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CHINA REVOLUCIONA DOUTORAMENTOS

Menos Tese, Mais Inovação Prática

A China está a transformar profundamente o modelo tradicional de doutoramento, substituindo a dissertação extensa por projectos inovadores com impacto real na indústria e no desenvolvimento nacional. A reforma, aprovada em 2024 e com os primeiros graus práticos concedidos em 2025, marca uma mudança estrutural na educação superior chinesa e pode influenciar o futuro da formação académica global.

Em vez de medir o valor doutoral pelo número de páginas escritas ou artigos publicados, o novo modelo privilegia a criação de produtos, protótipos, tecnologias ou soluções aplicáveis. Universidades como a , a e a lideram esta transição, sobretudo nas áreas de engenharia e tecnologia. Os doutorandos são avaliados pela sua capacidade de desenvolver técnicas industriais, componentes tecnológicos ou sistemas inovadores com impacto comprovado e potencial de escalabilidade.

A supervisão passa a ser partilhada entre académicos e profissionais da indústria, e os painéis de avaliação combinam rigor científico com utilidade prática. O objectivo é reduzir o fosso histórico entre universidade e mercado, acelerando o ciclo entre conhecimento e aplicação.

Esta abordagem resulta de reformas iniciadas na década de 2010, motivadas por críticas ao modelo tradicional: excesso de produção académica sem aplicação concreta, casos de plágio e teses que permanecem arquivadas sem impacto socioeconómico. Publicações internacionais como a e o destacaram que a China procura agora alinhar a formação avançada com a sua estratégia de soberania tecnológica e competitividade global.

A lógica por trás desta mudança é clara: muitas revoluções tecnológicas — da industrialização aos actuais avanços em inteligência artificial e semicondutores — nasceram de experimentação prática tanto quanto de investigação teórica. Ao transformar doutorandos em criadores de valor tangível, a China aposta numa academia utilitária, directamente ligada à inovação e ao crescimento económico.

Contudo, o modelo não está isento de riscos. A excessiva orientação para resultados imediatos pode fragilizar a investigação fundamental — aquela que, embora aparentemente abstracta, gera saltos civilizacionais décadas depois. A história demonstra que conceitos inicialmente teóricos, como a álgebra booleana ou as primeiras formulações da teoria quântica, tornaram-se pilares das tecnologias contemporâneas. Por isso, manter um equilíbrio entre investigação aplicada e ciência básica é crucial. A própria política chinesa limita esta modalidade prática sobretudo às áreas tecnológicas, preservando vias tradicionais para outras disciplinas.

Para países em desenvolvimento como Moçambique, esta reforma levanta questões urgentes. Produzimos cada vez mais graduados, mas muitos enfrentam desemprego ou subemprego porque a formação permanece desligada das necessidades reais do país. Dissertações acumulam-se nas bibliotecas sem impacto directo na agricultura, nas infra-estruturas, na exploração sustentável de recursos naturais ou nas indústrias emergentes como o gás natural e as energias renováveis.

Imaginar um sistema em que doutorandos desenvolvam soluções concretas — tecnologias agrícolas adaptadas ao clima moçambicano, sistemas energéticos acessíveis ou processos industriais viáveis — poderia transformar as universidades em motores efectivos de desenvolvimento. Tal abordagem poderia reduzir a fuga de cérebros, estimular o empreendedorismo qualificado e fortalecer a ligação entre conhecimento e progresso nacional.

Naturalmente, qualquer adaptação exigiria parcerias público-privadas sólidas, investimento estratégico e preservação de espaços para investigação teórica. Contudo, o princípio central da reforma chinesa — alinhar a formação superior com desafios concretos da nação — é inspirador e merece debate sério em Moçambique.

No fundo, esta transformação não é apenas técnica; é filosófica. Num mundo onde a competitividade depende da capacidade de transformar ideias em realidade, a pergunta impõe-se: continuaremos a formar doutores que descrevem o mundo ou começaremos a formar aqueles que o constroem?

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