A HISTÓRIA SECRETA DE SALOMÃO QUE POUCOS CONHECEM
Uma cena aparentemente simples, tornada viral nas redes sociais africanas, desencadeou um debate intenso sobre identidade, género, religião e influência cultural. Uma mulher africana surge num vídeo curto, segura um exemplar do Alcorão e declara publicamente que abandonou o feminismo, afirmando aceitar o marido como líder e não como rival. Em poucas horas, o conteúdo espalhou-se pelas redes sociais onde residem os actuais escrutinadores, dividindo opiniões, inflamando emoções e expondo uma ferida aberta no continente: o confronto entre o feminismo de matriz ocidental e os valores religiosos e tradicionais africanos.
O impacto da mensagem não está apenas no que foi dito, mas no que simboliza. Para muitos, trata-se de um gesto de libertação espiritual e de regresso à ordem familiar tradicional. Para outros, é um recuo perigoso nos direitos das mulheres, mascarado de escolha pessoal. O facto é que a reacção foi imediata e polarizada, com elogios apaixonados, ataques agressivos, sarcasmo, acusações de submissão forçada e até comentários carregados de machismo explícito.
O que esta polémica revela vai muito além de uma mulher e de um vídeo. Revela um choque civilizacional silencioso, mas profundo, que atravessa Moçambique e grande parte da África Subsariana. O feminismo que chegou ao continente, muitas vezes promovido por ONG, academias e discursos importados do Ocidente, é visto por amplos sectores da população como um corpo estranho, distante da realidade material, espiritual e cultural africana. Em comunidades onde a religião estrutura a vida social e onde o homem continua a ser entendido como chefe da família, a ideia de igualdade de papéis é frequentemente interpretada como ameaça à estabilidade do lar.
Quando uma mulher africana rejeita publicamente o feminismo, muitos interpretam o gesto como resistência àquilo que chamam de colonização mental. Para estes sectores, não se trata de negar dignidade à mulher, mas de preservar uma hierarquia considerada natural e divinamente ordenada. A religião, seja islâmica ou cristã, surge então como refúgio identitário face à modernidade importada.
Contudo, há uma questão mais delicada e menos confortável: até que ponto esta submissão é realmente voluntária? Em contextos marcados por pobreza, violência doméstica, desemprego feminino e ausência de redes de protecção social, aceitar a liderança masculina pode significar sobrevivência e estabilidade, não necessariamente convicção ideológica. A fronteira entre escolha consciente e adaptação forçada é ténue. Renunciar ao feminismo pode trazer paz emocional, mas também pode implicar abdicar de direitos duramente conquistados, como autonomia económica, protecção legal, herança justa e liberdade de decisão.
O uso do Alcorão como símbolo neste gesto acrescenta uma camada ainda mais complexa. A religião é invocada tanto para defender a dignidade da mulher como para justificar estruturas patriarcais rígidas. No Islão africano, tal como no cristianismo africano, coexistem interpretações progressistas e conservadoras. O problema surge quando textos sagrados são instrumentalizados para silenciar o debate e encerrar qualquer questionamento sob o argumento da fé.
Este episódio também expõe uma encruzilhada do feminismo africano. Em Moçambique, o feminismo nunca foi uma realidade homogénea. Existem mulheres muçulmanas que defendem direitos a partir do Alcorão, cristãs que reinterpretam a Bíblia em chave de igualdade, e activistas seculares que combatem práticas como casamentos forçados, violência baseada no género e mutilação genital feminina. Ainda assim, quando uma mulher declara publicamente que abandona o feminismo, a narrativa de que este é um caminho inevitável e universal sofre um abalo significativo.
No fundo, esta mulher não é heroína nem vilã. É um espelho incómodo de uma realidade que muitos preferem ignorar. Para milhões de mulheres africanas, o feminismo ocidental é percebido como um luxo discursivo, distante de uma vida marcada pela precariedade, pela fé e por estruturas sociais profundamente enraizadas. Enquanto estas condições persistirem, declarações como esta continuarão a ganhar força, cliques e emoção nas redes sociais.
A verdadeira questão não é julgar a decisão individual, mas questionar se o feminismo africano conseguirá dialogar com a espiritualidade, a cultura e as urgências materiais do continente, ou se continuará a ser visto como um projecto importado, elitista e hostil às tradições locais.
No fim, a pergunta permanece aberta e desconfortável: trata-se de iluminação pessoal ou apenas de uma troca de correntes?
O debate está lançado — e está longe de terminar.
E tu, leitor do Verbalyzador, como lês este gesto? Libertação ou resignação?
Partilha a tua reflexão. Esta conversa precisa de vozes conscientes, não de silêncios cúmplices.
Comentários
Enviar um comentário