geotérmico na região é insignificante quando comparado a zonas vulcânicas activas.
Outra crença recorrente refere-se ao suposto “amarrar de chuvas” por parte de líderes tradicionais ou curandeiros. Embora existam rituais tradicionais ligados à invocação da chuva entre grupos como os Nyungwe e os Chewa, essas práticas visam atrair precipitação, e não impedi-la. A interpretação de que as chuvas são “retidas” parece resultar de mal-entendidos culturais e da necessidade social de encontrar explicações para períodos prolongados de seca. Estudos antropológicos indicam que tais crenças funcionam sobretudo como mecanismos simbólicos de interpretação da adversidade, sem qualquer impacto real sobre os fenómenos meteorológicos.
Nos distritos de Tete e Moatize circulam rumores segundo os quais empresas indianas ligadas à mineração de carvão manipulam o regime de chuvas para evitar a inundação das minas a céu aberto. Estes boatos intensificaram-se após a transferência dos activos mineiros anteriormente detidos por uma empresa brasileira para um consórcio de capitais indianos.
Não existem, contudo, provas de manipulação climática deliberada. Tecnologias de geoengenharia, como a semeadura de nuvens, são dispendiosas, altamente reguladas e não há qualquer registo da sua aplicação em Tete. O que os estudos ambientais indicam são impactos indirectos da mineração: a emissão de poeiras, a degradação dos solos, a poluição da água e a destruição da vegetação podem alterar microclimas locais e agravar a sensação térmica, além de fragilizar os ecossistemas que ajudam a regular o ciclo hidrológico.
As tensões comunitárias associadas à mineração — reassentamentos forçados, poluição ambiental, conflitos laborais e despedimentos — contribuem para a percepção de injustiça e para a construção de narrativas de “controlo estrangeiro”. Especialistas, porém, sublinham que o problema central reside na fraca fiscalização ambiental e na insuficiente responsabilização das empresas, e não numa suposta manipulação intencional do clima.
O calor extremo e a escassez de chuvas em Tete resultam, essencialmente, de factores naturais e climáticos amplificados pelas mudanças climáticas globais e pela degradação ambiental. Crenças tradicionais e rumores de conspiração, embora compreensíveis num contexto de sofrimento social e económico, não encontram respaldo científico. Compreender esta realidade é fundamental para promover políticas públicas eficazes, fortalecer a educação climática e exigir uma gestão ambiental mais responsável na província de Tete.
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