DA FAMÍLIA EM ISRAEL AO IMPÉRIO RELIGIOSO EM ÁFRICA
A primeira vista da seguinte imagem do perfil desta publicação é impressionante: um jovem trajado com toga académica, de pé num campus universitário, cercado por dezenas de diplomas espalhados pelo chão como folhas secas. Ele segura mais um certificado nas mãos, observa-o com atenção, enquanto os restantes jazem aos seus pés. Para muitos, trata-se de um retrato de sucesso. Para outros, de inspiração. Mas, para quem olha com honestidade intelectual, esta imagem é sobretudo um espelho cruel de uma falha profunda que atravessa África: a obsessão por diplomas sem impacto real.
O comentário que acompanha a fotografia — “Selfish people who gonna make us eat late at their funerals” — não é gratuito nem exagerado. É uma acusação simbólica, dura, mas necessária. Fala de uma elite intelectual que passou a vida a acumular títulos, cargos e certificados, mas que nada construiu de essencial para aliviar a fome, a sede, a ignorância e a vulnerabilidade das comunidades que a sustentaram.
Em Moçambique — e em grande parte de África — o diploma tornou-se um fim em si mesmo, não um meio. Estuda-se para ostentar, não para servir. Aprende-se para subir individualmente, não para transformar colectivamente. Multiplicam-se licenciaturas, mestrados e doutoramentos, enquanto persistem problemas básicos que exigiriam soluções simples, criativas e aplicadas: água potável, saneamento, agricultura funcional, educação prática, saúde preventiva, organização comunitária.
Temos doutores que não sabem resolver um problema de abastecimento de água numa aldeia. Mestres que nunca criaram um projecto funcional para gerar rendimento local. Licenciados incapazes de traduzir conhecimento em soluções acessíveis. O saber ficou preso ao papel timbrado, ao carimbo, à moldura na parede — ou, como na imagem, espalhado pelo chão, inútil fora do ritual da vaidade.
A verdadeira tragédia não é a pobreza material, mas a pobreza de aplicação do conhecimento. As comunidades continuam a caminhar quilómetros em busca de água, os solos continuam improdutivos, as escolas continuam sem recursos, os hospitais sem condições mínimas — enquanto currículos académicos se acumulam sem tocar a realidade. Isto não é falta de inteligência. É ganância simbólica, disfarçada de mérito.
O conhecimento que não resolve problemas básicos é um luxo estéril. Um diploma que não melhora a vida de ninguém, para além do seu portador, é apenas papel caro. África não precisa de mais coleccionadores de títulos; precisa de solucionadores de problemas. Precisa de mentes que regressem às comunidades, que sujem as mãos, que adaptem teorias à realidade local, que criem soluções simples, replicáveis e sustentáveis.
Esta imagem, portanto, não deve ser celebrada sem questionamento. Ela deve incomodar. Deve provocar uma pergunta essencial: para que servem tantos diplomas num continente que continua a enterrar os seus pobres em silêncio? Se o conhecimento não reduz sofrimento, não cria dignidade nem gera autonomia, então falhou no seu propósito mais nobre.
O futuro de África não será construído por quem empilha certificados, mas por quem transforma saber em acção. Que cada diploma deixe de ser um troféu egocêntrico e passe a ser uma ferramenta viva ao serviço da comunidade. Caso contrário, continuaremos a ter funerais pomposos… e um povo a comer tarde, com fome de soluções que nunca chegaram.
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