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O CULTO À BUNDA GRANDE

Libertação Feminina ou Nova Prisão Estética?

Nas redes sociais moçambicanas e africanas em geral, o “rabo grande” virou religião. Mulheres posam de costas, de lado, sentadas em bancadas, com jeans colados ou vestidos justos que parecem feitos para desafiar a gravidade. Muitas usam hijab ou lenços coloridos, misturando fé, tradição e sensualidade extrema. Para umas, é libertação: “Meu corpo, minhas regras! Celebro minhas curvas africanas!”. Para outras, é só mais uma prisão: um novo padrão estético que pressiona as mulheres a terem quadris impossíveis, cintura fina e um traseiro que “quase senta copo de vinho”.

Historicamente, em muitas culturas africanas – incluindo em Moçambique – corpos curvilíneos eram sinal de saúde, fertilidade e prosperidade. Uma mulher “cheia” era desejada, respeitada. Mas o que vemos hoje nas redes não é só celebração cultural. É um culto globalizado, impulsionado por Kim Kardashian, Beyoncé, twerking e, mais tarde, pelo boom das BBL (Brazilian Butt Lift). O que era orgulho virou indústria: cirurgias, fillers, treinos específicos, leggings com enchimento, Photoshop pesado. E quem não nasce com isso? Sofre pressão para “corrigir”.

O problema é que este “culto” não liberta tanto quanto parece. Em vez de quebrar padrões, cria um novo: a mulher deve ser magra na cintura, mas explodir em curvas abaixo. Não basta ser curvilínea – tem de ser extrema. Mulheres negras, especialmente, sentem isso duplamente. Há uma hipersexualização histórica: desde a escravatura, o corpo da mulher negra foi objectificado como “exótico”, “selvagem”, “mais sensual”. Hoje, nas redes, isso repete-se: fotos de costas recebem milhares de likes, mas o olhar é voyeurista, reduzindo a mulher a partes do corpo. Como dizem activistas, mostrar a bunda não é automaticamente empoderamento – muitas vezes é só mais objectificação disfarçada de “autonomia”.

E os riscos? As BBL, que prometem o “rabo perfeito”, já foram das cirurgias mais perigosas do mundo. Em anos recentes, com novas técnicas (como injeção superficial guiada por ultrassom), a mortalidade caiu drasticamente – de cerca de 1 em 3.000 para algo como 1 em 15.000 em clínicas certificadas. Ainda assim, complicações como embolia gordurosa, infecções e resultados assimétricos continuam a existir. Em 2025-2026, há até tendência de “redução de BBL” porque muitas mulheres se arrependem: o volume excessivo incomoda no dia a dia, causa dores nas costas, e o “look” já está a sair de moda em alguns círculos.

Em Moçambique, onde a urbanização traz fast-food, sedentarismo e influência ocidental, este culto mistura-se com questões locais. Celebrar curvas pode ser resistência ao padrão magro europeu, mas quando vira obsessão por proporções irreais (muitas vezes cirúrgicas ou editadas), vira pressão nova sobre as mulheres. Jovens sentem que, sem “bunda grande”, não são “desejáveis”. E as que têm naturalmente? Muitas vezes são reduzidas a “carne”, sem valor além do físico.

Então, onde fica a linha? Libertação é quando a mulher controla a narrativa: exibe o corpo porque quer, sem precisar provar nada. Prisão é quando o corpo vira obrigação – para likes, parceiros, validação social. O verdadeiro empoderamento não está no tamanho da bunda, mas na liberdade de ser mais que isso: inteligente, profissional, mãe, activista, sem ter de posar de costas para ser vista.

E tu, leitora/o? Achas que o culto à bunda grande liberta as mulheres africanas ou só troca uma gaiola por outra mais apertada? Já sentiste esta pressão? Comenta sem medo – aqui verbalizamos tudo.

Verbalyzador, Maputo, Janeiro de 2026

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