OS DOIS CRIMINOSOS QUE TE ROUBAM SEM ARMA
Dois criminosos sem arma que levam o teu dinheiro
No coração das nossas ruas, nas conversas de bicha no machimbombo ou nos cafés de Maputo, surge uma verdade incómoda: nem todos os ladrões precisam de pistola ou faca para te deixar sem um tostão. Existem dois tipos de criminosos que operam com uma elegância quase poética: um usa o corpo como arma silenciosa, o outro usa o fato e a lei como escudo invisível. Nenhum dispara. Nenhum ameaça fisicamente. Mas ambos saem com o teu dinheiro, a tua dignidade e, por vezes, com um pedaço da tua alma.
Pensa bem. De um lado, a figura que a sociedade aponta com dedo: a mulher que transforma desejo em transacção. Ela não força ninguém. Ela simplesmente existe, com curvas que falam mais alto que palavras, com um olhar que promete o paraíso temporário. Tu entras voluntariamente. Pagas. E no dia seguinte acordas mais pobre, mas com a ilusão de que foi escolha tua. É crime? A lei diz que sim, quando se trata de prostituição aberta. Mas será que a lei olha com os mesmos olhos para o outro lado?
Do outro lado está o homem (ou mulher) de terno impecável, gravata bem apertada, pasta de couro na mão. Ele não vende o corpo. Vende contratos, cláusulas, “oportunidades”. Ele convence-te de que o negócio é bom, de que o empréstimo é justo, de que o projecto vai mudar a tua vida. Quando acordas, já estás endividado até ao pescoço, a casa hipotecada, o negócio falido. Ele, entretanto, já cobrou os honorários, já fechou o processo e já está a sorrir para a próxima vítima. É crime? A lei diz que não. É “negócio”. É “advocacia”. É “gestão”.
E aqui entra a reflexão que nos incomoda: quem é o verdadeiro criminoso? Aquele que usa o corpo porque a pobreza lhe fechou todas as portas, ou aquele que usa o sistema porque a educação e as conexões lhe abriram todas as janelas? Ambos tiram dinheiro sem violência física. Ambos exploram uma fraqueza humana – o desejo ou a ganância. Mas só um vai para a cadeia. O outro vai para o banco.
Há quem diga que o do terno é o mais perigoso. Ele não te deixa com uma lembrança doce e um vazio na carteira. Ele deixa-te com documentos assinados, dívidas legais e a sensação de que foste tu o burro. Ele limpa-te a casa enquanto tu dormes, como se costuma dizer nas ruas. A mulher sedutora, pelo menos, é honesta na sua desonestidade: tu sabes o preço antes de entrar. O homem de fato esconde o preço até depois de saíres.
Mas será que estamos a ser justos? Em Moçambique, terra de resiliência e de sonhos adiados, ambos são filhos do mesmo sistema. Um nasce da miséria que obriga o corpo a ser moeda. O outro nasce da elite que transforma a lei em ferramenta de acumulação. Nenhum dos dois inventou as regras do jogo. Ambos aprenderam a jogar com o que têm: um com a beleza, outro com o conhecimento. Ambos estão a tentar “fazer a vida”, como dizemos nós.
A grande questão que fica é esta: numa sociedade onde o dinheiro manda mais que a moral, quem é inocente? O político que assina contratos duvidosos? O empresário que cobra juros absurdos? A jovem que vende o corpo para alimentar os filhos? Todos eles, de certa forma, são criminosos sem arma. Todos eles sobrevivem num mundo que premia a esperteza e castiga a ingenuidade.
Talvez o verdadeiro crime não esteja neles, mas em nós. Na nossa hipocrisia de condenar a prostituta e aplaudir o advogado. Na nossa facilidade em pagar pelo prazer momentâneo e na nossa cegueira perante o roubo legalizado. Na nossa incapacidade de criar um sistema onde ninguém precise de vender o corpo ou corromper a lei para sobreviver.
Por isso, da próxima vez que vires uma mulher de vestido justo a caminhar com confiança ou um homem de fato a sorrir com segurança, não tenhas pressa em julgar. Olha para ti mesmo. Quantas vezes já pagaste por algo que não precisavas? Quantas vezes já assinaste sem ler? Quantas vezes já foste cúmplice silencioso deste jogo?
Somos todos, de certa forma, criminosos sem arma. A diferença está em quem admite e quem usa o fato para esconder a verdade. A reflexão não é para apontar dedos. É para olharmos no espelho e perguntarmos: que tipo de criminoso sou eu hoje?
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