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O QUE HÁ DE ERRADO COM AS MULHERES QUE Fumam?

O Preconceito que Queima Mais Forte que o Tabaco

Em pleno século XXI, num país como Moçambique onde a liberdade individual ganha terreno a cada dia, continua a pairar um julgamento silencioso e corrosivo sobre as mulheres que decidem fumar. Não é o fumo que incomoda de verdade. É o que ele simboliza: uma mulher que escolhe, que se permite um prazer “masculino”, que desafia o lugar que a sociedade lhe reservou. O cigarro torna-se, então, pretexto para rotulá-la de “fácil”, “rebelde”, “má influência” ou, pior, “mulher sem valores”.

Este preconceito não nasceu ontem. Tem raízes profundas na história do tabaco e, sobretudo, na forma como o género foi construído ao longo dos séculos. Quando as primeiras mulheres ocidentais começaram a fumar publicamente, no início do século XX, o acto foi visto como uma provocação directa à ordem moral. O cigarro era símbolo de virilidade, de poder, de controlo. Uma mulher com ele na mão questionava, sem dizer uma palavra, a ideia de que o seu corpo e os seus desejos deviam ser contidos, vigiados e, acima de tudo, diferentes dos dos homens.

Em Moçambique, o fenómeno ganha contornos ainda mais complexos. Aqui, o patriarcado não é abstracto: é vivido nas ruas de Maputo, nas famílias das províncias, nos comentários das tias e dos pastores, nos olhares que atravessam a baía quando uma mulher acende um cigarro em público. A cultura tradicional, reforçada por valores religiosos cristãos e islâmicos dominantes, construiu a mulher como guardiã da moral familiar. Fumar, nesse contexto, não é apenas um hábito – é uma transgressão. É como se a mulher estivesse a dizer: “Eu não sou só mãe, filha ou esposa. Sou também eu.”

O que está por detrás deste julgamento? Vários mecanismos psicológicos e sociais actuam em simultâneo. Primeiro, a dupla moral clássica: o mesmo homem que fuma três maços por dia pode criticar a namorada por fumar um. Para ele, o cigarro é relaxamento; para ela, é sinal de “perda de controlo”. Segundo, o medo da autonomia feminina. Uma mulher que fuma demonstra que decide sobre o seu corpo. E decidir sobre o corpo – seja fumar, vestir-se como quer ou escolher a sua sexualidade – continua a ameaçar estruturas de poder milenares.

Terceiro, e talvez o mais perverso: a associação automática com a promiscuidade. Estudos sociológicos globais mostram que, em muitas sociedades africanas e latino-americanas, a mulher fumadora é sexualizada de forma imediata. O cigarro na boca evoca, no imaginário colectivo, a imagem da “mulher da noite”, da prostituta, da rebelde sem causa. Não importa se ela é engenheira, professora, mãe ou estudante. O filtro aceso apaga, aos olhos de muitos, a sua história, a sua formação e os seus valores.

Mas há mais. O preconceito esconde também um controlo sobre a saúde e a aparência. “Fumar enfeia”, “destrói a pele”, “cheira mal” – argumentos que raramente são usados com a mesma intensidade contra os homens. É como se o corpo da mulher devesse permanecer sempre “apresentável”, sempre pronto para o olhar masculino. O cigarro, nesse sentido, torna-se um acto de rebeldia estética e existencial.

No entanto, é importante distinguir: criticar o tabagismo por razões de saúde é legítimo e necessário. O tabaco mata, independentemente do género. O problema surge quando a crítica se transforma em moralismo selectivo. Quando o homem fumador é visto como “stressado” e a mulher fumadora como “descontrolada”. Quando o debate deixa de ser sobre nicotina e passa a ser sobre “como deve ser uma mulher moçambicana”.

As imagens que ilustram este texto mostram exactamente isso: mulheres reais, modernas, com dreads, com estilo, com olhar firme. Mulheres que fumam e que, ao mesmo tempo, carregam símbolos de protecção e identidade – o colar do olho grego, o cabelo bem tratado, o piercing. Elas não estão a pedir licença. Estão simplesmente a existir. E é essa existência livre que incomoda.

Quebrar este preconceito exige mais do que discursos bonitos. Exige que os homens questionem os seus próprios privilégios e deixem de usar o cigarro como vara de medição da “decência” feminina. Exige que as próprias mulheres fumadoras parem de se esconder ou de justificar o seu hábito como se fosse um pecado. Exige que a sociedade moçambicana, cada vez mais urbana e globalizada, actualize as suas normas de género.

Porque, no fundo, o que está em causa não é o tabaco. É a liberdade. É o direito de uma mulher decidir o que faz com o seu corpo sem que isso defina o seu carácter. Enquanto o fumo de um cigarro continuar a ser mais escandaloso do que o fumo da hipocrisia social, o preconceito vai continuar a queimar – e a queimar com mais força do que qualquer Marlboro ou SG.

É tempo de deixar as mulheres respirarem. Mesmo que seja entre baforadas.



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