ERNEST ANDREW: O JOVEM DO MALAWI QUE TRANSFORMA AR EM ELECTRICIDADE
A imagem que circula nas redes sociais mostra um emaranhado de tubos interligados num buraco subterrâneo. A legenda é curta, mas contundente: “The connection you need to secure a job in Africa.” A metáfora é poderosa. Não se trata apenas de canalização. Trata-se de um sistema.
Em muitos países africanos, a palavra “conexão” deixou de significar competência técnica ou rede profissional legítima. Passou a significar cunha, padrinho, partido, parentesco ou influência política. E é precisamente essa cultura que tem entupido o desenvolvimento do continente, como um sistema de drenagem mal concebido que impede o fluxo natural do talento.Num mercado de trabalho saudável, a equação deveria ser simples: formação + competência + experiência = oportunidade. Porém, em diversos contextos africanos, a fórmula real muitas vezes é outra: proximidade ao poder + lealdade política = emprego. O resultado é devastador:
Quando a competência é substituída pela conveniência, a mediocridade institucionaliza-se. E um país que institucionaliza a mediocridade condena-se à estagnação.
Essa cultura gera descrença no sistema. E quando os cidadãos deixam de acreditar que o esforço compensa, instala-se um ciclo perigoso de apatia, fuga de cérebros e informalidade.
Quantos engenheiros, médicos, programadores e investigadores africanos deixaram os seus países porque perceberam que, sem padrinho, o tecto profissional seria sempre baixo?
A chamada “fuga de cérebros” não é apenas uma consequência da busca por melhores salários. É também uma fuga da frustração estrutural. É a rejeição de um sistema onde o mérito não é o principal critério. E cada talento que parte leva consigo inovação, impostos, soluções e esperança.
Países que conseguiram transformar-se economicamente fizeram-no fortalecendo instituições, não redes de favores. O desenvolvimento sustentável exige:
Enquanto o emprego depender mais de quem se conhece do que do que se sabe fazer, a competitividade continental continuará comprometida.
O aspecto mais preocupante talvez seja a normalização. Muitos já encaram a necessidade de “conexão” como algo inevitável, quase cultural. Mas cultura não é destino. Cultura é construção social — e pode ser reformulada.
Romper essa lógica exige coragem política e pressão social. Exige também que cada cidadão recuse participar do ciclo de favorecimentos sempre que possível. A mudança estrutural começa com pequenas rupturas individuais.
A imagem dos tubos interligados é simbólica: um sistema fechado, onde tudo está conectado, mas nada flui para fora. África não precisa de mais conexões subterrâneas. Precisa de pontes abertas, transparentes e baseadas no mérito.
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