O PODER DO NOME NO CASAMENTO
Por Carlos Langa, Nampula
Nos últimos dias, circularam nas redes sociais e em alguns órgãos de comunicação regionais a notícia de um jovem que perdeu a vida de forma brutal, no vizinho Estado da Nigéria, vítima de um ataque movido por ciúme. Aconteceu na comunidade de Afaha Nsit II, quando o suposto agressor encontrou a sua parceira num momento íntimo com outro homem. O que poderia ter sido uma conversa difícil, mas civilizada, transformou-se num acto de violência irreversível. Uma vida apagada. Uma família em luto. Um agressor que, além de tirar um semelhante, destruiu o seu próprio futuro.
A comoção diante de tragédias como esta deveria bastar para nos fazer repensar comportamentos. Infelizmente, em Moçambique, não são raros os casos de homicídios e agressões graves motivados por suspeitas de infidelidade ou por disputas amorosas. De Maputo a Nampula, da Beira a Lichinga, os noticiários locais, as conversas de machimbombo e os debates nas esquadras policiais repetem o mesmo padrão: a incapacidade de gerir emoções transforma-se em violência, e a violência cobra vidas.
O que leva um ser humano a empunhar uma arma, uma faca ou até as próprias mãos contra outro por causa de um relacionamento? A resposta não é simples, mas passa, inevitavelmente, pela forma como fomos educados para lidar com a rejeição, com a posse e com o chamado “direito” sobre o outro. Em muitas comunidades moçambicanas, ainda persiste a ideia de que a parceira ou o parceiro é uma propriedade. O ciúme, em vez de ser visto como um sentimento a gerir, é romantizado como prova de amor. E é aí que mora o perigo.
Comentários em publicações sobre este tipo de crime revelam uma realidade preocupante. Há quem justifique a violência com frases como “ela provocou” ou “ele não devia andar a namorar mulher dos outros”. Transferir a culpa para a vítima ou para a pessoa amada é um mecanismo perigoso que alimenta a cultura do machismo e da impunidade. A verdade é que ninguém merece morrer por amar. Ninguém merece ser agredido por sentir. E nenhum sentimento de posse justifica o fim de uma vida.
Do ponto de vista social, estamos perante um problema de saúde pública. A falta de competências emocionais – como o autocontrolo, a empatia e a negociação de conflitos – gera explosões de raiva que muitas vezes terminam em tragédia. As escolas, as igrejas, os líderes comunitários e as famílias têm um papel crucial na desconstrução desta narrativa tóxica. É urgente ensinar, desde cedo, que o amor não exige posse, que o fim de um relacionamento não é o fim do mundo e que existem sempre alternativas pacíficas para resolver desentendimentos.
As autoridades moçambicanas, por seu turno, enfrentam o desafio de aplicar a lei com rigor em casos de violência passional, mas também de investir em campanhas de prevenção. A criação de gabinetes de mediação de conflitos familiares e comunitários, a par de linhas de apoio psicológico acessíveis, poderia reduzir significativamente o número de ocorrências fatais. Contudo, enquanto a sociedade continuar a naturalizar que “os homens são assim” ou que “o ciúme é normal”, pouca coisa mudará.
A vida do jovem nigeriano que morreu naquele distrito de Nsit Ibom poderia ter sido poupada. Bastava que alguém, em algum momento, tivesse dito ao agressor: “Respira. Afasta-te. Nenhuma traição vale uma cadeia ou um caixão.” Esta reflexão não é apenas para os que pegam em armas, mas para todos nós. Quantas vezes, por ciúme, insultamos, agredimos ou humilhamos quem dizemos amar? Quantas relações destruímos por não sabermos lidar com a insegurança?
Chegou o momento de encarar o ciúme como aquilo que ele realmente é, quando descontrolado: um sintoma de fragilidade, não de força. Um veneno que corrói a confiança e abre portas à violência. Honrar a memória de quem se foi exige mais do que lamentações nas redes sociais. Exige acção. Exige conversas difíceis nos bairros, nas escolas e dentro de casa. Exige que cada um de nós aprenda a dizer “até aqui” antes que a emoção se transforme em tragédia.
E você, leitor de Nampula, da Beira, de Maxixe ou de qualquer outro recanto deste país e do mundo: já parou para pensar como lida com o ciúme? Já ensinou aos seus filhos que o respeito pelo outro deve estar sempre acima de qualquer sentimento de posse? A mudança começa em cada um de nós. E começa agora. Descanse em paz o malogrado.
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