"Eu Sabia": A Goleada que Ninguém Queria, mas Todos Esperavam
O que não se sabia era sobre uma possível renúncia do Reinildo, Mexer e Domingues à selecção, se houvesse derrota. Houve comentários nas rádios e televisões, opiniões e antevisões com muito positivismo. Até disseram que o balneário estava tão alinhado que não havia sobra de dúvida que os detalhes estavam todos acautelados. Mas as contas na realidade: 4-0!
Num estádio em
Fez, Marrocos, um torcedor moçambicano ergueu uma faixa simples, quase profética: "EU SABIA". A imagem correu as redes como um meme amargo, mas diz tudo. Enquanto muitos sonhavam com uma surpresa histórica nos oitavos de final da
CAN 2025, aquele homem, de cachecol vermelho e amarelo, representava o realismo cru de quem conhece as limitações dos
Mambas. Não era pessimismo — era matemática pura. E a Nigéria, com as suas
Super Águias afiadas, confirmou-o sem piedade: 4-0, uma goleada que expôs fragilidades antigas e estruturais do futebol moçambicano.
O jogo começou mal e acabou pior. A Nigéria entrou com intensidade avassaladora, pressionando alto e explorando os espaços que a defesa moçambicana oferecia como quem entrega um presente embrulhado. Aos 20 minutos,
Ademola Lookman abriu o marcador, num lance que começou numa perda de bola no meio-campo dos Mambas e terminou com uma assistência cirúrgica para o remate colocado. Cinco minutos depois,
Victor Osimhen — o monstro do
Galatasaray — dobrou a vantagem, aproveitando um erro grotesco na saída de bola. A defesa, desorganizada e lenta, parecia assistir ao filme em câmara lenta.
No segundo tempo, mais do mesmo: Osimhen bisou logo aos 47 minutos, num cabeceamento imperial após cruzamento perfeito de Lookman (o homem do jogo, com um golo e três assistências). Aos 75,
Akor Adams fechou as contas com um remate cruzado, novamente servido pelo incansável Lookman. Moçambique teve posse de bola em momentos esporádicos, mas zero remates enquadrados. Zero ameaça real. Foi uma aula tática nigeriana: intensidade física, clareza de ideias, transições rápidas e exploração impiedosa dos erros individuais dos Mambas.
E esses erros não foram acidentais — foram sintomáticos. A defesa cometeu falhas primárias de posicionamento, permitindo que Lookman e Osimhen recebessem bolas nas costas com frequência alarmante. O meio-campo não conseguiu pressionar nem recuperar bolas, deixando Iwobi e companhia ditarem o ritmo. Ofensivamente,
Geny Catamo (o nosso talento no
Sporting) lutou isolado, sem apoio coletivo. Chiquinho Conde tentou ajustar, mas a diferença de qualidade era abismal: os nigerianos jogam em ligas de topo europeu, com preparação física e tática de elite; os Mambas, na maioria, vêm de um campeonato nacional que mal consegue completar jornadas.
Aqui entra a causa profunda, aquela que dói mais que a goleada: o abandono estrutural do futebol moçambicano. Chegámos aos oitavos pela primeira vez, sim — feito histórico, parabéns pela campanha. Mas parar aí é autoengano. O
Moçambola é um caos crónico: calendários incompletos, estádios precários, arbitragem questionável, clubes sem sustentabilidade financeira. A elite política, que tanto gosta de aparecer em fotos com a seleção, não consegue criar condições mínimas para aumentar a competitividade desportiva — não só no futebol, mas em nenhuma modalidade. Como esperar que jogadores se preparem para enfrentar Osimhen se nem conseguem jogar 30 jornadas seguidas no campeonato nacional?
E há um alívio secreto, quase culpado, nesta humilhação. Imaginem se os Mambas tivessem vencido: seria ensurdecedor o coro da OJM e dos camaradas da FRELIMO, atribuindo o "milagre" aos incentivos anunciados pelo presidente Chapo. "Graças à visão do camarada, os atletas tiveram motivação extra!" — diriam, enquanto o povo sabe que esses prémios são gotas no oceano face ao investimento zero na base. A derrota poupa-nos a essa apropriação política barata. Evita que um esforço coletivo dos jogadores seja transformado em propaganda de um sistema que falha redondamente em promover o desporto como ferramenta de desenvolvimento.
Devemos parar com o otimismo forçado, aquele que ignora a matemática. As odds, o
ranking FIFA, a qualidade individual dos adversários — tudo apontava para uma derrota pesada. Ser realista não é trair os Mambas; é o primeiro passo para melhorar. O torcedor da faixa "EU SABIA" não celebrava a goleada — lamentava a previsibilidade dela. É hora de transformar esse "eu sabia" em "vamos mudar". Caso contrário, continuaremos a colecionar faixas amargas em vez de troféus. 🇲🇿
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