Publicação em destaque

A COLONIZAÇÃO NÃO DESCOBRIU NADA

Colonização tentou apagar civilizações africanas antigas

A ideia de que a colonização “descobriu” ou “civilizou” a África é uma das maiores mentiras da história moderna. Na verdade, quando os europeus chegaram, o continente já albergava sociedades altamente organizadas, com impérios ricos, centros de conhecimento avançado, redes comerciais extensas e arquitecturas impressionantes. Em vez de reconhecer e aprender com essas civilizações, a colonização europeia dedicou-se sistematicamente a apagá-las — fisicamente, culturalmente e na memória colectiva.

No nosso sul de África, o Grande Zimbabwe e o Império do Mutapa (ou Monomotapa) são exemplos claros. Estas sociedades shona construíram cidades de pedra imponentes, geriram um comércio de ouro que ligava o interior ao Oceano Índico, e desenvolveram sistemas políticos sofisticados séculos antes da chegada dos portugueses. As ruínas do Grande Zimbabwe, com as suas muralhas ciclópicas sem argamassa, ainda hoje impressionam e comprovam o engenho africano. O Mutapa controlava vastas terras que hoje incluem partes do Zimbabwe e de Moçambique, exportando ouro, marfim e ferro para a Swahili, a Arábia e até a China.

Mais a norte, o Império do Mali, com a lendária Timbuktu, era um farol intelectual. A Universidade de Sankoré atraía estudiosos de todo o mundo islâmico e além, com bibliotecas repletas de manuscritos sobre matemática, astronomia, medicina e direito. O rei Mansa Musa, no século XIV, foi um dos homens mais ricos da história, e a sua peregrinação a Meca abalou a economia do Mediterrâneo com a quantidade de ouro que distribuiu.

A colonização não veio “descobrir” estas realidades. Veio dominá-las e explorá-las. No caso do Mutapa, os portugueses, a partir do século XVI, interferiram directamente: tentaram controlar as minas de ouro, instalaram governantes fantoches, fomentaram divisões internas e transformaram o império numa espécie de protectorado. O que não conseguiram dominar, tentaram destruir ou desacreditar.

Em todo o continente, a estratégia foi semelhante. Missionários queimaram ou condenaram objectos sagrados e tradições orais como “superstição”. As escolas coloniais ensinaram que a África era o “continente negro” sem história escrita nem realizações próprias. Arqueólogos e historiadores europeus do século XIX e XX chegaram ao cúmulo de atribuir as grandes construções africanas a povos “externos” — fenícios, egípcios brancos ou até bíblicos — porque não conseguiam aceitar que africanos negros as tivessem erguido. Essa foi a chamada “hipótese hamítica”, uma teoria racista desenhada para roubar aos africanos o crédito das suas próprias conquistas.

A colonização não se limitou a explorar recursos materiais. Ela atacou a própria raiz da identidade africana: a memória. Histórias orais foram marginalizadas, línguas locais desvalorizadas nas administrações, e fronteiras arbitrárias traçadas no Congresso de Berlim (1884-1885) que ignoravam reinos e etnias existentes. O objectivo era claro: criar povos que se vissem como inferiores e dependentes.

Hoje, recuperamos essa história com orgulho. As ruínas do Grande Zimbabwe são património mundial. Os manuscritos de Timbuktu, salvos heroicamente durante conflitos recentes, voltam a ser estudados. Em Moçambique e no resto do continente, jovens e intelectuais reconstroem o passado para construir um futuro mais consciente.

A colonização não trouxe luz a um continente nas trevas. Encontrou uma África brilhante e tentou mergulhá-la na escuridão para justificar a sua dominação. Mas a verdade resiste. As pedras do Zimbabwe, os manuscritos de Timbuktu e a memória colectiva dos nossos povos continuam a falar mais alto do que qualquer narrativa colonial.

Reconhecer isso não é revanchismo. É justiça histórica. É a base para uma África que se conhece, se valoriza e se projecta sem complexos. A colonização tentou apagar-nos. Nós estamos a reescrever a nossa própria história.



Comentários