CASAMENTO COM VERDADEIRA BÊNÇÃO EXISTE SIM
Aquela imagem, num primeiro relance, aperta o coração: três crianças africanas, ajoelhadas em terra batida, de olhos fechados, mãozinhas juntas, diante de um crucifixo. Comovente. Parece inocência. Parece fé.
Mas quem olha com atenção — e com honestidade — começa a sentir um incómodo profundo. E esse incómodo merece ser dito, sem medo de ferir susceptibilidades.
O crucifixo ali colocado representa um homem branco, de cabelo liso, pele clara, traços europeus. Um Jesus que nunca existiu na Palestina do século I — e que, com certeza, nunca teve o tom de pele daquelas meninas.
Desde muito pequenas, estas crianças são ensinadas a curvar-se diante de uma imagem que as apaga racialmente. Prostrar-se perante um Deus branco é, sem que elas saibam, aceitar uma hierarquia invisível: o sagrado está no outro, no colonizador, nunca nelas próprias.
Isto não foi um acidente da história. É aquilo que muitos pensadores chamam de teologia colonialista — a fabricação de um Cristo à imagem do poder que dominava.
Elas estão de costas para nós. Ajoelhadas. Descalças. No chão. A fotografia, mesmo sem intenção, constrói uma cena de submissão total: física (corpo no chão), espiritual (cabeça baixa perante o crucifixo), cultural (a própria posição de orar diante de um símbolo estrangeiro).
Aqueles corpos pequenos, pretos, curvados diante de uma figura ocidental erguida num pedestal — isso não é apenas religião. É encenação de poder.
Em Moçambique e no resto do continente, o evangelho não veio sozinho. Veio com navios, com correntes, com a bandeira portuguesa e com o chicote dos capitães-mores. As missões religiosas foram, durante séculos, o braço espiritual do sistema colonial. E o que fizeram?
· Desmontaram sistemas de crença que funcionavam há gerações
· Ensinaram que as divindades africanas eram demónios ou feitiçaria
· Criaram uma obediência silenciosa nas populações dominadas
· Legitimaram a escravatura e o trabalho forçado como "vontade de Deus"
"Quando os missionários chegaram, nós tínhamos a terra e eles a Bíblia. Mandaram-nos fechar os olhos para rezar. Quando os abrimos, eles tinham a terra e nós ficámos com a Bíblia."
Uma criança não escolhe a sua fé. Ela recebe. Absorve. Repete. Antes de aprender a questionar, já aprendeu a ajoelhar. E é exactamente por isso que o sistema missionário sempre apostou nas escolas e nas missões infantis: formar a consciência antes que ela possa resistir.
Estas meninas estão a ser iniciadas, com toda a inocência, num sistema simbólico que durante séculos serviu para humilhar e subordinar os seus bisavós. Elas não sabem disso. Mas o sistema sabe.
Isso não é evangelizar. Isso é colonizar a alma na idade mais vulnerável.
Não está errado que crianças tenham fé. Não está errado que orem, que busquem algo maior que elas, que encontrem conforto na espiritualidade. O problema nunca foi a espiritualidade africana — sempre existiu, muito antes do cristianismo chegar.
O que está errado é o conteúdo específico que lhes foi ensinado: um Cristo fabricado à imagem do colonizador branco, imposto com violência cultural, e repetido hoje como se fosse neutro, natural, universal. Pois, no fundo o que importa saber, é que Deus é uma experiência e não uma imagem feita à medida de quem nos impõe a crer no que lhes apetece.
Esta imagem não é apenas uma cena bonita de devoção infantil. É um documento vivo de um trauma que ainda não sarou — o apagamento sistemático das identidades africanas, geração após geração, ensinando os filhos a adorar os símbolos daqueles que os escravizaram.
Até quando África vai continuar a ajoelhar diante de um Deus que não reflecte a sua própria imagem?
Talvez o primeiro passo da descolonização seja mesmo este: aprender a desconfiar do crucifixo que nos deram. E, depois, construir uma fé com a nossa cara, a nossa cor, a nossa história.
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