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QUANDO O DNA APAGA A PATERNIDADE E ACENDE A MONSTRUOSIDADE

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Um conto de Bukedea que envergonha a humanidade Foi em Bukedea, num recanto do Uganda onde o sol queima a terra e as histórias de opressão germam sem rebuço, que um homem decidiu reescrever as leis da natureza com a caneta podre da conveniência. Após um teste de ADN revelar que a sua filha de 19 anos, nesse caso criada, educada e amada como sua filha durante quase duas décadas, boom, não era biologicamente sua, o veredicto não foi de desilusão paternal. Foi de oportunismo cru: “Não vou desperdiçar dinheiro a educar uma rapariga tão bonita até à universidade. Agora que não é minha filha, quero que seja minha esposa”. E a jovem, num gesto que mais parece eco de sobrevivência do que consentimento livre, aceitou. Casamento marcado. O que dizer diante de tamanha putrefacção moral sem vomitar as palavras? É preciso esfriar o peito para analisar, mas o que arde aqui não é só o sangue, é a consciência colectiva de uma sociedade que ainda aplaude, ou tolera, a transformação de uma filha em tro...

A CRIANÇA QUE HERDOU A GUERRA

Esta é a Infância que o Mundo Esquece que Existe

Olhe bem para esta foto. 

No meio da terra seca, entre cabras magras e arbustos sem vida, um menino sorri. Os dentes brancos contrastam com a pele marcada pelo sol e pela vida dura. Tem uma arma velha atravessada nas costas, como se fosse uma mochila da escola. Os pés descalços tocam o chão poeirento. Nas mãos, não carrega brinquedos, mas sim o peso de uma Kalashnikov.

Esta é a criança que herdou a guerra.

Não escolheu nascer no meio do conflito. Não pediu para trocar os jogos da infância por balas e medo. Enquanto muitas crianças no mundo sonham com bicicletas e telemóveis, ele aprendeu cedo que a sobrevivência muitas vezes exige carregar uma arma maior do que o seu próprio corpo.

Em Moçambique, especialmente no norte, em Cabo Delgado, esta imagem não é apenas uma fotografia do passado. É uma realidade que continua a repetir-se. Grupos armados raptam meninos e meninas, transformando-os em soldados, carregadores ou escudos humanos. A guerra rouba-lhes a escola, a família e o direito mais básico: o de ser criança.

Mas o que mais assusta não é só a arma. É o sorriso.  

Aquele sorriso teimoso mostra que, mesmo no meio do inferno, a infância tenta resistir. Tenta manter um resto de humanidade. No entanto, por trás dos olhos brilhantes, esconde-se o trauma que vai acompanhar essa criança para o resto da vida: pesadelos, medo constante, dificuldade de confiar nos outros e uma inocência que foi assassinada antes do tempo.

Esta é a infância que o mundo esquece.

Enquanto nas redes sociais discutimos trivialidades, há meninos como este que acordam todos os dias sem saber se vão ver o pôr do sol. O mundo olha, partilha uma foto, sente um aperto no peito por dois segundos e depois continua a sua vida. Mas para ele, a guerra não é uma notícia. É o seu quotidiano.

Quantas crianças moçambicanas já carregaram Kalashnikovs antes de aprenderem a ler? Quantas trocaram a pastora de cabras pela vida de soldado sem nunca terem tido escolha? Claro, por onde não passou a guerra de libertação, dos 16 anos, conflito político-militar, terrorismo, etc, é só pura abordagem de narrativa para passar o tempo.

A reflexão é dura, mas necessária: enquanto não protegermos verdadeiramente as nossas crianças, não podemos falar de um futuro melhor para Moçambique, por exemplo. A paz não se constrói só com acordos de cessar-fogo. Constrói-se protegendo a infância, devolvendo às crianças o direito de sonhar, estudar e brincar sem o peso de uma arma nas costas. Tanto os sons, quanto as ordens para execução de qualquer operação.

Olhe novamente para o menino da foto.  

Ele não é apenas uma imagem impactante. Ele é o espelho da nossa consciência colectiva. 

A criança que herdou a guerra não merece o nosso silêncio. Merece a nossa atenção, a nossa voz e a nossa acção. E não discutir política nacional, não é ser selectivo ou não se identificar com a política e não ser político, é covardia e antipatia extrema.

Porque enquanto houver uma criança com uma arma nas costas em vez de uma mochila, a guerra ainda não acabou de verdade.

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