Publicação em destaque

CASADAS EM CASA, SOLTEIRAS NO SERVIÇO

Imagem
O Duplo Padrão que Corrói Relações e Confiança O comentário de um internauta respondendo ao Paulino Intepo , em reacção ao artigo “ A Natureza de Relacionamentos Amorosos no Trabalho ”, publicado no Verbalyzador , levanta uma questão sensível, profunda e recorrente na sociedade moçambicana — e não só: o fenómeno do duplo padrão de comportamento de algumas mulheres casadas, frequentemente resumido numa expressão popular e inquietante: casadas em casa, solteiras no serviço. Este comportamento não é novo, mas ganhou maior visibilidade com a ascensão das redes sociais, a circulação de imagens virais e relatos quotidianos partilhados em grupos de WhatsApp , páginas de Facebook e blogs. Fotografias e cenas que mostram proximidade física excessiva no local de trabalho — mãos entrelaçadas sob mesas de escritório, mulheres sentadas no colo de colegas, abraços prolongados, risos sugestivos, poses provocantes em ambientes profissionais — tornaram-se símbolos de uma erosão silenciosa dos limites...

A NATUREZA DE RELACIONAMENTOS AMOROSOS NO TRABALHO (CERTO/ERRADO)

Cientificamente um Fenómeno Inevitável Profundamente Humano

No coração pulsante das empresas, onde se cruzam metas, stress, risos partilhados e noites longas de trabalho, nasce algo que vai muito além dos relatórios e das reuniões laborais: o amor. Não é raro, nem escandaloso por si só. É comum, quase inevitável. Uma foto capturada num gabinete qualquer não sabemos onde — uma mulher de cabeça atirada para trás, em êxtase ou relaxamento profundo, com um colega atrás — não é excepção. É sintoma de um padrão que a ciência explica com clareza: o ambiente laboral é um dos terrenos mais férteis para o romance surgir.

Estudos internacionais recentes mostram números impressionantes. Mais de 60% dos adultos já participaram em pelo menos um relacionamento romântico no local de trabalho. Em pesquisas de 2024 e 2025, realizadas por organizações como a SHRM (Society for Human Resource Management), cerca de metade dos trabalhadores norte-americanos admitiu ter vivido ou estar a viver uma relação amorosa com um colega. Em contextos semelhantes, 43% desses relacionamentos culminaram em casamento. E não é só nos Estados Unidos: o fenómeno repete-se em todo o mundo, inclusive em países lusófonos e africanos, onde o convívio prolongado no trabalho cria laços que transcendem o profissional.

Porquê? A explicação científica é robusta e assenta em princípios fundamentais da psicologia social.

Primeiro, o efeito de proximidade (propinquity effect). Passamos, em média, um terço da vida acordados no trabalho — mais tempo do que com a família ou amigos. Quanto maior a proximidade física e funcional, maior a probabilidade de atracção. Colegas que partilham o mesmo espaço, projectos ou até viagens de serviço interagem constantemente. Essa interação repetida transforma estranhos em confidentes, e confidentes em algo mais.

Segundo, o efeito da mera exposição. Quanto mais vemos alguém, mais gostamos dessa pessoa — mesmo sem razão consciente. A familiaridade gera conforto, confiança e, frequentemente, desejo. No escritório, vemos o colega todos os dias: o seu sorriso matinal, a forma como resolve problemas, a energia que traz. O cérebro interpreta essa constância como segurança emocional, acelerando a atracção romântica.

Terceiro, a similaridade (homofilia). As empresas contratam perfis semelhantes: formação, valores, ambições. Pessoas parecidas atraem-se mutuamente. Admiramos competência, partilhamos frustrações com prazos apertados, celebramos vitórias colectivas. Essa intimidade emocional — o que os psicólogos chamam de “bonding situacional” — confunde-se facilmente com amor.

Não se trata de oportunismo barato ou falta de opções fora do trabalho. É biologia e psicologia em acção. O stress partilhado eleva a adrenalina, que se transforma em química romântica. A admiração profissional vira fascínio pessoal. E o tempo — esse recurso escasso — torna o escritório o lugar onde mais horas passamos com potenciais parceiros.

Claro que nem tudo é romântico. Excluímos deliberadamente os casos de assédio, abuso de poder, troca de favores ou violações éticas — esses são crimes ou má conduta, não amor. Falamos aqui de relações consensuais, entre adultos livres, muitas vezes entre pares de sectores diferentes ou iguais, sem hierarquia desequilibrada.

Em Moçambique, onde o mercado laboral mistura tradição e modernidade, onde muitas empresas ainda funcionam em espaços físicos intensos e onde o trabalho em equipa é valorizado, esses relacionamentos florescem com naturalidade. Não há estatísticas locais exaustivas, mas o padrão global aplica-se: o amor não respeita horários de expediente.

O impacto pode ser positivo. Muitos casais relatam maior motivação, senso de pertença e até equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Outros, porém, enfrentam fofocas, ciúmes pós-término ou políticas internas restritivas. Por isso, transparência, discrição e respeito mútuo são essenciais, entes que as consequências cheguem até à separação de famílias e quebra de sonhos construídos com muito sacrifícios, mas acabam por simples capricho de intimidade situacional e emocional. 

No fundo, o romance no trabalho não é uma fraqueza humana. É prova de que, mesmo no meio de metas e prazos, o coração continua a bater. Ele não se desliga ao entrar no portão da empresa. Pelo contrário: ali, onde passamos a maior parte da nossa vida, ele encontra oportunidades únicas para se manifestar.

Então, da próxima vez que vir um olhar demorado entre colegas, um sorriso cúmplice ou uma mão que demora um segundo a mais no ombro do outro, não julgue apressadamente. Pode ser apenas o efeito inevitável da proximidade, da exposição e da similaridade — a ciência do amor a acontecer onde menos esperamos.

Porque, no final, o amor não escolhe horários nem lugares. Ele simplesmente acontece. E, muitas vezes, acontece exactamente onde passamos a maior parte dos nossos dias: no escritório. PS: anualmente, indivíduos são enterrados depois de flagrados ou descobertos, a vingança do cônjuge traído, a ciência não pode medir, mas a vítima sim, depois de partir deste mundo para outro!



Comentários

  1. Depende de um acordo entre eles

    ResponderEliminar
  2. Seria oportuno nao apenas, os relacionamentos por amor, medir os relacionamentos criminosos (apresentar o peso) em relação aos saudáveis. Contudo, o breve texto tem uma relevância científica necessária. Parabéns pela elucidação.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário