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“PAGA PARA MIM, SOU TEU PROFESSOR”

Quando a hierarquia se dissolve na bebedeira

Uma análise do caso que abala a Escola Secundária da Liberdade, na Matola, e expõs as fragilidades das relações de autoridade dentro e fora da sala de aulas. Não são raras as vezes que há esse cenário de violência no ambiente escolar, se não for entre professores e alunos, como nesse caso, tem havido também situações entre professores, alunos e até entre alunos e os agentes de serviço, etc. 

Foi numa barraca, dessas de esquina com bancos de madeira e garrafas vazias a fazer de cinzeiro, que a linha ténue entre o respeito institucional e a mais crua falta de limites foi atravessada. Um aluno da Escola Secundária da Liberdade, no município da Matola, como dizem, agrediu fisicamente o seu professor durante uma sessão de consumo de bebidas alcoólicas. O motivo? A segunda rodada.

Segundo testemunhas, o encontro entre ambos acontecera fora do contexto escolar, longe dos quadros, do giz e dos manuais que a cada ciclo governamental se escasseia. O aluno pagou a primeira ronda. Terminadas as cervejas ou o uísque da esquina, o estudante exigiu que o professor retribuísse o gesto. A resposta do mestre, carregada de uma arrogância que só o álcool e uma certa ideia de autoridade intocável conseguem temperar, foi directa: “Eu sou seu professor, não me chateies, deves pagar para mim.”

O aluno, já sem os filtros que a sobriedade impõe, terá sentido o peso da frase como uma humilhação dupla: a do bolso vazio e a da subalternidade reafirmada em público. Seguiu-se a agressão física.

Quando o “doutor” desce ao barro

Aqui não se trata de defender a violência. Ela é, sempre será, um atraso de civilização. Mas reduzir o caso a mais um episódio de indisciplina juvenil é ignorar o que este murro (ou empurrão, ou cuspo — os detalhes finos da agressão ainda são confusos) verdadeiramente anuncia: o colapso da autoridade docente como valor absoluto e inquestionável.

O professor, na sua fala, invoca a posição hierárquica não para ensinar, mas para exigir privilégio. “Deves pagar para mim” não é um pedido de respeito profissional; é uma extorsão lúdica, um aproveitamento da assimetria de poder para não molhar a mão no bolso. E isso, numa sociedade que já vive uma relação tensa com as figuras de autoridade — muitas vezes corruptas, outras vezes apenas distantes —, é combustível para a revolta.

O álcool e a falsa confraternidade

O grande elefante na barraca é este: professor e aluno beberam juntos. A lei moçambicana e os regulamentos escolares são claros quanto à inconveniência — quando não à proibição — de tais encontros. Mas a realidade da Matola, como a de muitos bairros periféricos, diz-nos que as fronteiras entre o pessoal e o profissional são mais permeáveis do que os manuais de ética gostariam.

Um professor que aceita beber à conta do aluno coloca-se, voluntariamente, num plano de igualdade líquida (nunca melhor dito). No momento em que o dinheiro acaba e as rodadas se tornam tema, a hierarquia que ele tenta recuperar já não existe. O aluno vê no mestre um colega de copos relapso, não uma autoridade moral. E quando a autoridade moral se perde, a autoridade institucional pesa menos que um copo vazio.

Lições para a Escola da Liberdade — e para todas as outras

Primeira: a formação docente não pode ignorar a gestão de conflitos em contextos informais. O professor precisa saber que o seu poder termina onde começa a humilhação do outro — mesmo que o outro seja um aluno bêbado e malcriado.

Segunda: as escolas devem repensar os mecanismos de denúncia e mediação. Se ambos estavam numa barraca, é porque nenhum dos dois se sentiu suficientemente vigiado ou responsabilizado. A comunidade tem de olhar para estes sinais antes que eles se transformem em manchetes.

Terceira: a violência, repita-se, é inaceitável. O aluno deverá responder por ela nos termos da lei. Mas a justiça, aqui, não pode ser cega ao ponto de não ver a mão do professor a estender o copo que, indirectamente, serviu de gatilho.

Conclusão amarga

Este episódio não é um acidente. É o sintoma de uma educação que, fora da sala de aulas, desaba. Quando o professor se recusa a pagar uma cerveja com o argumento da sua posição, está a trocar o respeito pelo medo — e o medo, ao contrário do que muitos pensam, não impede murros. Apenas os adia.

Fica a pergunta, para os corredores da Escola Secundária da Liberdade e para todos os que ainda acreditam que ensinar é um acto de autoridade consentida: até quando a toga imaginária do “doutor” servirá para cobrir vícios de quinta? Porque o que fica, no fim da noite, não é a lição — é o rosto inchado de um professor que esqueceu que o respeito também se paga, mas com exemplo, não com chantagem.

Verbalyzador — para pensar o óbvio, e o que dói.

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