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ERNEST ANDREW: O JOVEM DO MALAWI QUE TRANSFORMA AR EM ELECTRICIDADE

Enquanto o Crime Choca, a Genialidade dos Abençoados Ilumina o Continente

Enquanto vazam os vídeos dos interrogatórios feitos por agentes do SERNIC no Estabelecimento Penitenciário de Máxima Segurança da Machava, vulgo BO, aos raptores “Small Boy” e “Baclito”, capturados pelo SERNIC. Doutro lado, no país vizinho, lembra-nos que em 2024, um jovem sem muita formação académica resolve problemas seculares da sua comunidade, iluminando tantas casas e uma escola próxima...

Esta contraste cruel entre o sensacionalismo da violência e o silêncio sobre o talento criativo africano diz muito sobre as prioridades dos nossos medias e sociedades. Num continente onde a criminalidade urbana domina manchetes, há uma geração de jovens que, com recursos escassos, transforma necessidades em soluções brilhantes. Por que insistimos em destacar o pior quando o melhor está a acontecer bem ao lado?

Ernest Andrew: O Jovem do Malawi que Transforma Ar em Electricidade

No distrito rural de Dowa, no Malawi, Ernest Andrew, um jovem de cerca de 19 anos que abandonou a escola cedo, construiu um gerador movido a ar comprimido usando materiais reciclados e locais. Sem combustível, óleo ou baterias caras, a sua invenção produz electricidade suficiente para iluminar mais de uma dúzia de casas e uma escola primária na aldeia de Chinguwo. Imaginem: crianças a estudar à noite, famílias sem depender de velas perigosas ou geradores caros. Esta não é ficção científica – é engenho puro, nascido da necessidade de resolver um problema que afecta milhões em África rural.

Mas pergunto: quantos de nós conhecíamos esta história antes de ela viralizar esporadicamente? E porquê? Porque os algoritmos e as redacções preferem cliques com medo a inspiração com esperança.

Eniola Shokunbi: A Nigeriana que Purifica o Ar e Salva Vidas

Do outro lado do continente, na Nigéria, Eniola Shokunbi, uma adolescente com raízes africanas, desenvolveu um filtro de ar acessível que remove até 99% dos vírus e poluentes. Custando apenas cerca de 60 dólares por unidade, o seu projecto atraiu milhões em financiamento para implementação em escolas. Num contexto onde poeira, humidade e aglomerações causam doenças respiratórias constantes – pense nas salas de aula superlotadas em Moçambique ou na Nigéria –, esta inovação poderia reduzir absentismo escolar e melhorar a saúde de milhares de crianças.

Femi Adekoya e os Drones que Revolucionam a Agricultura

Na mesma Nigéria, Femi Adekoya lidera o uso de drones agrícolas para pulverizar plantações com precisão, combatendo pragas como a lagarta-do-cartucho e reduzindo perdas em culturas como o caju. A sua empresa supera burocracias governamentais para implementar tecnologia que cobre hectares em horas, aumentando a produtividade e a soberania alimentar. Enquanto alguns países africanos atrasam aprovações por medo ou lentidão administrativa, jovens como Femi mostram que a agricultura do século XXI pode ser eficiente e sustentável.

Outros Génios Africanos que Merecem Destaque

A lista não para por aí:

- Simon Petrus, na Namíbia, criou um telefone que funciona sem chip SIM, usando ondas de rádio e materiais reciclados para ligações em zonas remotas.

- Yannick Laurent Bado, no Burkina Faso, fundou a primeira fábrica de pneus 100% africana, adaptados às estradas difíceis do continente.

- No Quénia, duos como David Gathu e Moses Kiuna constroem braços robóticos com IA a partir de lixo electrónico.

- No Zimbabué, Maxwell Chikumbutso explora conversão de radiofrequências em energia limpa.

Estes jovens não esperam por governos ou investidores estrangeiros – inovam porque a necessidade obriga. Mas recebem aplausos internacionais enquanto, em casa, enfrentam silêncio institucional: falta de incubadoras, financiamento ou políticas que valorizem o talento local.

África Precisa de Escolher: Medo ou Futuro?

Enquanto vídeos de interrogatórios a criminosos circulam livremente, histórias como estas lutam por espaço. Não é coincidência: o negativo vende mais, mas destrói a narrativa de um continente capaz de se reinventar. Precisamos de coragem política para apoiar estes inventores – com educação técnica, fundos acessíveis e cobertura mediática equilibrada. Só assim transformaremos África de consumidor de tecnologia em produtor global.

Estes jovens provam que o futuro não está em importar soluções, mas em criá-las aqui, com as nossas mãos. É hora de iluminar não só casas, mas mentes e esperanças. O que escolhemos destacar define quem somos.

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