O CACHORRO QUE MIJOU NO HÁBITO DA FREIRA
Quando os Animais Nos Mostram a Nossa Própria Futilidade
Num domingo como este, enquanto preparava um artigo sobre religião, deparei-me com uma imagem que me deixou parado. Madrid, 1960. Um homem de terno anota algo com ar sério. Uma mulher elegante observa a cena. Duas freiras, vestidas com hábitos negros longos e imponentes, representam séculos de devoção e autoridade espiritual. E, no meio de tudo, um simples vira-lata, rabo empinado, faz o que os cães fazem sem qualquer cerimónia: mija tranquilamente no hábito de uma das freiras.
Não há maldade no gesto. Não há provocação. Para o animal, aquele pano escuro não é símbolo sagrado, não é sinal de consagração nem de separação entre o profano e o divino. É apenas um objecto conveniente — um poste vertical que cheira a humano. O contraste é tão forte que a foto se tornou icónica. Mas, para além do riso inicial, ela esconde uma pergunta profunda: e se os animais nos vissem exactamente como somos… fúteis?
Esta imagem toca no coração do antropocentrismo que marcou grande parte da tradição religiosa cristã. No Génesis, o ser humano é criado “à imagem e semelhança de Deus” e recebe domínio sobre os animais. Tomás de Aquino, grande teólogo medieval, distinguia a alma sensitiva dos animais da alma racional e imortal do homem. Por isso, o cachorro não comete sacrilégio. Ele simplesmente não participa do nosso mundo simbólico. O hábito, o terno, os rituais, as doutrinas — tudo isso é construção humana. O animal vive fora dele, leve e autêntico.
E se descobríssemos, de forma irrefutável, que os animais nos consideram insignificantes ou até ridículos? As nossas guerras por território simbólico, as disputas teológicas intermináveis, as vaidades vestidas de seriedade… para um cão, um corvo ou um elefante, talvez não passem de barulho agitado de primatas superdotados. O Livro de Job já nos avisava: “Pergunta aos animais e eles te ensinarão” (Job 12,7). O Salmo 148 faz o sol, a lua, as montanhas e os animais louvarem Deus directamente, sem intermediários humanos. São Francisco de Assis chamava aos animais de “irmãos” e pregava às aves.
Antes, o Papa Francisco, na encíclica Laudato Si’, recordou-nos que a criação inteira é “casa comum”. Os animais não são meros objectos. Eles glorificam Deus pela simples existência e merecem respeito e cuidado. A crueldade para com eles acaba por reflectir-se na forma como tratamos os nossos semelhantes.
Em Moçambique, esta reflexão ganha outra cor. Nas religiões tradicionais africanas e no sincretismo que marca a nossa espiritualidade, os animais não são inferiores. São parte da mesma teia vital, mensageiros, totens ou portadores de presença ancestral. Tudo está interligado: o humano, o animal, a planta, o espírito. O sagrado não se limita a um hábito ou a uma igreja de tijolo. Ele respira no chão, no ciclo da vida, na força que nos une a toda a criação.
A foto de 1960 é quase uma parábola moderna. Enquanto os humanos posam nos seus papéis sociais e religiosos, o cachorro atravessa a cena e reduz o “sagrado” a algo prático e mundano. Ele não desrespeita. Ele simplesmente é. E ao fazê-lo, revela a nossa presunção: quantas das nossas “coisas sagradas” são, na verdade, construções que só nós levamos a sério?
Imaginemos o impacto se essa consciência colectiva chegasse. A religião poderia entrar em crise… ou ganhar uma liberdade nova. Deixaria de ser palco de poder e passaria a ser espaço de humildade verdadeira, de escuta da criação, de cuidado ecológico e espiritual. Deixaria de nos elevar artificialmente acima dos outros seres e passaria a devolver-nos a eles — mais leves, mais presentes, mais irmãos de tudo o que respira.
No fundo, o cachorro da foto não rouba a cena por maldade. Rouba-a porque não precisa de cena nenhuma. Ele vive. E talvez aí esteja a lição mais profunda para quem acredita: a verdadeira sabedoria religiosa começa quando paramos de nos levar tão a sério e começamos a rir, com ternura, da nossa própria futilidade.
Que esta imagem nos faça reflectir neste domingo: será que estamos a complicar demais o que Deus fez simples?
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