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EQUILÍBRIO SOBRE DUAS RODAS E UM MOTOR

A Força Silenciosa do Moçambicano que Não Desiste

Numa estrada comum num país africano chamado Moçambique, entre o verde das árvores desta época agrícola e o asfalto gasto que liga campos, vilas e cidades, há cenas que resumem melhor o país do que qualquer discurso político, por exemplo: um homem conduz uma mota quase escondida sob uma montanha de bananas verdes, empilhadas e amarradas com cordas e por cima ainda leva um passageiro - tranquilamente, desafiando o peso, o equilíbrio e a própria lógica do possível. A máquina parece pequena demais para a carga, a estrada irregular ameaça a estabilidade, mas ele segue firme. Não é espectáculo. É trabalho. É sobrevivência. É a economia real em movimento.

Esta imagem representa milhares de moçambicanos que todos os dias transformam motas em camiões improvisados e o próprio corpo em ferramenta de sustento, uma vez que o governo ainda não acredita que condicionando estradas e pontes estaria verdadeiramente abrir o caminho certo para a real intenção de desenvolver o país. O transporte de produtos agrícolas como bananas, mandioca, milho, carvão vegetal e hortícolas é uma das bases invisíveis da economia local, ligando zonas rurais aos mercados urbanos e garantindo alimento nas mesas. Cada viagem destas é mais do que deslocação: é risco calculado, é resistência física, é responsabilidade familiar sobre duas rodas.

Aquele homem não está ali por aventura nem por vaidade: que teria carregado na cabeça, com burros ou mesmo de bicicleta. Está ali porque há contas para pagar, filhos para alimentar, sonhos que não podem esperar por políticas perfeitas ou infra-estruturas ideais enquanto o coração bate e os países industrializados leram as fragilidades dos nossos governos para lucrar com a venda de motorizadas e seus acessórios que bicicletas, como antes. Acordou cedo, carregou a mota com o fruto do trabalho no campo, amarrou cada cacho como quem segura o futuro e se calhar o dono da mercadoria é quem está pendurado juntos, e lançou-se à estrada sabendo que qualquer falha pode significar prejuízo, queda ou perda do sustento do dia. Mesmo assim, ele vai. Porque parar não é opção quando a fome tem pressa.

Em províncias como Zambézia, Nampula, Sofala, Manica, Inhambane ou Tete, cenas assim repetem-se diariamente e mostram a força da economia informal, que sustenta famílias inteiras e movimenta mercados locais. São homens e mulheres que fazem da criatividade uma estratégia de sobrevivência, superando estradas esburacadas, custos altos de transporte, falta de apoio e condições difíceis. O equilíbrio daquela mota carregada de bananas mais um passageiro, simboliza o próprio equilíbrio da vida de quem vive do dia-a-dia: qualquer descuido pesa, mas a experiência, a coragem e a necessidade mantêm tudo em pé.

Há também uma lição social poderosa nesta imagem. Enquanto muitos medem dificuldades por atrasos digitais ou pequenos confortos perdidos, há quem enfrente diariamente o risco físico real para garantir o básico. Não há aplausos, não há manchetes, não há filtros. Há suor, foco e uma dignidade silenciosa que sustenta o país longe das câmaras. Este é o rosto da resiliência moçambicana: gente que cai, levanta, ajusta a carga e continua.

Moçambique é construído por pessoas assim, que carregam mais do que produtos — carregam esperança, responsabilidade e a crença de que o esforço de hoje pode melhorar o amanhã. Cada mota sobrecarregada que cruza a estrada é um lembrete de que o país avança, muitas vezes, graças a quem quase não aparece nas estatísticas, mas nunca falta na luta. Pode haver buracos na estrada e dificuldades na economia, mas enquanto existir esta força humana, há movimento, há comércio, há vida.

Da próxima vez que vires uma mota carregada até ao limite, não olhes apenas como curiosidade. Vê ali um trabalhador, um pai, um filho, um pilar invisível da cadeia alimentar e da economia local. São heróis do quotidiano, sem capa, sem palco, mas com uma determinação que sustenta nação inteira, uma viagem de cada vez.

Força a todos os que equilibram o impossível sobre duas rodas. Vocês não transportam apenas bananas — transportam Moçambique em frente.

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