QUANDO O DNA APAGA A PATERNIDADE E ACENDE A MONSTRUOSIDADE
No meio da terra seca, entre cabras magras e arbustos sem vida, um menino sorri. Os dentes brancos contrastam com a pele marcada pelo sol e pela vida dura. Tem uma arma velha atravessada nas costas, como se fosse uma mochila da escola. Os pés descalços tocam o chão poeirento. Nas mãos, não carrega brinquedos, mas sim o peso de uma Kalashnikov.
Não escolheu nascer no meio do conflito. Não pediu para trocar os jogos da infância por balas e medo. Enquanto muitas crianças no mundo sonham com bicicletas e telemóveis, ele aprendeu cedo que a sobrevivência muitas vezes exige carregar uma arma maior do que o seu próprio corpo.
Em Moçambique, especialmente no norte, em Cabo Delgado, esta imagem não é apenas uma fotografia do passado. É uma realidade que continua a repetir-se. Grupos armados raptam meninos e meninas, transformando-os em soldados, carregadores ou escudos humanos. A guerra rouba-lhes a escola, a família e o direito mais básico: o de ser criança.
Aquele sorriso teimoso mostra que, mesmo no meio do inferno, a infância tenta resistir. Tenta manter um resto de humanidade. No entanto, por trás dos olhos brilhantes, esconde-se o trauma que vai acompanhar essa criança para o resto da vida: pesadelos, medo constante, dificuldade de confiar nos outros e uma inocência que foi assassinada antes do tempo.
Enquanto nas redes sociais discutimos trivialidades, há meninos como este que acordam todos os dias sem saber se vão ver o pôr do sol. O mundo olha, partilha uma foto, sente um aperto no peito por dois segundos e depois continua a sua vida. Mas para ele, a guerra não é uma notícia. É o seu quotidiano.
Quantas crianças moçambicanas já carregaram Kalashnikovs antes de aprenderem a ler? Quantas trocaram a pastora de cabras pela vida de soldado sem nunca terem tido escolha? Claro, por onde não passou a guerra de libertação, dos 16 anos, conflito político-militar, terrorismo, etc, é só pura abordagem de narrativa para passar o tempo.
A reflexão é dura, mas necessária: enquanto não protegermos verdadeiramente as nossas crianças, não podemos falar de um futuro melhor para Moçambique, por exemplo. A paz não se constrói só com acordos de cessar-fogo. Constrói-se protegendo a infância, devolvendo às crianças o direito de sonhar, estudar e brincar sem o peso de uma arma nas costas. Tanto os sons, quanto as ordens para execução de qualquer operação.
Ele não é apenas uma imagem impactante. Ele é o espelho da nossa consciência colectiva.
A criança que herdou a guerra não merece o nosso silêncio. Merece a nossa atenção, a nossa voz e a nossa acção. E não discutir política nacional, não é ser selectivo ou não se identificar com a política e não ser político, é covardia e antipatia extrema.
Porque enquanto houver uma criança com uma arma nas costas em vez de uma mochila, a guerra ainda não acabou de verdade.
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