DA FAMÍLIA EM ISRAEL AO IMPÉRIO RELIGIOSO EM ÁFRICA
Num continente de culturas vibrantes, tradições milenares e paisagens arrebatadoras, há uma ironia difícil de ignorar: um jovem americano está a fazer mais pela promoção positiva da África do que muitas das nossas próprias celebridades.
A reflexão ganhou força após um post do utilizador @Shadaya_Knight na rede social X, que resumiu a situação com uma clareza desconcertante:
“IShowSpeed has done more than our own African celebrities in actually marketing Africa to the rest of the world… He is actually showing it's cool to be African.”
As imagens que acompanham esta observação mostram IShowSpeed imerso em comunidades tradicionais africanas: carregando objectos à cabeça, vestindo trajes tribais, interagindo com guerreiros Maasai. Não como figurante turístico, mas como participante activo. Essas imagens funcionam como um espelho desconfortável para as elites culturais africanas, incluindo as de Moçambique.
IShowSpeed, cujo nome verdadeiro é Darren Watkins Jr., não nasceu africano. Ainda assim, as suas recentes viagens por países africanos transformaram-no num embaixador cultural não oficial do continente.
Nas suas transmissões ao vivo, ele não observa à distância:
Não há filtro polido nem narrativa artificial. Há África viva, caótica, forte e humana. Para milhões de jovens no Ocidente, habituados a ver o continente apenas pela lente da pobreza ou do exotismo, Speed transmite uma mensagem simples e poderosa:
👉 ser africano é cool.
Em contraste, muitas celebridades africanas — inclusive em Moçambique — optam por imitar estéticas, sotaques e estilos ocidentais. Artistas talentosos como Neyma, Mr. Bow ou Lizha James constroem carreiras inspiradas em Hollywood e Nova Iorque, enquanto elementos culturais locais são frequentemente deixados de lado.
Videoclipes urbanos genéricos substituem:
Esta escolha não é neutra. Ela reforça um complexo de inferioridade cultural, sugerindo que o sucesso só é possível quando o “africano” é diluído em algo “global”.
Enquanto um estrangeiro encontra valor nas cabanas de palha e nos adornos tradicionais, as nossas estrelas fogem para estúdios reluzentes que poderiam estar em qualquer metrópole do mundo.
Esta não é uma crítica pessoal, mas um convite à reflexão colectiva.
Por que razão quem tem acesso privilegiado às nossas culturas prefere rejeitá-las?
A resposta passa pelo colonialismo mental, ainda profundamente enraizado. Séculos de dominação ensinaram-nos que progresso significa afastar-se do tradicional. Em Moçambique, país independente desde 1975, esta ferida continua aberta.
As celebridades poderiam ser:
Mas muitas escolhem o brilho efémero da validação externa — criando um vazio que estrangeiros acabam por preencher com autenticidade.
Existem excepções africanas, como Wode Maya ou Miss Trudy, que promovem o continente com orgulho. Ainda assim, enfrentam barreiras que estrangeiros raramente conhecem.
Speed, com um passaporte americano, circula com facilidade — mas o seu impacto vai além do privilégio. Ele inspira jovens africanos a valorizarem as próprias raízes.
Imagine se as nossas celebridades mostrassem:
Isso seria marketing real. Isso seria identidade em acção.
O post de @Shadaya_Knight não é apenas um comentário — é um manifesto.
Ele desafia as celebridades africanas a regressarem às origens, a mostrarem que a África não precisa ser vendida, mas vivida e celebrada.
IShowSpeed torna-se, inadvertidamente, um espelho cruel:
👉 um americano orgulhoso da África, enquanto muitos africanos procuram orgulho noutro lugar.
O legado de Speed pode ser passageiro. A lição, não.
A verdadeira influência nasce da autenticidade.
A maioria dos músicos estão mesmo na imitação.
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