CHINA REVOLUCIONA DOUTORAMENTOS
Praticar o método socrático no dia-a-dia é, acima de tudo, assumir que o conhecimento não foi feito para ficar fechado nas salas de aula, nos certificados emoldurados ou nos currículos guardados em gavetas. Parte-se aqui do princípio de que estudantes universitários, graduados, profissionais empregados ou desempregados carregam consigo um capital intelectual que deve começar a ser exercido de forma voluntária e concreta nos lares onde pertencem e nas comunidades onde vivem. Ensinar às pessoas, em linguagem simples, aquilo que se estuda, se estudou ou se faz no quotidiano é um acto de responsabilidade social e um exercício profundo de cidadania.
Explicar ao povo por que razão determinado curso, ofício ou saber é importante, que problemas resolve e que impacto tem na vida prática é mais útil do que qualquer discurso académico rebuscado. Não se trata de incentivar críticas vazias às falcatruas dos governantes, mas de identificar falhas reais e transformá-las em oportunidades de intervenção, oferecendo soluções onde o Estado não chega ou simplesmente falha. Quando um técnico em saneamento explica numa reunião de bairro como pequenas acções evitam surtos de cólera, ou quando um estudante de contabilidade ajuda vendedores informais a organizar receitas e despesas, está-se a criar necessidade, consciência e valor prático do conhecimento.
É neste contexto que se torna pertinente resgatar a maiêutica socrática, método inspirado na arte da parteira — profissão exercida pela mãe de Sócrates. Tal como explica o filósofo Alessandro Vieira dos Reis, Sócrates não se via como alguém que despejava saber, mas como alguém que ajudava os outros a “parir” ideias. O conhecimento, segundo essa perspectiva, já existe em potência dentro do indivíduo; cabe apenas estimulá-lo, questioná-lo e organizá-lo.
No diálogo “Ménon”, Sócrates demonstra que até um escravo, socialmente considerado inferior, é um ser racional. Ao guiá-lo por perguntas simples, leva-o a compreender teoremas básicos de Geometria. Esta passagem ensina quatro lições centrais ainda extremamente actuais. Primeiro, confiar na capacidade racional do outro, independentemente do seu nível formal de escolaridade. Segundo, instruir por meio de exercícios e perguntas é mais eficaz do que apresentar respostas prontas. Terceiro, permitir que o outro construa o conhecimento a partir do que já sabe, em vez de impor conceitos acabados. Quarto, levar o indivíduo a aceitar a verdade porque a compreende, e não porque alguém com autoridade a afirmou.
Aplicar estes princípios no quotidiano moçambicano significa, por exemplo, um jovem formado em Direito explicar numa conversa informal por que razão um contrato simples protege um pequeno comerciante, em vez de apenas reclamar que “o povo não conhece a lei”. Ou um enfermeiro explicar, com exemplos do dia-a-dia, as consequências de abandonar um tratamento, em vez de culpar o paciente por ignorância. Assim, o saber deixa de ser instrumento de vaidade e passa a ser ferramenta de emancipação.
Partilhar conhecimento é também uma forma de aprender melhor. Ao explicar aquilo que se sabe, revela-se o verdadeiro domínio do conteúdo. Muitos conteúdos técnicos consolidam-se exactamente nesse processo. Um exemplo fictício, mas comum: um jovem recém-integrado numa instituição naval que explica matérias básicas aos familiares e vizinhos acaba por memorizar procedimentos com mais profundidade do que se apenas os decorasse para um teste. Ensinar obriga a organizar o pensamento, traduzir termos técnicos e adaptar a linguagem à realidade do outro.
Traduzir manuais, conceitos e normas para quem nunca frequentou a escola é um exercício poderoso de expressão e empatia. É, metaforicamente, dar luz a quem vive na escuridão informacional. Despertar o próximo é um dever colectivo. Independentemente da crença religiosa ou filosófica, há em cada pessoa um potencial transformador que só ganha vida quando se ensina, quando se orienta e quando se substitui a fofoca e a especulação infundada por informação útil e esclarecedora.
Muitos fracassos institucionais e empresariais também nascem da ausência de pedagogia. Imagine-se, por exemplo, uma operadora de telefonia móvel que nunca ensina os seus clientes a utilizar MMS, mas inclui pacotes com dezenas de mensagens multimédia. Para o utilizador que só conhece SMS, esse benefício é irrelevante. O mesmo acontece com serviços de saúde, advocacia ou odontologia: reclamar que as pessoas não procuram esses serviços sem antes explicar claramente as vantagens e os riscos da sua ausência é inverter a lógica da responsabilidade.
O povo moçambicano precisa de ser sensibilizado para a consciência da melhoria da qualidade de vida e do exercício da cidadania plena. É necessário compreender a diferença entre partido, governo e Estado; perceber que saúde, estradas e educação dignas não são favores; entender que os políticos eleitos se dispuseram a servir e não a serem venerados. A informação é a base da reivindicação consciente.
É duro admitir, mas nenhum governo se sente confortável com um povo plenamente livre do ponto de vista económico e intelectual. Um cidadão autónomo questiona, compara e exige. Antes de reclamar da condição de dependência, é preciso ensinar a trabalhar a terra, o mar, os rios, a madeira abundante, as pequenas técnicas produtivas que geram rendimento real. Muitas vezes, um artesão que sabe fazer portas, aros ou fechaduras vive com menos angústia do que um diplomado preso à espera de um emprego inexistente.
Na prática, não é raro que lavadores de viaturas nas ruas das cidades consigam, ao final do mês, rendimentos líquidos superiores aos de jovens licenciados integrados no Aparelho do Estado por vias pouco transparentes. Este facto, por mais desconfortável que seja, revela uma verdade essencial: o sucesso não depende exclusivamente do partido, do governo ou de forças externas. A chave está, muitas vezes, na coragem de abandonar a zona de conforto, explorar recursos disponíveis e transformar conhecimento em solução prática.
Reconhecer estas realidades não é pessimismo, mas um convite à lucidez. Libertar-se do sofrimento imposto pela ignorância, pela dependência e pela falta de iniciativa exige educação prática, partilha consciente e aplicação diária do método socrático. Ensinar é um acto revolucionário silencioso — e talvez o mais eficaz.
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ResponderEliminarConteúdo interessante e oportuno para o contexto moçambicano. Parabéns 👏👏
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