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O REGISTO QUE O AMANHÃ NÃO PERDOA

A imagem fica. O futuro, nem sempre.

Passa a grande festa das mulheres e pesadelos para alguns relacionamentos mal estruturado, s compostos por indivíduos ou seres humanos que mal se importam ou pelo menos fingem saber o que querem nos diversos casos. Porém, há outro lado sombrio que marca os momentos dessa festa, que às vezes, o evento acolhe uma celebração comovente e misturada de várias emoções e exageros incontroláveis, etc. Sinal de que nesses ambientes, nos esquecemos frequentemente que vivemos numa época em que a memória já não depende apenas da mente. 

Depende do ecrã. Depende da ligação à internet. Depende de um dedo que carregou num botão sem pensar nas consequências — ou pensando apenas no instante, sem considerar o amanhã, a individualidade dos envolvidos na captação da imagem em alusão e dentre outros aspectos, relevantes ou não, dependendo dos registos. 

Nesse contexto, a mulher africana, e a moçambicana em particular, cresce num mundo de contradições cruéis. É-lhe exigida presença, beleza, alegria, sociabilidade. Mas é também julgada pela forma como essa presença se manifesta. Dança, mas não assim. Sorri, mas não tanto. Existe, mas com medida.

E quando a medida falha — ou quando simplesmente se é jovem, e a juventude tem a sua própria lógica — o registo permanece. Uma fotografia. Um vídeo. Uma publicação que circula sem pedir licença. E o que era um momento de liberdade transforma-se, anos depois, numa sombra que acompanha currículos, candidaturas, relações e reputações.

O problema não é a festa. É o arquivo.

Nenhuma geração anterior enfrentou este dilema com a mesma intensidade. As avós erraram, celebraram, viveram — e esse passado ficou na memória das pessoas, sujeito ao esquecimento natural do tempo. Hoje, o tempo não apaga. O algoritmo indexa. O passado torna-se pesquisável. E o que foi vivido em privado pode emergir em público no pior momento possível.

Para a mulher, este risco é desproporcionalmente severo. O homem que aparece num registo comprometedor raramente paga o mesmo preço social. É julgado com condescendência, por vezes até com admiração velada. A mulher, não. Sobre ela recai o peso do simbolismo moral que a sociedade nunca deixou de lhe atribuir: guardiã dos valores, espelho da família, exemplo para os filhos.

Esta assimetria não é nova. O que é novo é a ferramenta que a perpetua com uma eficiência sem precedentes.

A liberdade tem um preço que ninguém avisa na entrada.

Não se trata de condenar a festa, a dança, a celebração ou a juventude. Trata-se de reconhecer que vivemos numa sociedade que ainda não aprendeu a separar o momento da pessoa. Que ainda confunde um registo com um carácter. Que ainda usa o passado como arma contra o presente.

E enquanto essa maturidade colectiva não chegar, a mulher jovem carrega sozinha o peso de uma equação injusta: ser livre custa caro. Ser cautelosa custa a juventude.

Nenhuma das opções deveria ter este preço. Mas têm.

E o amanhã, infelizmente, não negocia com a boa intenção de ontem.





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