CHINA REVOLUCIONA DOUTORAMENTOS
A imagem é clara e inquietante. A tempestade tropical Gezani evolui para ciclone tropical, com ventos previstos a atingir 165 km/h às 14h00 de sexta-feira, podendo chegar aos 175 km/h nas horas seguintes. A trajectória projectada aponta para a zona costeira da província de Inhambane, numa faixa de impacto suficientemente ampla para justificar preocupação séria. Não se trata apenas de um fenómeno atmosférico distante no Índico. Trata-se de uma ameaça concreta, com hora marcada, intensidade definida e um histórico nacional que nos impede de fingir surpresa.
Moçambique não é um território inocente em matéria de ciclones. Idai, Kenneth, Gombe, Freddy — os nomes acumulam-se na memória colectiva como cicatrizes ainda visíveis. Cada novo sistema tropical que se forma no Canal de Moçambique não é apenas um evento meteorológico; é um teste à nossa capacidade de aprender com o passado. E a pergunta inevitável é esta: aprendemos realmente?
Os dados da imagem revelam um agravamento progressivo da intensidade: de tempestade tropical (ST) com 120 km/h para ciclone tropical (C) com ventos que ultrapassam os 150 km/h. A escala não é meramente técnica. Ventos dessa magnitude arrancam chapas de zinco, derrubam postes de energia, destroem culturas agrícolas, isolam comunidades e transformam rios em forças incontroláveis. Em zonas costeiras e ribeirinhas, a conjugação de vento forte, maré alta e chuvas intensas cria o cenário perfeito para inundações devastadoras.
Mas a verdadeira reflexão não deve limitar-se à meteorologia. O ciclone expõe, mais uma vez, a fragilidade estrutural do nosso modelo de desenvolvimento. Casas construídas com materiais precários, urbanização desordenada, ocupação de zonas de risco, sistemas de drenagem inexistentes ou obstruídos, dependência excessiva da agricultura de subsistência — tudo isto transforma um fenómeno natural em catástrofe social.
É importante reconhecer que os serviços meteorológicos e plataformas de monitoria hoje oferecem previsões cada vez mais precisas. A imagem mostra data, hora, intensidade, trajectória prevista. A informação existe. O desafio é outro: o que fazemos com ela? A prevenção começa antes do vento soprar. Começa na educação comunitária, nos planos de evacuação claros, na comunicação eficaz em línguas locais, na mobilização atempada de autoridades distritais, líderes comunitários e igrejas.
Há ainda uma dimensão psicológica que raramente discutimos. Muitos moçambicanos vivem num estado de fadiga de crise. Cheias, ciclones, conflitos armados, crise económica. Quando o alerta é lançado, parte da população reage com descrença ou resignação. “Sempre dizem que vem forte, mas às vezes enfraquece.” Essa normalização do risco é perigosa. Cada sistema tem a sua própria dinâmica. Subestimar pode custar vidas.
Por outro lado, também devemos evitar o alarmismo irresponsável. A comunicação deve ser firme, mas baseada em factos. A previsão de 205 km/h significa destruição inevitável; significa risco elevado que exige preparação proporcional. A diferença entre desastre e resiliência muitas vezes está nos pequenos actos: reforçar o telhado, limpar valas de drenagem, armazenar água potável, identificar abrigos seguros, proteger documentos importantes, acompanhar actualizações oficiais.
Outro ponto cego frequente é o impacto económico prolongado. Após a passagem do ciclone, o país entra num ciclo de assistência humanitária que, embora necessária, revela dependência externa recorrente. Reconstruímos para voltar a ser destruídos. Talvez o debate precise avançar para políticas públicas mais robustas de construção resiliente, incentivos fiscais para materiais mais resistentes, reordenamento territorial sério e investimento em infra-estruturas costeiras adaptadas às mudanças climáticas.
Porque há um dado incontornável: os ciclones no Canal de Moçambique tendem a tornar-se mais intensos com o aquecimento das águas oceânicas. Não estamos perante episódios isolados, mas diante de um padrão climático que exige estratégia de longo prazo. Continuar a tratar cada evento como surpresa sazonal é um erro estratégico.
A trajectória desenhada na imagem não é apenas uma linha sobre o mapa; é um aviso sobre a nossa trajectória enquanto sociedade. Se reagirmos apenas quando o vento já sopra, permaneceremos vulneráveis. Se usarmos cada alerta como oportunidade de fortalecer sistemas, educar comunidades e exigir responsabilidade institucional, então cada ciclone pode transformar-se num ponto de viragem.
Gezani aproxima-se com ventos previstos acima dos 160 km/h. A natureza fará o que lhe compete. A questão é saber se nós faremos o que nos compete.
Comentários
Enviar um comentário