SER BOM DEMAIS PODE TE DESTRUIR
A Armadilha da Bondade Sem Limites
Em Moçambique, como em tantos cantos do mundo, cresce-se a ouvir que ser boa pessoa é o maior valor. "Seja generoso", "ajude o próximo", "não negue um favor". São conselhos que ecoam nas famílias, nas igrejas, nas mesquitas e nas ruas. E há verdade nisso: a bondade constrói comunidades, cria laços, salva vidas. Mas há um lado sombrio que poucos falam abertamente: quando as pessoas descobrem que és realmente bom, muitas vezes deixam de te ver como ser humano e passam a ver-te como recurso inesgotável.
Começa subtil. Um parente pede dinheiro emprestado "só desta vez", porque sabe que tu não vais negar. Depois vem outro, e mais outro. Um amigo precisa de boleia todos os dias, porque "tu és o bom". No trabalho, o colega descarrega tarefas extras em ti, porque "tu és o que resolve tudo sem reclamar". Na rua, o vizinho pede favores constantes, sabendo que a tua recusa soa quase como traição. Aos poucos, a tua vida vira uma fila infinita de pedidos, expectativas e culpas por não conseguires atender a todos.
O problema não é a bondade em si. O problema é a bondade sem fronteiras. Quando não há limites claros, a generosidade deixa de ser escolha e vira obrigação. E obrigação sem reciprocidade transforma o bom coração num tapete onde todos limpam os pés. Tu dás, dás, dás… até que o tanque fica vazio. O dinheiro acaba, o tempo desaparece, a energia evapora. Sobram ressentimento, cansaço e, muitas vezes, uma amargura profunda: "Porque é que ajudei tanto e agora me sinto explorado?"
Ser bom não significa ser fraco. Significa ser forte o suficiente para dizer "não" quando o "sim" te destrói. Significa proteger o teu bem-estar para poderes continuar a ajudar quem realmente precisa — e não quem simplesmente se habituou a sugar-te. Colocar limites não é egoísmo; é higiene emocional. É reconhecer que a tua bondade é um dom precioso, não um direito alheio.
Pensa nisto: um carro robusto, cheio de potência e história, pode carregar muita gente… mas se todos subirem ao mesmo tempo no tejadilho, no capô, nos vidros, o metal cede, a estrutura range, e o que era veículo vira sucata amassada. A bondade funciona igual. Pode transportar muitos, mas não todos ao mesmo tempo, nem sem manutenção.
Então, como equilibrar?
- Dá com alegria, mas escolhe conscientemente a quem e quanto.
- Estabelece regras claras: "Posso ajudar desta forma, mas não daquela".
- Aceita que dizer "não" a alguém não te torna mau; te torna humano.
- Cuida de ti primeiro — só quem está inteiro consegue dar sem se partir.
No fim, o mundo precisa de pessoas boas. Mas precisa ainda mais de pessoas boas que saibam defender-se, que não se deixem esgotar até virarem cascas vazias. Porque a verdadeira generosidade não é infinita; é sustentável.
Seja bom. Mas seja bom com sabedoria.
Porque ser bom demais, sem limites, não salva ninguém — nem a ti próprio.

Obrigado,eu precisava ouvir isso
ResponderEliminar