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ADULTOS EM CASA E CRIANÇAS NO TRABALHO — OU VICE-VERSA

As Máscaras Invisíveis da Masculinidade Moderna 

Há algo de profundamente humano — e curiosamente pouco debatido — no comportamento dos homens adultos em diferentes ambientes. A imagem que inspira esta reflexão mostra trabalhadores em pleno serviço, em momento de descontração quase infantil, entre gargalhadas e gestos inusitados. À primeira vista, pode parecer apenas brincadeira. Mas, observando com mais atenção, revela-se um fenómeno social mais complexo: a metamorfose comportamental masculina conforme o espaço e o papel desempenhado.

Em casa, muitos homens assumem uma postura de autoridade quase solene. São chefes de família, responsáveis máximos, guardiões da ordem. A voz é firme, o semblante sério, a presença impõe respeito — por vezes até temor. O riso é moderado, a brincadeira contida. A responsabilidade pesa nos ombros como uma farda invisível. A casa transforma-se num palco onde se encena a masculinidade tradicional: firme, inabalável, controlada.

Contudo, no trabalho ou entre amigos, essa rigidez pode dissolver-se como gelo ao sol. Homens que em casa são austeros revelam-se leves, brincalhões, expansivos. Riem alto, fazem piadas, encenam pequenas palhaçadas, competem em jogos improvisados, adoptam gestos quase adolescentes. Mesmo figuras de elevada patente — generais, directores, líderes — quando em círculo restrito de pares, podem desarmar-se emocionalmente. A formalidade cede lugar à cumplicidade. A autoridade suspende-se temporariamente. Surge o homem sem farda.

Este contraste não é hipocrisia; é adaptação social.

O peso dos papéis

Desde cedo, muitos homens são socializados para associar masculinidade à responsabilidade, controlo e seriedade. Em contextos familiares, sentem a pressão de encarnar o “pilar” da casa. A cultura reforça essa expectativa: o homem deve ser firme, protector, racional. Demonstrar excessiva leveza pode ser interpretado como fraqueza.

No trabalho, especialmente em ambientes predominantemente masculinos, opera outra dinâmica. Entre iguais, a hierarquia pode relaxar. O humor torna-se ferramenta de ligação, mecanismo de redução de stress e até estratégia de sobrevivência emocional. A brincadeira não é regressão infantil; é válvula de escape. É a infância que nunca desapareceu, apenas aprendeu a esperar o momento seguro para reaparecer.

A psicologia da regressão saudável

A ciência comportamental aponta que pequenas regressões — como rir exageradamente, brincar fisicamente ou fazer desafios lúdicos — são mecanismos naturais de alívio de tensão. Num mundo onde o homem é constantemente pressionado a “aguentar”, esses momentos funcionam como libertação emocional.

Curiosamente, o inverso também acontece. Há homens extremamente sérios no trabalho, quase intransigentes na postura profissional, mas que em casa se revelam mansos, afectuosos, brincalhões com os filhos. Ali, longe dos olhares competitivos, sentem-se seguros para desmontar a armadura.

Em ambos os casos, não estamos perante duplicidade, mas diante da pluralidade do ser humano.

Masculinidade: entre o teatro e a autenticidade

O que chama atenção não é o facto de existirem variações comportamentais — isso é natural em qualquer ser humano — mas a intensidade com que alguns homens compartimentam as suas versões. Como se houvesse fronteiras rígidas entre o “homem público” e o “homem privado”.

A pergunta que emerge é provocadora:

Quantas dessas posturas são genuínas e quantas são encenações aprendidas?

Será que o homem excessivamente severo em casa reprime uma leveza que só se permite viver fora? Ou será que o ambiente doméstico, paradoxalmente, é onde sente maior peso da responsabilidade?

Talvez o problema não esteja na alternância de comportamentos, mas na incapacidade de integrar essas dimensões. O homem que só é autoridade pode tornar-se distante. O que só é brincadeira pode parecer irresponsável. O equilíbrio é raro — e valioso.

A imagem que desarma preconceitos

A cena dos trabalhadores a brincar em pleno serviço pode ser lida de duas formas: irresponsabilidade ou humanidade. Tudo depende do contexto. Mas há uma verdade silenciosa ali: mesmo sob capacetes, fardas ou títulos, existe sempre um menino interior que resiste ao tempo.

A maturidade não elimina a criança; apenas a educa.

E talvez esteja aí uma das maiores lições desta reflexão: homens não deixam de ser humanos quando assumem responsabilidade. Continuam a necessitar de riso, cumplicidade, descompressão. Continuam a oscilar entre firmeza e leveza.

Entre a seriedade e o riso

Num país como Moçambique, onde os desafios económicos e sociais pressionam fortemente o papel masculino como provedor, compreender essas dinâmicas é essencial. Muitos homens carregam tensões invisíveis. A rigidez doméstica pode ser reflexo de ansiedade financeira. A brincadeira no trabalho pode ser sobrevivência emocional.

Não se trata de julgar, mas de entender.

Talvez o verdadeiro crescimento esteja em permitir que o respeito em casa conviva com o humor saudável; que a autoridade não exclua a ternura; que a liderança profissional não impeça a leveza ocasional.

Porque, no fundo, o homem adulto não deixa de ser o rapaz que um dia correu descalço. Apenas aprendeu a usar sapatos pesados.

E, de vez em quando, precisa tirá-los.



Comentários

  1. Trata-se de factos verídicos, ao meu entender sobre o menino que reside no meio de adulto nem podia ser prendido mais deixada espalhar felicidade e esperança seja dentro de casa assim como fora, mas também não pode deixar de impor limites, pra que não faça o adulto tropeçar em lugares respeitosos.

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