DA FAMÍLIA EM ISRAEL AO IMPÉRIO RELIGIOSO EM ÁFRICA
À primeira vista, a imagem que circula no por aí, em questão parece retratar apenas mais um momento de convívio social. Um grupo numeroso de jovens e adultos reúne-se num espaço aberto de terra batida, típico de bairros periféricos ou zonas informais de muitas cidades africanas — cenário facilmente reconhecível em Moçambique ou na África do Sul. Caixas de cerveja espalhadas pelo chão, garrafas cheias e vazias de marcas internacionais, coolers coloridos repletos de bebidas alcoólicas e lixo acumulado compõem um ambiente de aparente descontração, uma vez que não pode faltar aquele som com volumes altos e desiguais, em que a dada altura os dançarinos parecem zumbis.
Algumas pessoas estão sentadas no chão ou sobre caixas improvisadas, outras permanecem de pé, conversando animadamente, bebendo, rindo. Contudo, por trás dessa imagem de socialização, esconde-se uma realidade profundamente inquietante: o consumo excessivo de álcool como prática normalizada e colectiva.
O autor desta observação não mede palavras ao classificar o fenómeno como “outra pandemia que nós, pessoas negras, não queremos falar”, chamando-o de “absoluta porcaria”. A frase, crua e carregada de frustração, funciona como um grito de alerta. Ela obriga-nos a encarar uma verdade desconfortável: o álcool espalha-se silenciosamente pelas nossas comunidades, destruindo vidas, famílias e laços sociais, enquanto o debate público permanece tímido, quando não inexistente. Porém, não de hoje, já vem desde.
Em Moçambique, tal como em grande parte do continente africano, o álcool ultrapassa a condição de simples bebida recreativa. Ele converte-se num escape emocional, um alívio temporário para as pressões esmagadoras da vida quotidiana.
As raízes deste problema são históricas. Durante o período colonial, o álcool foi amplamente utilizado como instrumento de controlo social e económico. As administrações coloniais incentivavam o consumo entre as populações indígenas como forma de enfraquecer resistências, criar dependências e facilitar a exploração laboral. Essa herança não desapareceu com as independências.
No século XXI, ela reaparece sob novas roupagens: globalização, marketing agressivo e multinacionais de bebidas alcoólicas que associam o consumo ao sucesso, à masculinidade, à felicidade e à ascensão social. Estas narrativas ignoram deliberadamente os contextos de pobreza estrutural, desemprego crónico e traumas colectivos que afectam vastas camadas da população.
Em províncias como Maputo, Gaza ou Nampula, onde o desemprego juvenil atinge níveis alarmantes e as desigualdades sociais são gritantes, o álcool surge como um analgésico barato para frustrações acumuladas: falta de oportunidades, sequelas da guerra civil, instabilidade económica, impactos da pandemia da COVID-19 e, mais recentemente, as consequências devastadoras das mudanças climáticas sobre a agricultura e os meios de subsistência.
Chamamos o álcool de pandemia porque o seu impacto não se limita ao indivíduo. Ele alastra-se como uma doença social, contaminando famílias inteiras e comprometendo o futuro das comunidades.
Os dados globais são claros e alarmantes: o consumo nocivo de álcool está associado a milhões de mortes anuais em todo o mundo, incluindo cirrose hepática, acidentes de viação, homicídios e violência doméstica. Em África, estas consequências são agravadas por sistemas de saúde frágeis e acesso limitado a tratamento especializado.
Em Moçambique, o abuso de álcool está directamente ligado ao aumento de comportamentos de risco, incluindo a propagação do HIV/SIDA. A desinibição provocada pelo consumo excessivo favorece relações sexuais desprotegidas, violência interpessoal e abandono de responsabilidades familiares.
O impacto mental é igualmente devastador. Depressão, ansiedade e suicídio são frequentemente agravados pelo álcool, que promete alívio imediato, mas aprofunda o ciclo da dependência. Nas comunidades negras, marcadas pelo racismo estrutural e pela marginalização económica, o acesso à reabilitação torna-se um privilégio, não um direito. Quantas famílias vêem pais, irmãos e maridos perderem-se para o vício, deixando filhos sem sustento e mulheres sobrecarregadas?
A imagem do chão coberto de garrafas vazias simboliza mais do que poluição ambiental. Representa o desperdício de tempo, energia e potencial humano. Muitos jovens passam fins-de-semana inteiros em festas onde o álcool é o centro absoluto, enquanto oportunidades de formação, empreendedorismo ou activismo comunitário são negligenciadas.
É importante distinguir tradição de distorção. Bebidas ancestrais como o sura ou o nipa tinham funções rituais e comunitárias específicas. O álcool industrializado, porém, transformou práticas culturais em vícios modernos, esvaziados de sentido colectivo.
Celebramos valores como a resiliência e a ubuntu — a humanidade partilhada. No entanto, como falar de progresso quando ignoramos que o álcool mina essa coesão, fomenta a violência de género, alimenta conflitos familiares e contribui para a criminalidade urbana em cantinas e barracas informais?
Talvez o aspecto mais perigoso desta pandemia seja o silêncio que a rodeia. O álcool é legal, amplamente publicitado e socialmente aceite. Ao contrário das drogas ilícitas, raramente é tratado como problema de saúde pública prioritário. Ouve a pouco tempo em Moçambique uma mobilização governamental que até quase fechou locais de venda próximo das escolas, mas, como todos sabemos, as centenas leis e decretos entre outras artemanhas jurídicas, com tempo passam a ser ferramentas oportunas à corrupção das entidades responsáveis - as barracas voltaram abrir e professores e alunos estão lá à menos dos 500 metros dos recintos escolares.
Há uma hipocrisia evidente: líderes políticos, figuras públicas e até líderes comunitários participam em eventos regados a álcool, enquanto igrejas e algumas ONGs tentam, isoladamente, lidar com as consequências. Entre muitos homens, persiste a ideia tóxica de que “beber é sinal de masculinidade”, um estereótipo herdado do colonialismo e perpetuado pela publicidade.
Admitir o problema é visto como fraqueza. Mas ignorá-lo é condenar as gerações futuras.
Esta publicação não é apenas uma crítica. É um chamamento urgente à lucidez. O álcool não é inofensivo. Ele funciona como uma arma subtil que perpetua a opressão, o atraso social e o empobrecimento emocional das comunidades negras.
Em Moçambique, onde muitos dos factores que reduzem a esperança de vida são evitáveis, torna-se imperativo transformar esta reflexão em acção concreta:
educação nas escolas, regulação rigorosa da publicidade alcoólica, criação de alternativas recreativas saudáveis, apoio real aos dependentes e abertura de um diálogo honesto, sem moralismos nem silêncios cúmplices.
A verdadeira alegria, a verdadeira libertação, não reside no fundo de uma garrafa, mas na força colectiva de um povo consciente, unido e disposto a curar as suas próprias feridas.
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