DA FAMÍLIA EM ISRAEL AO IMPÉRIO RELIGIOSO EM ÁFRICA
Se eu e os meus amigos, na adolescência, não tivéssemos tido tanto medo das figuras religiosas — Jesus e Deus, em particular — talvez tivéssemos investido nesse negócio dos profetas, apóstolos e pastores que hoje, em garagens e armazéns adaptados, movimenta milhões à custa das migalhas arrancadas aos desesperados e iludidos pela promessa de milagres.
Mas pronto: alguns seguiram profissões antes desprezadas e hoje difíceis de ingressar; outros, caminhos outrora ignorados e agora valiosos. A fé, essa, transformou-se num mercado altamente rentável.
Esta reflexão pessoal ecoa uma realidade amarga que se alastra por Moçambique e por grande parte de África: a exploração da fé como negócio. Líderes religiosos acumulam fortunas enquanto os crentes — frequentemente pobres, fragilizados e sem alternativas — entregam as suas últimas moedas acreditando que um milagre está a caminho. O mais chocante não é apenas a desigualdade económica, mas a profundidade da manipulação psicológica e espiritual que sustenta este sistema.
Em Moçambique, multiplicam-se casos de igrejas envolvidas em escândalos financeiros, desvios de fundos e abusos de poder. Casas de adoração abandonadas, fiéis lesados e líderes que desaparecem após enriquecerem tornaram-se parte do quotidiano. Em alguns episódios, a obsessão pelas ofertas chega ao ponto da violência, revelando como a fé é instrumentalizada para extorquir dinheiro em nome de Deus.
Grande parte desta lógica assenta na chamada teologia da prosperidade: uma doutrina que promete riqueza material em troca de fé cega e contribuições financeiras cada vez mais elevadas. A Bíblia deixa de ser um guia espiritual e transforma-se numa ferramenta de persuasão. “Ofertas de três dígitos” passam a ser apresentadas como provas de fé, enquanto o fracasso económico do fiel é tratado como falta de crença.
O drama torna-se ainda mais perverso quando se considera que, em regiões do Norte do país, cristãos já enfrentam perseguição real, com igrejas incendiadas e líderes religiosos sequestrados. A exploração interna, vinda das próprias lideranças, aprofunda o sofrimento e destrói qualquer noção de refúgio espiritual.
No panorama africano, a Nigéria destaca-se como epicentro deste fenómeno, com pastores entre os mais ricos do mundo, donos de verdadeiros impérios erguidos sobre a fé alheia. Estes esquemas ultrapassam o culto tradicional: vendem milagres em transmissões ao vivo, pressionam seguidores nas redes sociais e associam prosperidade divina a transferências bancárias imediatas.
No Brasil, cuja influência religiosa se estende a África, líderes neopentecostais construíram fortunas bilionárias directamente a partir das contribuições dos fiéis, provando que a fé, quando mercantilizada, torna-se um dos negócios mais lucrativos do mundo.
A inversão de valores é gritante. Enquanto Jesus pregava simplicidade, partilha e desapego material, estes falsos profetas constroem mansões, desfilam carros de luxo e vivem rodeados de excessos. Histórias de crentes que perdem tudo — casas, poupanças, dignidade — revelam o lado humano desta tragédia silenciosa. Pessoas que procuravam salvação acabam presas num ciclo de culpa, medo e empobrecimento.
E o mais perturbador: ninguém questiona estes milionários. O manto da religião funciona como uma máscara invisível, um escudo moral que os protege do escrutínio público.
Para quem procura uma fé verdadeira, o alerta é simples e urgente: discernir entre espiritualidade e comércio disfarçado. Igrejas que colocam o dinheiro acima da ética não libertam — escravizam.
É tempo de questionar, investigar e regressar às raízes da fé, livres de fraude e manipulação. Porque podem ser “mais espertos que o Diabo”, vivos — mas a verdade, mais cedo ou mais tarde, vem sempre à tona.
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