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O 7 DE ABRIL QUE QUEREMOS: DATA OU DESTINO?

A Mulher que Ninguém Quer Ver

Há uma imagem que Moçambique insiste em produzir todos os anos com a pontualidade de um decreto governamental: a mulher de capulana nova, sorridente, aplaudida no palanque, homenageada com discursos que duram mais do que as soluções que prometem. O 7 de Abril chega, e com ele, uma liturgia conhecida de todos — flores, vivas, promessas e, logo a seguir, o silêncio de sempre. Há que ser honesto: existe uma distância assustadora entre a mulher que celebramos e a mulher que existe.

Este artigo não é uma homenagem convencional. Não há aqui espaço para o elogio fácil nem para o discurso protocolar que esvazia de sentido uma data que deveria incomodar, provocar, obrigar à reflexão. Escrevo sobre a mulher moçambicana com o respeito que se tem por alguém cuja história é demasiado complexa para caber num slogan de cartaz.

"Celebrar a mulher um dia por ano é o mesmo que regar uma planta uma vez e esperar que ela sobreviva os outros trezentos e sessenta e quatro dias sem água."

O RITUAL DA CAPULANA E A CULTURA DA EXPECTATIVA

Falem com qualquer homem moçambicano em vésperas do 7 de Abril e verão nos seus olhos uma mistura de antecipação e ansiedade. Não é o entusiasmo cívico de quem celebra uma conquista histórica. É a pressão do homem que sabe que vai ser julgado pela capulana que comprar — ou não comprar. A data transformou-se, em muitos lares, num teste de amor quantificado em metros de tecido.

Não se trata de condenar a capulana enquanto símbolo cultural — ela é, na sua essência, beleza, identidade, africanidade. O problema está na instrumentalização: quando a celebração da mulher se converte em exigência de presentes, quando o empoderamento se confunde com privilégio, quando o reconhecimento é reduzido a uma transacção. Uma mulher que aguarda capulana do 7 de Abril não está a lutar pelos direitos das mulheres. Está a consumir o simbólico no lugar do estrutural.

E o mais perturbador é que esta dinâmica não envergonha ninguém. Tornou-se normal. Normalizada a ponto de mulheres que trabalham, que criam filhos sozinhas, que sustentam famílias inteiras sem pompa nem homenagem, verem o seu sacrifício diário eclipsado pelo ruído das que reclamam presentes numa data que nasceu de sangue e resistência.

IGUALDADE DE GÉNERO - DIREITO OU CONVENÇÃO SELECTIVA?

Existe um uso da igualdade de género que não é feminismo — é oportunismo com linguagem feminista. Reconheço isto sem hesitação porque a confusão entre os dois tem prejudicado o avanço real das mulheres moçambicanas que genuinamente precisam de condições igualitárias no mercado de trabalho, no sistema de saúde, na educação, na justiça.

Há mulheres que pedem igualdade de género quando lhes convém e recusam-na quando não convém. Querem os mesmos salários mas não as mesmas responsabilidades. Querem os mesmos espaços mas não as mesmas exigências. Querem ser tratadas como iguais na conquista e como protegidas na adversidade. Isto não é igualdade. É conveniência vestida de causa.

A luta pela igualdade de género em Moçambique enfrenta dois inimigos: o patriarcado que a sabota por fora e o oportunismo que a corrói por dentro. A mulher que instrumentaliza o discurso da igualdade para fins pessoais trai todas as que ainda vivem sob o peso de uma sociedade que as subestima. São batalhas diferentes que precisam de ser nomeadas com honestidade — e separadas com coragem.

Dito isto — e sem ambiguidades —, a desigualdade estrutural é real. Uma mulher moçambicana formada e competente ainda encontra menos oportunidades que um homem com metade das suas qualificações. Uma mulher que denuncia violência doméstica ainda enfrenta um sistema que a questiona antes de a proteger. Uma rapariga na zona rural ainda tem menos probabilidade de terminar o ensino secundário do que o seu irmão. Estes não são dados de opinião. São factos que nenhum discurso do 7 de Abril deveria omitir.

A MÃE INVISÍVEL, AQUELA QUE O PALANQUE NÃO VÊ

Existe uma mulher que acorda antes do sol. Prepara o amanhecer da família enquanto a casa ainda dorme. Carrega água, acende o lume, alimenta os filhos, veste os filhos, leva os filhos à escola, vai trabalhar — formal ou informalmente —, regressa, cozinha, limpa, resolve conflitos domésticos, gerencia orçamentos impossíveis com dignidade que nenhuma ciência económica consegue explicar. Dorme depois de todos. Acorda antes de todos.

Esta mulher não pede capulana no 7 de Abril. Ela nem sabe que é dia de festa — porque para ela, todos os dias têm a mesma textura de sacrifício. Esta é a mulher que Moçambique não celebra com a intensidade que merece. Esta é a mulher que os discursos mencionam em abstracto e ignoram no concreto.

"A mulher que sustenta uma família sozinha, sem reconhecimento e sem palanque, é o verdadeiro monumento vivo do 7 de Abril. O resto é protocolo."

A maternidade em Moçambique continua a ser tratada como vocação natural e não como trabalho real com custos reais. Uma mãe que deixa a carreira por falta de creches não está a fazer uma escolha — está a pagar o preço de um sistema que a abandonou. Uma mãe que cria quatro filhos sem apoio do pai não é "forte" por natureza — é forte porque a fragilidade não lhe foi permitida.

Subestimar a dona de casa é um dos maiores erros intelectuais que esta sociedade comete sistematicamente. A economia doméstica — alimentação, cuidado, socialização dos filhos, gestão do lar — é trabalho não remunerado que sustenta todo o edifício produtivo da nação. Retira as mães e as donas de casa da equação e observa o colapso que se segue. A invisibilidade do seu contributo é conveniente para quem beneficia dele.

AS PERTURBADORAS DA PAZ: UMA MINORIA RUIDOSA

Há, todavia, uma outra realidade que o discurso progressista evita nomear por receio de ser interpretado como reaccionário: existe um perfil de mulher — uma minoria, mas ruidosa — que consome o capital simbólico das lutas femininas sem contribuir para elas.

São as que semeiam discórdias nas comunidades, que utilizam a acusação de discriminação como arma táctica e não como denúncia legítima, que entram em conflito constante com vizinhas, familiares, colegas, e culpam sempre o sistema patriarcal pelo que é, na verdade, má conduta individual. São as que ensinam às filhas que os homens são o problema em vez de ensiná-las que a educação é a solução. São as que preferem o conflito à construção.

Nomeá-las não é misoginia. É honestidade. Da mesma forma que existe o homem que usa o seu género como escudo para a irresponsabilidade, existe a mulher que usa a sua condição de mulher como licença para a impunidade. Ambos prejudicam o projecto colectivo. Ambos merecem ser nomeados sem eufemismos.

O 7 DE ABRIL QUE QUEREMOS: DATA OU DESTINO?

Josina Machel não morreu a 7 de Abril de 1971 para que a data fosse solenizada com capulanas e discursos vazios. Ela — e tantas outras cujos nomes a história não reteve — pagou com a vida o direito de uma geração sonhar diferente. Trair esse legado com a superficialidade da celebração anual é uma forma de violência simbólica que praticamos comodamente.

O 7 de Abril que Moçambique precisa é aquele que incomoda os gestores públicos a melhorar o sistema de saúde materno-infantil. Aquele que envergonha as empresas que pagam menos às mulheres qualificadas. Aquele que força as comunidades a rever práticas que negam às raparigas o acesso à educação. Aquele que celebra, de pé, a mulher que trabalha, resiste e constrói — não aquela que aguarda reconhecimento sem contribuição.

Há uma mulher que carrega o filho e o futuro com a mesma mão. Não pede aplausos. Não exige celebrações. Apenas pede que a deixem trabalhar, crescer e ser respeitada — todos os dias, não apenas no sétimo dia de Abril.

Às mulheres trabalhadoras, dedicadas, persistentes, às mães que criam sem descanso, às educadoras que moldam gerações, às agricultoras que alimentam nações, às empreendedoras que constroem sem rede de segurança, às filhas que estudam quando lhes dizem que não precisam — esta data é vossa. Não se deixem roubar por quem a instrumentaliza.

E à sociedade que ainda hesita em reconhecer o valor pleno da mulher moçambicana: o atraso tem um custo. E esse custo está a ser pago, silenciosamente, por quem menos pode pagar.


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