A VERDADE DA FINAL DA CAN 2025
Doutro lado os actuais campeões e do outro: os internautas estão zombando a seleção do Marrocos por causa de polêmicas na CAN 2025. Em jogos contra Nigéria e Senegal, funcionários marroquinos foram acusados de roubar toalhas dos guarda-redes adversários antes de pênaltis, possivelmente para atrapalhar. Virou meme sobre "ladrões de toalha".
A Copa Africana das Nações (CAN) de 2025, realizada em Marrocos entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, entrou para a história como uma das edições mais intensas, polémicas e reveladoras do futebol africano contemporâneo. O torneio culminou com a vitória do Senegal sobre a selecção anfitriã por 1-0, após prolongamento, numa final disputada no Estádio Príncipe Moulay Abdellah, em Rabat.
O golo decisivo foi marcado por Pape Gueye aos 94 minutos, garantindo ao Senegal o seu segundo título continental em três edições, depois da conquista de 2022. Contudo, mais do que o resultado desportivo, a CAN 2025 ficou marcada por um conjunto de episódios que expuseram fragilidades organizacionais, tensões políticas e desafios estruturais que a Confederação Africana de Futebol (CAF) continua a enfrentar.
Desde a candidatura até à realização do evento, Marrocos apresentou-se como um anfitrião ambicioso. O país investiu fortemente em infra-estruturas modernas, incluindo estádios de padrão internacional e centros de treino de referência, como o Complexo Mohammed VI, amplamente elogiado pelas selecções participantes.
A competição contou com 24 selecções e ofereceu momentos de elevado nível técnico. Marrocos teve um percurso sólido até à final, com vitórias expressivas frente à Zâmbia e aos Camarões, alimentando a expectativa de um título em casa. Por sua vez, o Senegal demonstrou consistência, maturidade táctica e resiliência emocional ao longo de todo o torneio, confirmando-se como uma das grandes potências do futebol africano actual.
Mais do que futebol, a CAN 2025 funcionou como uma plataforma de diplomacia desportiva. Marrocos procura afirmar-se como actor central no desporto africano e global, apoiado por investimentos estimados em mais de 5 mil milhões de dólares, alinhados com a preparação para o Mundial de 2030, que irá co-organizar com Espanha e Portugal.
Neste contexto, a decisão da CAF de tornar a CAN anual a partir de 2029 reflecte também pressões externas, sobretudo de clubes europeus, que reclamam da libertação de jogadores africanos durante a época competitiva. O futebol africano surge, assim, no centro de um debate entre autonomia continental e interesses globais.
Apesar do brilho das infra-estruturas, a CAN 2025 ficou marcada por episódios que comprometeram a imagem do torneio. O momento mais crítico ocorreu durante a final, quando, com o jogo empatado, foi assinalada uma grande penalidade controversa a favor de Marrocos aos 98 minutos, após intervenção do VAR.
Em protesto, a selecção do Senegal abandonou temporariamente o relvado, regressando apenas após 14 minutos de interrupção. Embora Brahim Díaz tenha falhado a grande penalidade, o episódio gerou fortes acusações de favorecimento arbitral aos anfitriões. A situação foi amplamente criticada, tanto por intervenientes directos como por dirigentes do futebol mundial, que classificaram as cenas como prejudiciais para o espírito da competição.
As polémicas não se limitaram à final. Várias selecções, incluindo África do Sul, Mali, Nigéria e Senegal, denunciaram tratamentos desiguais, com relatos de instalações de treino inadequadas, alojamentos abaixo do esperado e falhas de segurança. Incidentes recorrentes envolvendo meninos da bola, como a remoção deliberada de toalhas de guarda-redes adversários durante jogos contra Marrocos, alimentaram ainda mais a percepção de manipulação.
Estes episódios rapidamente se tornaram virais nas redes sociais, dando origem a memes e críticas mordazes. Paralelamente, registaram-se fracas afluências aos estádios, com bancadas vazias atribuídas a dificuldades na obtenção de vistos, problemas com bilhetes e falhas logísticas que afastaram adeptos estrangeiros.
A CAF foi forçada a abrir investigações sobre confrontos pós-jogo, incidentes envolvendo árbitros e episódios de violência, enquanto críticas à transparência e à integridade da organização se intensificaram. De forma irónica, Marrocos acabou por receber o prémio Fair Play do torneio, decisão que gerou ainda mais controvérsia.
O balanço da CAN 2025 deixou Marrocos perante um dilema complexo. A nível reputacional, o torneio expôs fragilidades que podem comprometer a credibilidade do país enquanto anfitrião de grandes eventos desportivos. Existe ainda o risco de sanções disciplinares, bem como um escrutínio acrescido sobre a conduta institucional e organizacional.
No plano interno, os elevados investimentos em infra-estruturas contrastam com necessidades sociais urgentes, como educação, saúde e emprego, gerando críticas sobre as prioridades do Estado. O verdadeiro teste para Marrocos será transformar estas infra-estruturas num legado sustentável, capaz de impulsionar o turismo, o desenvolvimento urbano e a economia local.
Geopoliticamente, as polémicas da CAN 2025 podem aprofundar rivalidades regionais, sobretudo com países vizinhos, e complicar a preparação para o Mundial de 2030. Além disso, a selecção marroquina continua sem conquistar um título continental desde 1976, o que reforça a necessidade de investir de forma consistente no desenvolvimento interno do futebol, para além da dimensão simbólica dos grandes eventos.
Em síntese, a CAN 2025 em Marrocos foi um torneio de contrastes. O triunfo do Senegal confirmou a sua afirmação como potência africana, enquanto as controvérsias revelaram problemas estruturais que a CAF precisa enfrentar com urgência.
A competição demonstrou que infra-estruturas modernas e ambições geopolíticas não são suficientes para garantir credibilidade e justiça desportiva. Sem reformas profundas, transparência organizacional e respeito pela equidade competitiva, o futebol africano arrisca comprometer o seu próprio futuro.
A CAN 2025 deixa, assim, uma mensagem clara: o crescimento do futebol africano exige não apenas investimento, mas também integridade, responsabilidade institucional e coragem para corrigir falhas históricas.
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