QUANDO O DNA APAGA A PATERNIDADE E ACENDE A MONSTRUOSIDADE
Somos testemunhas e actores de um tempo em que as cidades crescem depressa e as aldeias se esvaziam, vale a pena pararmos e olharmos para dentro de casa. Porque a casa não é apenas um tecto e quatro paredes: é o primeiro país que uma criança conhece. É ali, no calor do fogo ou no cheiro do arroz com peixe, que se constrói ou se destrói o futuro de toda uma nação. Um provérbio africano antigo diz, com a sabedoria que só o tempo traz: “A ruína de uma nação começa nas casas do seu povo. Se destruíres a família, destruíste o povo.”
Esta verdade não é poética. É cirúrgica. Em Moçambique, por exemplo, onde a família sempre foi o grande hospital, a grande escola e o grande banco de memória, o enfraquecimento desse núcleo está a abrir feridas que já não se fecham com discursos de palanque nem com projectos de ONG. Quando o pai desaparece nas minas da África do Sul ou nas ruas de Maputo à procura de um biscate que mal chega para o dia, quando a mãe carrega sozinha o peso de cinco bocas e o cansaço de três empregos informais, quando os filhos crescem entre o telemóvel e o silêncio, a nação inteira sente o abalo.
Não é exagero. A família moçambicana tradicional – aquela que juntava avós, tios, primos e vizinhos num mesmo quintal – era a rede de segurança que o Estado nunca conseguiu substituir. Era ali que se aprendia o respeito, o trabalho, a palavra dada e a vergonha de errar. Era ali que se curavam as tristezas e se celebravam as vitórias. Hoje, essa rede está rota. O urbanismo selvagem, a pobreza crónica, o álcool que entra mais cedo nas casas do que o pão, a televisão que vende sonhos impossíveis e as redes sociais que comparam vidas que não são nossas… tudo isso conspira contra o lar.
E o que acontece quando o lar falha? Os jovens saem à rua sem bússola. Procuram nos grupos de pares o que não encontraram em casa: identidade, pertença, autoridade. Alguns encontram a droga, outros prostituição, a violência, outros ainda a indiferença que mata mais devagar. As estatísticas oficiais falam de criminalidade juvenil, de gravidezes precoces, de abandono escolar. Mas as estatísticas não choram. Quem chora são as mães que enterram filhos antes do tempo, os avós que criam netos como se fossem filhos pela segunda vez, os professores que recebem alunos que nunca aprenderam a olhar nos olhos de um adulto.
Reflictamos com honestidade: a família não é um luxo romântico. É a fábrica de cidadãos. É onde se aprende que o “nós” vem antes do “eu”. Quando essa fábrica entra em pane, o país inteiro produz gente fragmentada, desconfiada, pronta a trocar o longo prazo pelo prazer imediato. E um povo assim não constrói. Sobrevive. No máximo.
Mas há esperança, e ela também nasce em casa. Não é preciso esperar por leis nem por campanhas governamentais. Cada família moçambicana que decide voltar a sentar-se à mesa, que decide contar histórias dos antepassados, que decide ensinar o valor do suor e da palavra, está a reconstruir a nação tijolo por tijolo. O pai que chega cedo para ver o filho jogar bola na terra batida, a mãe que desliga o telemóvel para ouvir o que a filha tem para dizer, o casal que escolhe ficar e resolver em vez de fugir e recomeçar… esses são os verdadeiros patriotas. Os que entendem que amar a pátria começa por amar quem dorme debaixo do mesmo tecto.
O provérbio não é um lamento. É um chamado. Em Moçambique, terra de gente resiliente que já renasceu de guerras e de ciclones, ainda é possível inverter o rumo. Basta olharmos para os nossos lares como o que realmente são: o coração pulsante da nação. Se o coração bater forte, o corpo todo se levanta. Se o coração enfraquecer, nem os melhores discursos salvam.
Por isso, a pergunta que fica não é para o Governo, nem para a comunidade internacional. A pergunta é para cada um de nós: que tipo de casa estou a construir hoje? Porque o amanhã de Moçambique não se decide no Parlamento. Decide-se à volta da mesa do jantar, no quintal onde as crianças brincam, no quarto onde um casal decide perdoar mais uma vez.
A ruína começa em casa. Mas a ressurreição também. A escolha é nossa. E o tempo, irmão, não espera.
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