Publicação em destaque

O CULTO À BUNDA GRANDE

Imagem
Libertação Feminina ou Nova Prisão Estética? Nas redes sociais moçambicanas e africanas em geral, o “ rabo grande ” virou religião. Mulheres posam de costas, de lado, sentadas em bancadas, com jeans colados ou vestidos justos que parecem feitos para desafiar a gravidade. Muitas usam hijab ou lenços coloridos, misturando fé, tradição e sensualidade extrema. Para umas, é libertação: “Meu corpo, minhas regras! Celebro minhas curvas africanas!”. Para outras, é só mais uma prisão: um novo padrão estético que pressiona as mulheres a terem quadris impossíveis, cintura fina e um traseiro que “quase senta copo de vinho”. Historicamente, em muitas culturas africanas – incluindo em Moçambique – corpos curvilíneos eram sinal de saúde, fertilidade e prosperidade. Uma mulher “cheia” era desejada, respeitada. Mas o que vemos hoje nas redes não é só celebração cultural. É um culto globalizado, impulsionado por Kim Kardashian , Beyoncé, twerking e, mais tarde, pelo boom das BBL (Brazilian Butt Lif...

O FUTEBOL AFRICANO ESTÁ ENTRE O APITO E O SUBORNO — A Verdade que Ainda Falta Jogar

A verdade por trás do futebol africano que ainda luta para se libertar do apito sujo.

Apesar de Jorge Matavel, apresentador do programa Balanço Geral de TV Miramar em Moçambique, ter tentado justificar o porquê de olhar mais para o futebol exterior, europeu sobre tudo, ao invés do Moçambola ou ligas africanas concretamente, não nos escusa a ousadia de dar por terminado uma matéria que já vínhamos compondo a meses. Até que o que chamou mais atenção foi a recente seguinte notícia: 

"A Federação de Futebol da Nigéria (NFF), ontem, disse que protestaria contra a decisão da FIFA de escolher Tom Agbongila, da África do Sul, como árbitro central para o playoff da Copa do Mundo de 2026 das Super Águias contra os Panteras do Gabão em 13 de novembro de 2025." - Nigeria Stories. 

A notícia caiu como um trovão no céu já carregado do futebol africano: a Federação Nigeriana de Futebol (NFF), na véspera do dia 7 de Novembro de 2025, anunciou que protestaria contra a decisão da FIFA de nomear o árbitro sul-africano Tom Agbongila como juiz central no playoff para o Mundial de 2026 entre a Nigéria e o Gabão, marcado para 13 de Novembro.

Não se trata de um capricho, mas de um grito de alerta que ecoa as fissuras de desconfiança que corroem a credibilidade do desporto-rei no continente. Num momento em que a África tenta afirmar-se no palco global — com o Egipto a juntar-se a Marrocos e Argélia como representantes no Mundial —, este episódio obriga-nos a reflectir: quantas vezes a verdade foi sacrificada em nome de interesses obscuros?

Um padrão de desconfiança enraizado

A escolha de Agbongila, um árbitro experiente, mas oriundo de uma nação rival, reacende memórias de arbitragens controversas e suspeitas de parcialidade. Desde 2019, quando a FIFA interveio directamente na Confederação Africana de Futebol (CAF) devido a escândalos de corrupção, a dependência do continente tornou-se humilhante: a África, berço de talentos como Salah e Osimhen, continua a parecer incapaz de governar o seu próprio jogo.

A desconfiança não nasceu ontem. Casos como o do jornalista ganês Anas Aremeyaw Anas, que em 2018 revelou subornos em oito países africanos, mostraram um sistema apodrecido onde a corrupção é regra. Três anos depois do escândalo FIFA de 2015, pouco mudou. Em 2020, sete árbitros africanos foram banidos vitaliciamente por corrupção — apenas a ponta do icebergue de uma doença institucional.

Casos que mancham o continente

De Nairobi a Maputo, os exemplos abundam. Em Março de 2025, o guarda-redes queniano Patrick Matasi foi suspenso por suspeita de manipulação de resultados. Na África do Sul, clubes denunciaram incentivos pagos a jogadores rivais. Em Uganda, um esquema transfronteiriço de apostas ilegais levou à suspensão de 13 pessoas em 2024. No Zimbabué, o caso Henrietta Rushwaya expôs viagens secretas da selecção nacional para perder jogos pagos.

Nem as lendas escapam: Samuel Eto’o, agora presidente da Federação Camaronesa, foi implicado em gravações sobre fixação de jogos. E em Moçambique, ecos semelhantes surgem em decisões polémicas da CAF que levantam suspeitas de favorecimento. Mais recentemente, em Novembro de 2025, a Comissão Anti-Corrupção do Quénia expôs o desvio de 3,8 mil milhões de xelins em contratos desportivos fraudulentos.

A FIFA, por sua vez, continua a agir de forma selectiva: pune uns e poupa outros. Este duplo padrão perpetua o cinismo e reforça a ideia de que o futebol africano é, no fundo, um palco global para negócios sujos travestidos de desporto.

Rumo a um renascimento pela verdade

O protesto da NFF é mais do que uma queixa — é um apelo à verdade. Um futebol limpo começa com ela, mas só perdura com acção colectiva. Imagine-se um continente com estádios modernos, árbitros protegidos por leis anti-corrupção e federações que premiam o mérito e não o compadrio.

Já vimos lampejos disso, como a melhoria arbitral na CAN de 2023 sob Patrice Motsepe. Mas o renascimento exige coragem e vigilância — de adeptos, jornalistas e jogadores. A FIFA deve parar de tratar a África como periferia e começar a agir como parceira estratégica. Se não há, aquilo que as teorias especulatórias sussurram nos bastidores, planos em marcha de sempre subjugar a África ou inferioriza-la para nunca mais despertar e se impor em pé de igualdade com outros continentes e nações. 

O futebol limpo começa com a verdade, mas floresce com dignidade. Que o grito da Nigéria desperte o continente. Num relvado onde a bola rola livre, não há espaço para sombras. Que role, então, para todos — sem truques, sem medos. E depois, os seleccionadores moçambicanos nos devem algumas palavras que pesam no nó das suas gargantas sobre o comportamento dos presidentes da Federação Moçambicana dessa modalidade.



Comentários