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A CRIANÇA QUE HERDOU A GUERRA

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Esta é a Infância que o Mundo Esquece Olhe bem para esta foto.  No meio da terra seca, entre cabras magras e arbustos sem vida, um menino sorri. Os dentes brancos contrastam com a pele marcada pelo sol e pela vida dura. Tem uma arma velha atravessada nas costas, como se fosse uma mochila da escola. Os pés descalços tocam o chão poeirento. Nas mãos, não carrega brinquedos, mas sim o peso de uma Kalashnikov. Esta é a criança que herdou a guerra. Não escolheu nascer no meio do conflito. Não pediu para trocar os jogos da infância por balas e medo. Enquanto muitas crianças no mundo sonham com bicicletas e telemóveis, ele aprendeu cedo que a sobrevivência muitas vezes exige carregar uma arma maior do que o seu próprio corpo. Em Moçambique, especialmente no norte, em Cabo Delgado, esta imagem não é apenas uma fotografia do passado. É uma realidade que continua a repetir-se. Grupos armados raptam meninos e meninas, transformando-os em soldados, carregadores ou escudos humanos. A guerra ro...

O PASSO LARGO DA ÁFRICA ORIENTAL E O PASSO CURTO DE MOZ

Uma Reflexão sobre a Integração Financeira

Por: [Lino TEBULO/ Observador]
linoisabelmucuebo@gmail.com 

Quando o Leste Africano Decide Caminhar Mais Depressa

Enquanto Moçambique debate internamente os entraves burocráticos e as práticas que excluem o cidadão comum do acesso às fintechs, a África Oriental dá um salto qualitativo que nos obriga a uma reflexão profunda e desconfortável. A notícia divulgada pelo TechCabal sobre o Quénia e o Ruanda a prepararem um quadro jurídico para o reconhecimento mútuo de licenças de pagamentos digitais não é apenas um avanço para aqueles dois países; é um espelho colocado diante da nossa própria paralisia.

Enquanto nós nos preocupamos em erguer muros regulatórios que dificultam a vida do cidadão comum, estes dois países estão a derrubar fronteiras para criar um mercado único de serviços financeiros digitais. Por exemplo, pela nossa longa convivência com África do Sul, já devíamos cogitar esse nível de parcerias. 

O Contraste: Visão Estratégica vs. Conservadorismo Local

A iniciativa Quénia-Ruanda é um exemplo de regulação inteligente e orientada para o futuro. Ao permitir que uma empresa de pagamentos digitais licenciada num dos países opere no outro sem uma nova aprovação regulatória, estes governos estão a fazer exatamente o oposto do que observamos em Moçambique. Eles estão a:

1. Reconhecer a natureza sem fronteiras do digital: O dinheiro e os dados movem-se à velocidade da luz; porque haviam as empresas e os reguladores de se mover à velocidade do papel?

2. Apostar na harmonização em vez da duplicação: Em vez de cada país exigir um processo de licenciamento distinto e moroso, criam um passaporte único para a inovação. Isto reduz custos, atrai investimento e acelera a entrada de serviços no mercado.

3. Colocar o cidadão no centro: O beneficiário final desta medida é o cidadão comum, que passará a ter mais opções de serviços, potencialmente mais baratos e mais competitivos, e a possibilidade de realizar transações cross-border com a mesma facilidade com que envia uma mensagem.

Em contraste, o que vemos no nosso país? As nossas discussões ainda estão centradas em como apertar os critérios de know-your-customer (KYC) para o cidadão que vive na zona rural, ou em como exigir garantias exorbitantes a pequenas startups que querem inovar. Enquanto o Quénia e o Ruanda preparam o terreno para um mercado de dezenas de milhões de consumidores, Moçambique ainda debate como incluir o cidadão que está dentro das suas próprias fronteiras.

Moçambique e o Risco do Isolamento Financeiro

Esta parceria entre Nairobi e Kigali não é um evento isolado. É um passo concreto no caminho para a integração económica da Comunidade da África Oriental (EAC). E coloca uma questão crucial para Moçambique, especialmente na qualidade de membro observador da SADC e com aspirações de maior integração regional:

O que estamos a fazer para não ficarmos para trás?

Se o Quénia e o Ruanda conseguem alinhar os seus interesses e criar um passaporte fintech, porque é que Moçambique e a África do Sul, por exemplo, ainda enfrentam tantas dificuldades em harmonizar os seus sistemas de pagamento transfronteiriços?

A resposta pode residir na diferença de abordagem. Enquanto aqueles países veem a regulação como uma ferramenta de facilitação e estímulo à concorrência, em Moçambique, a prática dominante, como referi na reflexão anterior, tem sido a de usar a regulação como um instrumento de controlo e, muitas vezes, de protecção dos operadores históricos.

Uma Lição para os Nossos Decisores

A notícia vinda do TechCabal deveria servir como um tema de estudo obrigatório para o Banco de Moçambique, o Ministério da Economia e Finanças, e todos os players do setor fintech nacional.

A pergunta que um cidadão atento deve fazer aos nossos decisores é simples e direta:

· Se o Quénia e o Ruanda, com realidades socioeconómicas complexas, conseguiram sentar-se à mesa e desenhar um futuro comum para as fintechs, porque não conseguimos nós, em Moçambique, sequer simplificar o processo para que um cidadão da Beira ou de Nampula possa abrir uma conta digital sem ser tratado como um potencial criminoso?

O futuro da inclusão financeira em Moçambique não pode continuar refém de uma visão curta e ensimesmada. Ou aprendemos com os passos largos que estão a ser dados na nossa região, ou condenaremos o nosso povo a uma eterna "segunda divisão" da economia digital, vendo os outros ultrapassarem-nos enquanto nós ainda discutimos os detalhes mais básicos da inclusão. A janela de oportunidade está a fechar-se; a decisão sobre a abrir ou não está exclusivamente nas mãos de quem nos governa e regula.

Mas prontos, de finanças e tecnologias como ferramenta de desenvolvimento nos nossos dias os senhores não percebem. Vamos esperar a guerra do Irão - EUA e Israel terminar e irmos pedir apoio em dívidas financeiras para "financiar" a nossa preguiça de pensar e gastar em Dubai com vossas famílias. Ou desviar ajuda humanitária das vítimas das cheias e inundações e bancar as campanhas do partido. Disse um cidadão no aeroporto internacional de Nairobi. 

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