Publicação em destaque

HOMENS QUEIMADOS NO LAR

A Vergonha que Mata Mais que o Óleo Quente em Moçambique

Às vezes dá medo se casar... Olhe para a foto que serve de capa deste artigo. Um homem deitado de bruços, o corpo nu coberto de crostas escuras e feridas abertas que expõem a carne viva. As costas, os ombros, as nádegas – tudo marcado por queimaduras graves, como se alguém tivesse derramado uma panela de óleo a ferver ou água a escaldar em cima dele enquanto dormia ou tentava fugir. Não é uma imagem de guerra. Não é um acidente de trabalho. É o resultado de violência doméstica. E a vítima é um homem moçambicano.

@whatsapp

"Homens estão a sofrer, e o pior é a vergonha de denunciar." Esta frase, que acompanha a imagem, não é exagero. Mésio, um rapper nortenho, uma vez chamou o público em geral para reflectir sobre o assunto numa das suas músicas. É a dura realidade que se repete nos bairros de Maputo, Matola, Beira, Dondo, Pemba, Manica, etc. 

Casos recorrentes, documentados pela imprensa moçambicana e pela Polícia da República de Moçambique, mostram mulheres – muitas vezes esposas ou companheiras – a recorrerem ao óleo de cozinha quente, à água fervida ou mesmo à gasolina como arma de retaliação em discussões conjugais. Um simples desentendimento sobre dinheiro, infidelidade suspeita, divisão de tarefas ou até a falta de uma capulana no Dia da Mulher Moçambicana (7 de Abril) pode acabar em queimaduras de segundo e terceiro grau.

Não são casos isolados. Em 2017, Rúben Matsombe, da Matola, morreu no Hospital Central de Maputo depois de a esposa lhe ter regado o corpo com óleo quente durante uma discussão sobre traição. Em Dondo, Sofala, uma mulher foi detida por derramar óleo fervente sobre o marido. Em Pemba e Nampula, relatos recentes falam de maridos queimados com água quente por "não terem dado nada" no dia da mulher. Em Manica, só entre abril e junho de 2020, o Gabinete de Atendimento à Mulher e Criança Vítimas de Violência Doméstica registou 33 queixas de homens agredidos – um recorde –, com oito a sofrerem ferimentos graves, incluindo torturas físicas e "encharcamentos" com água como forma de humilhação. Em 2024, só na Cidade de Maputo, os serviços de atendimento registaram centenas de homens entre as vítimas de violência doméstica.

Estes números são apenas a ponta do iceberg. A maioria dos homens não denuncia. Porquê? Porque a sociedade moçambicana ainda ensina que "homem que é homem aguenta". Denunciar significa ser visto como fraco, como "mandado pela mulher", como traidor do código da masculinidade que exige silêncio e resistência. A vergonha é mais dolorosa que as queimaduras. Enquanto as campanhas contra a violência doméstica – legítimas e necessárias – se concentram quase exclusivamente nas mulheres (e com razão, pois elas são a maioria das vítimas), o sofrimento masculino fica invisível. Isso não anula a violência contra as mulheres. Pelo contrário: perpetua um ciclo onde a violência, seja ela qual for, é tolerada desde que se enquadre nos papéis de género tradicionais.

O que está por trás destes actos? Não é "empoderamento feminino" mal entendido. É, muitas vezes, a mesma raiz tóxica que alimenta a violência contra as mulheres: frustração económica, ciúmes, stress dos casamentos precários, alcoolismo, poligamia mal gerida ou simplesmente a falta de ferramentas emocionais para resolver conflitos. Em contextos de pobreza urbana, onde o desemprego e as expectativas culturais pesam sobre ambos os sexos, o lar transforma-se em campo de batalha. O óleo quente torna-se a "justiça" improvisada de quem se sente impotente. Mas a vingança não cura nada. Apenas deixa cicatrizes – literais e emocionais – que duram para sempre.

Este fenómeno desafia o discurso dominante. Não se trata de "competição de vítimas". Trata-se de reconhecer que a violência doméstica não tem género exclusivo. Ignorá-la nos homens não torna as mulheres mais seguras; torna toda a sociedade mais doente. Precisamos de políticas inclusivas: gabinetes de atendimento que não olhem o sexo da vítima, campanhas de sensibilização que digam aos homens "a tua dor também conta", formação policial para tratar estas queixas sem preconceito e educação nas escolas que desmonte a ideia de que "homem não chora".

A foto que abre este texto não é só chocante. É um grito silencioso. Representa milhares de homens que, neste exacto momento, estão a sofrer em segredo, com as costas marcadas e o orgulho ferido. Homens que voltam para casa com medo, que escondem as queimaduras debaixo da camisa e que, no fundo, só querem ser ouvidos sem serem julgados.

Moçambique, chegou a hora de quebrar o silêncio total. Não só o das mulheres. Também o dos homens. Porque um país que protege apenas metade das suas vítimas nunca será verdadeiramente justo. A dor não escolhe género. A justiça também não deve escolher.

Que esta reflexão sirva de alerta. E que a próxima foto que virmos não seja de mais um homem queimado, mas de uma sociedade que finalmente decidiu tratar todas as feridas.

Relacionados:

A REALIDADE SUAVIZADA DE ALGUNS RELACIONAMENTOS AMOROSOS


Comentários