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COISAS QUE NUNCA ME ENSINARAM: A BALANÇA QUE OS ANTEPASSADOS NOS LEGARAM

Porque Ninguém Está Acima de Ninguém

Vamos ser honestos. Durante muito tempo, fomos ensinados, através de lentes que nos foram impostas, que a hierarquia entre o homem e a mulher era uma constante natural e imutável. Disseram-nos que um devia dominar e o outro, submeter-se. Mas se há coisa que as “Coisas que Nunca Me Ensinaram” neste espaço do Verbalyzador.blogspot.com nos vem recordar, é que os nossos verdadeiros mestres — os antepassados — tinham uma visão bem mais sofisticada e, diria até, mais justa. Eles não olhavam para a relação entre o homem e a mulher como uma disputa de poder, mas como um acto de equilíbrio. A máxima é simples, mas profunda: 

A Man is NOT above a Woman & a Woman is NOT above a Man. Our Ancestors dealt with Balance.

Crescemos, muitas vezes, com a narrativa ocidental e patriarcal que nos vendeu a ideia de que a força bruta era sinónimo de liderança e que a ternura ou a intuição eram sinais de fraqueza. Contudo, ao olharmos para as estruturas sociais profundas de Moçambique e de muitas outras sociedades bantu antes da colonização, descobrimos que o poder não era uma linha recta vertical, mas sim um círculo horizontal. Nas comunidades, o homem tinha o seu espaço no khoro (a corte, o espaço de discussão comunitária), mas a mulher detinha a autoridade no lumbundo (o espaço doméstico, mas que não era menor; era o centro da economia, da educação e da coesão familiar).

Os nossos antepassados entendiam algo que a modernidade ainda luta para compreender plenamente: que a dualidade não é uma competição. A terra não compete com a chuva; o dia não compete com a noite. Eles sabiam que para a colheita ser farta, para o clã ser forte, para a linhagem ser respeitada, era necessário que homem e mulher caminhassem em sintonia, cada um com o seu peso, cada um com a sua função, mas com igual valor intrínseco.

Quando falamos de “balanço” ou equilíbrio, não estamos a falar de uma igualdade matemática e fria, onde se ignoram as diferenças biológicas ou sociais. Estamos a falar de uma igualdade ontológica, ou seja, do reconhecimento de que ambos são seres completos, indispensáveis e que nenhum se realiza plenamente sem o reconhecimento do outro. Na cultura tradicional moçambicana, por exemplo, a figura da Rainha-Mãe ou Mamana era intocável. Ela não era apenas a esposa do chefe; ela era a conselheira máxima, a guardiã dos ritos de passagem e, em muitos casos, aquela que tinha a palavra final sobre a paz e a guerra. O chefe (régulo) governava com o povo, mas não governava sem o conselho das mulheres mais velhas.

O desequilíbrio que testemunhamos hoje — a violência de género, a marginalização da mulher em certos espaços de decisão ou, inversamente, a desvalorização do papel do homem em contextos de crise identitária — é, em grande parte, fruto da ruptura desse equilíbrio ancestral. A colonização, ao impor uma visão maniqueísta e patriarcal europeia, sobrepôs uma lógica de “senhor vs. submisso” sobre a nossa lógica de “complementaridade”. E nós, infelizmente, normalizamos essa distorção ao ponto de acreditarmos que ela sempre existiu.

Resgatar este ensinamento não é um exercício de nostalgia, mas um acto de sobrevivência e sanidade social. Quando dizemos que o homem não está acima da mulher, estamos a afirmar que nenhum género tem o monopólio da razão, da força ou da moral. Quando dizemos que a mulher não está acima do homem, estamos a rejeitar qualquer tentativa de vingança histórica ou inversão de papéis que também desequilibre a balança. O equilíbrio, como nos ensinam os ancestrais, é dinâmico. Há momentos em que a mulher deve assumir a frente — como na gestação da vida e na transmissão da língua materna — e momentos em que o homem deve assumir a sua — como na protecção física do território ou em certos rituais. Mas nenhum desses momentos confere superioridade permanente; conferem, sim, responsabilidades específicas.

Portanto, ao partilharmos esta reflexão numa Quarta-feira, no espírito do Verbalyzador, estamos a lançar um desafio: que possamos desaprender as hierarquias tóxicas e reaprender a arte da complementaridade. Que possamos olhar para as nossas casas, para as nossas comunidades, e perguntar: estamos a honrar o equilíbrio que os nossos avós e avós conheciam? Ou continuamos a lutar por um lugar no topo, esquecendo que o verdadeiro poder sempre esteve na capacidade de saber segurar a balança juntos?

O futuro que queremos construir nas nossas relações — mais justas, pacíficas e prósperas — não será construído por homens sozinhos nem por mulheres sozinhas. Será construído na base do xikwembu (espírito de comunidade), onde cada um reconhece que, sem o outro, o chão treme. Porque, como bem dizia a sabedoria antiga, não se faz uma esteira com uma só palha, nem se constrói uma família ou uma nação com apenas um pilar. A balança está nas nossas mãos. Cabe a nós não a deixar cair.



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