O AMOR QUE DESAFIA ALGEMAS
RuralImagine acordar numa quinta-feira comum e perceber que o problema não está só no Governo, nas dívidas pagas ao FMI ou nas análises que questionam se foi inteligente pagar tudo de uma vez ou em parcelas. O verdadeiro poder está nas nossas mãos – ou melhor, nos nossos pés, nas praias e nos quintais de Inhambane, Zambézia e Nampula. Ali, onde toneladas de cascas de coco são jogadas fora como lixo, existe um negócio que pode gerar milhões, reduzir o preço do carvão nas províncias e travar o contrabando que esvazia as nossas matas.
Sim, o carvão vegetal tradicional está caro. Em Maputo e em Inhambane, o saco comum saltou de 1.200 para 2.000 e de 300 para 600 meticais, respectivamente, em semanas de escassez causadas por cheias e cortes nas estradas. Há quem pague 2.500 meticais. E enquanto as famílias lutam para cozinhar, a Polícia apreende carregamentos inteiros – como os 1.400 sacos interceptados recentemente na província de Maputo com destino à África do Sul. O contrabando continua. As árvores continuam a cair. O ciclo de pobreza e desmatamento continua.
Mas e se eu lhe disser que o futuro já está aqui, escondido nas cascas que sobram da água de coco, do copra e do óleo que Moçambique exporta há décadas? É o carvão ecológico de coco – briquetes feitos de resíduos que queimam mais tempo, quase sem fumo, sem cheiro forte e sem destruir uma única árvore.
No Gana, por exemplo, o empresário Amin Sulley viu o mesmo problema: cascas de coco a serem descartadas nas ruas de Acra. Começou com dinheiro de propinas da faculdade, montou a Zaacoal e hoje exporta carvão ecológico que rende milhões de dólares. O segredo? Carbonizar os husks e as cascas em fornos de baixo oxigénio, moer, misturar com um aglutinante natural e prensar. Resultado: um produto premium que queima 2 a 3 vezes mais que o carvão de madeira, ideal para churrasco, cozinha doméstica e até shisha.
Moçambique tem tudo para repetir – e superar – essa história. Somos um dos maiores produtores de coco da África. Só em Inhambane há mais de 16 milhões de coqueiros. As províncias costeiras geram milhares de toneladas de resíduos por ano. E o melhor: a matéria-prima é praticamente gratuita.
Já existem iniciativas pioneiras entre nós. A Eco-Carvao Moz, de Sebastião Coana, transforma cascas de coco em briquetes desde 2015 e prova que o modelo funciona localmente. A startup Biomotta, liderada por Michaque Mota, vai mais longe: usa casca de coco, bagaço de cana, casca de arroz e outros resíduos para produzir carvão 100% ecológico, criando emprego e envolvendo estudantes da Universidade Eduardo Mondlane. A Madal, em Quelimane, já exporta carvão de coco para a Índia. São provas vivas de que não é utopia.
Este não é apenas um negócio. É um convite a mudar de mentalidade. Em vez de gastarmos energia a criticar o que o Governo faz ou deixa de fazer com a dívida externa, podemos perguntar: o que eu posso fazer com o que o país já tem? As cascas de coco são um símbolo perfeito da economia circular que Moçambique precisa: transformar desperdício em riqueza, proteger as florestas e gerar emprego rural sem depender de subsídios ou licenças complicadas.
Pense no impacto: menos desmatamento, menos fumo nas cozinhas das famílias, menos contrabando nas fronteiras e mais dinheiro a circular nas comunidades de Inhambane e Maputo. Um pequeno produtor pode começar com fornos simples e prensas manuais, vendendo primeiro no mercado local e depois exportando para Portugal, África do Sul ou Europa, onde o carvão “verde” é cada vez mais procurado.
É uma revolução silenciosa, mas profunda. Desperta a mente do jovem que sonha com um negócio próprio. Dá dignidade à mulher rural que hoje carrega lenha. E prova que a verdadeira independência económica começa quando paramos de olhar só para Maputo e começamos a valorizar o que a natureza – e a nossa própria terra – nos oferece de graça.
Não espere por mais um relatório ou por alguém “de cima” resolver. Comece pequeno. Colete cascas em mercados ou praias. Experimente carbonizar num tambor improvisado. Procure parcerias com cooperativas de coco ou com a UEM. O Governo até incentiva projectos verdes; use isso a seu favor.
Moçambique tem coco, tem sol, tem gente criativa. O que falta é olhar para as cascas não como lixo, mas como o bilhete de entrada para uma economia mais limpa, mais justa e mais rica.
E você? Vai continuar a pagar 2.000 meticais por um saco de carvão que vem das nossas florestas destruídas… ou vai transformar as cascas que estão à sua porta em milhões e em futuro?
O poder está nas suas mãos. E nas cascas de coco que, até ontem, você via como simples desperdício.
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