HOMENS QUEIMADOS NO LAR
Num mundo que vende privacidade como luxo de primeira e transforma o corpo em objecto de filtro digital, ainda existe um espaço onde a nudez não é escândalo, mas lição de humanidade. O post que viralizou no X (antigo Twitter) não é mero álbum de fotografias artísticas. É um soco no estômago da nossa época: “A l’armée, au travail, au sport, le passage par les douches collectives reste un symbole fort de la vie en communauté & reste un lien de fraternité brute.” E cá em Moçambique, onde o calor aperta e o espaço é sempre partilhado, essa verdade dói ainda mais fundo.
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| Cortesia: @Laurent Rie |
Pense no quartel de Nampula ou no estádio da Machava depois de um jogo da Liga. Imagine os homens que saem do serviço nas minas de Moatize ou das obras em Maputo, suados, exaustos, sem tempo para fingimentos. As duchas colectivas não são um detalhe logístico. São o último reduto onde a hierarquia se dissolve em água quente (ou fria, conforme o dia) e onde o “eu” desaparece para dar lugar ao “nós”. Ali não há redes sociais, não há likes, não há poses. Há apenas corpos cansados, cicatrizes visíveis e invisíveis, risos roucos e o silêncio cúmplice de quem sabe que a vida é dura para todos.
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| Cortesia: @Laurent Rie |
O autor do post francês, com o seu olhar de fotógrafo fino, captou precisamente isso: a beleza crua da vulnerabilidade masculina. Não é pornografia disfarçada. É antropologia viva. É o mesmo ritual que os nossos avós conheciam nas senas do caju ou nas palhotas colectivas do pós-independência. É o mesmo que os miúdos de hoje ainda vivem nos internatos ou nos campos de futebol de bairro. A água que corre leva consigo o suor do esforço colectivo, a vergonha do fracasso individual e, por vezes, até as lágrimas que ninguém admite chorar.
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| Cortesia: @Laurent Rie |
Mas porquê esta nostalgia incómoda? Porque o individualismo digital nos convenceu de que a privacidade total é progresso. Porque o “self-care” se tornou sinónimo de isolamento. Porque um homem nu entre outros homens, hoje, gera logo suspeitas ou memes baratos. Esquecemos que, durante séculos, essa partilha forçada foi escola de disciplina, de respeito e de laços que nenhuma app consegue replicar. No exército moçambicano, nas equipas de desporto, nas equipas de construção que erguem a cidade que não dorme – ali se aprende que a força não está no músculo isolado, mas no ombro que aguenta o do lado.
E nós, moçambicanos? Temos as nossas próprias histórias. O veterano que conta, entre uma cerveja e outra no bar do bairro, como as duchas do quartel lhe ensinaram mais sobre irmandade do que qualquer discurso político. O jogador de futebol de Chimoio que diz que o balneário colectivo é onde se resolvem as birras de campo e se forjam as amizades que duram para sempre. O operário que regressa a casa no matola e ainda carrega no corpo o cheiro a sabão barato misturado com cansaço colectivo.
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| Cortesia: @Laurent Rie |
O post viral tem mais de dois milhões de visualizações porque toca numa ferida aberta: estamos a perder o cheiro a camaradagem. Substituímos o ritual colectivo pelo banho solitário com playlist no telemóvel. Troçamos a fraternidade bruta pela performance online. E depois estranhamos que a solidão masculina seja uma epidemia silenciosa, mesmo num país onde “comunidade” ainda é palavra sagrada.
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| Cortesia: @Laurent Rie |
Não se trata de romantizar o desconforto. As duchas colectivas não são perfeitas – há bullying, há humilhações, há o peso da masculinidade tóxica que também se esconde ali. Mas são reais. São democráticas. São um lembrete físico de que o corpo humano não foi feito para viver em bolha esterilizada.
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| Cortesia: @Laurent Rie |
Por isso a pergunta que fica, incómoda como deve ser: quando foi a última vez que partilhaste um espaço assim e sentiste, mesmo por segundos, que não estavas sozinho? Quando foi a última vez que a nudez deixou de ser vergonha e virou ponte?
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| Cortesia: @Laurent Rie |
As duchas colectivas não são apenas um símbolo do passado. São um aviso para o futuro. Num Moçambique que corre atrás do desenvolvimento e das selfies, talvez precisemos de recordar que a verdadeira força nunca se constrói sozinho debaixo do chuveiro privado. Constrói-se onde a água corre para todos e onde o silêncio, por vezes, diz mais do que qualquer discurso.
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| Cortesia: @Laurent Rie |
E você, tem uma história dessas para contar? Porque essas são as que nunca saem nos jornais, mas que constroem o país que realmente somos. Para o autor desta, apenas guarda lembranças das duchas feitas nos rios Lugenda - Mitande, Rurumuana e nos pântanos de Mukuassa - em Maúa, Lileo - em Metarica e entre Namutimbua e Muanda até Lúrio em Cuamba, na maior inocência ao sabor da infância, sobre os riscos de ataques por crocodilos e rumores de desaparecimento por afogamentos naturais e desaparecimentos misteriosos ou superticiais.
Por Paulino Intepo, cortesia do Laurent Rie.
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