A HIPOCRISIA DAS EXIGÊNCIAS FEMININAS
Quando o Discurso Não Combina com a Realidade
Num tempo em que o debate sobre igualdade de género ganha cada vez mais espaço, surgem também contradições que merecem reflexão séria. Entre elas, destaca-se a postura de certas mulheres que assumem discursos extremamente exigentes em relação aos homens, mas que não demonstram coerência entre aquilo que cobram e a realidade que vivem. Trata-se de um fenómeno cada vez mais visível, amplificado pelas redes sociais e por discursos públicos que confundem empoderamento com superioridade moral ou material.
O caso recente de uma apresentadora africana, que ganhou notoriedade após declarar publicamente que apenas se relaciona com homens financeiramente bem-sucedidos — citando marcas de carros de luxo como critério mínimo — expôs de forma clara essa contradição. A situação tornou-se ainda mais simbólica quando, logo após o discurso, a mesma foi vista a regressar para casa numa mototáxi, meio de transporte comum e acessível. O contraste entre o que se exige e o que se vive não passou despercebido e levantou um debate mais profundo sobre coerência, expectativas e hipocrisia social.
O problema central não está na preferência pessoal — cada indivíduo é livre para escolher o tipo de parceiro que deseja — mas na incoerência entre discurso e prática. Exigir estabilidade financeira, luxo e sucesso enquanto se vive em condições que não reflectem minimamente esses padrões revela uma desconexão preocupante com a realidade. Mais grave ainda é transformar essas exigências em critério moral, como se o valor de um homem estivesse exclusivamente ligado ao que possui, e não ao que é.
Essa postura revela um tipo de mentalidade cada vez mais comum: a da exigência sem reciprocidade. Espera-se tudo do outro, sem qualquer disposição para oferecer o mesmo nível de esforço, crescimento ou responsabilidade. Esse comportamento, longe de representar empoderamento feminino, reforça estereótipos negativos e fragiliza a luta legítima das mulheres que batalham diariamente por igualdade de oportunidades, respeito e dignidade.
Em contextos africanos, como o moçambicano, essa contradição torna-se ainda mais sensível. Trata-se de sociedades marcadas por desigualdades estruturais, desemprego elevado e limitações económicas severas. Exigir luxo num ambiente onde a maioria luta pela sobrevivência diária é ignorar a realidade social. Pior: é desvalorizar homens trabalhadores — agricultores, motoristas, vendedores, operários — que sustentam famílias com esforço honesto, mas sem ostentação.
Além disso, esse tipo de discurso alimenta uma visão distorcida das relações humanas, baseada na aparência, no consumo e na validação externa. Multiplicam-se perfis nas redes sociais que pregam “não aceitar menos”, enquanto dependem financeiramente de terceiros ou vivem de ilusões cuidadosamente editadas. O resultado é um ciclo de frustração, solidão e expectativas irreais, tanto para homens quanto para mulheres.
É importante afirmar com clareza: exigir não é empoderar. Empoderamento verdadeiro passa por autonomia, coerência, responsabilidade e crescimento próprio. Não se constrói dignidade cobrando dos outros aquilo que não se constrói em si mesmo. O discurso feminista perde força quando se confunde com arrogância ou oportunismo emocional.
O episódio em questão serve, portanto, como um espelho social. Revela a urgência de uma reflexão mais honesta sobre relações, valores e expectativas. A igualdade real não nasce de exigências vazias, mas do reconhecimento mútuo, da coerência entre palavras e acções e da disposição para crescer lado a lado.
No fim, a lição é simples: quem deseja respeito precisa, antes de tudo, praticá-lo. Quem exige grandeza deve começar por cultivá-la. E quem fala em igualdade precisa demonstrá-la na vida real, não apenas no discurso.

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