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O REGISTO QUE O AMANHÃ NÃO PERDOA

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A imagem fica. O futuro, nem sempre. Passa a grande festa das mulheres e pesadelos para alguns relacionamentos mal estruturado, s compostos por indivíduos ou seres humanos que mal se importam ou pelo menos fingem saber o que querem nos diversos casos. Porém, há outro lado sombrio que marca os momentos dessa festa, que às vezes, o evento acolhe uma celebração comovente e misturada de várias emoções e exageros incontroláveis, etc. Sinal de que nesses ambientes, nos esquecemos frequentemente que vivemos numa época em que a memória já não depende apenas da mente.  Depende do ecrã. Depende da ligação à internet. Depende de um dedo que carregou num botão sem pensar nas consequências — ou pensando apenas no instante, sem considerar o amanhã, a individualidade dos envolvidos na captação da imagem em alusão e dentre outros aspectos, relevantes ou não, dependendo dos registos.  Nesse contexto, a mulher africana, e a moçambicana em particular, cresce num mundo de contradições cruéis. É-...

QUAIS AS LIÇÕES DE RESILIÊNCIA DOS QUE VIVEM EM CASAS COLECTIVAS (COMPOUND)

Casas de Compound: Onde a Pobreza Ensina o que o Dinheiro Nunca Compra

Imagine acordar num prédio onde as paredes parecem sussurrar segredos de gerações inteiras. O zinco range com o vento, a roupa estendida nas varandas conta histórias de quem luta para secar o suor do dia anterior e, lá em baixo, no pátio comum, o cheiro a comida misturado com o fumo dos geradores improvisados lembra que a vida não pede licença: ela simplesmente acontece.

Não são mansões de betão polido nem condomínios com portão eléctrico. São as casas de compound – aquelas estruturas que, à primeira vista, parecem prestes a desabar, mas que resistem com uma teimosia quase divina. E é precisamente aí, no coração dessa aparente decadência, que se esconde uma das maiores lições da nossa África contemporânea: a verdadeira riqueza não se mede em tijolos, mas na capacidade de transformar limitação em laço humano.

Pense no dia-a-dia. Não há privacidade que se preze. As vozes dos vizinhos atravessam as paredes finas como se fossem parte da família. Alguém grita porque o arroz queimou, outro ri alto porque o filho passou no exame, um terceiro pragueja contra o ladrão que levou a camisa do estendal. Numa casa de compound, o conflito é inevitável – mas a solidariedade também. Quando a criança do quarto ao lado fica doente, não é só a mãe que corre com o paracetamol: são três ou quatro portas que se abrem ao mesmo tempo. A pobreza obriga-nos a partilhar o pouco que temos e, paradoxalmente, multiplica-o.

As crianças que crescem nestes espaços aprendem cedo o que os livros de escola nunca ensinam. Acordam antes do sol para garantir lugar na fila do banho colectivo. Aprendem a correr para a escola sem olhar para trás, porque o atraso custa caro. Mas aprendem, sobretudo, a ler o rosto das pessoas. Sabem distinguir o vizinho que rouba da tia que partilha o último pedaço de pão. Essa escola da rua forja carácter. Produz gente que sabe negociar, que entende o valor da palavra dada e que, acima de tudo, nunca esquece de onde veio. Muitos dos que hoje comandam empresas, dirigem projectos ou lideram comunidades saíram exactamente desses mesmos pátios – com as cicatrizes da humilhação e a força da humildade.

Há quem olhe para estas casas e só veja sujidade, fios expostos e rachas nas paredes. Eu vejo outra coisa: vejo fé pura. Fé que mantém o prédio de pé quando a engenharia falha. Fé que faz com que, mesmo sem água corrente, as mulheres encontrem forma de lavar a roupa e o orgulho ao mesmo tempo. E há, sim, os que vivem ali em silêncio, acumulando o suficiente para um dia sair – mas que, por enquanto, preferem ficar. Porque sabem que a rua ensina lições que o escritório nunca dará.

No fundo, as casas de compound são espelhos impiedosos da nossa sociedade. Mostram-nos que o modelo de desenvolvimento que apenas constrói arranha-céus e ignora os bairros populares está condenado ao fracasso. Mostram-nos que a dignidade não depende de mármore na cozinha, mas de respeito no olhar do vizinho. E mostram-nos, sobretudo, que a resiliência africana não é romantismo: é resistência concreta, quotidiana, quase invisível – mas inquebrável.

Em Maputo, em Luanda, em Lagos ou em Dakar, o cenário repete-se com pequenas variações. O que não muda é o espírito. Essas casas não caem não porque os pregos sejam fortes, mas porque as pessoas que nelas habitam são mais fortes ainda. Elas transformam o desconforto em comunidade, a escassez em criatividade e a incerteza em esperança teimosa.

Talvez seja altura de pararmos de olhar para elas com pena e começarmos a olhar com admiração. Porque, enquanto houver gente disposta a transformar quatro paredes rachadas num lar, a África continuará de pé – não apesar das casas de compound, mas precisamente por causa delas.

E tu, que lês estas linhas, talvez tenhas saído de uma ou talvez ainda more nela. Seja como for, leva contigo esta verdade: o tecto pode ser de zinco, mas o céu que ele protege é ilimitado.



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