SER BOM DEMAIS PODE TE DESTRUIR
Que este tempo de jejum seja fonte de força, clareza e renovação interior. Aos irmãos e irmãs muçulmanos, em especial a Rogéria Laisse, que o vosso ṣawm seja aceite, que a paciência se transforme em sabedoria e que a fé se fortaleça a cada dia. Ramadan Mubarak, taqabbal Allahu minna wa minkum, e que a paz, as-salāmu ʿalaykum, acompanhe cada passo deste caminho espiritual.
A ideia de que o problema não reside nas religiões em si, mas nas pessoas que as dirigem, interpretam e instrumentalizam, merece uma reflexão séria e honesta, sobretudo num tempo em que a fé se tornou visível tanto como refúgio espiritual quanto como mercadoria simbólica. A religiosidade, enquanto dimensão profunda da experiência humana, nasce do desejo de sentido, pertença, transcendência e orientação moral. Em quase todas as culturas, ela surge como resposta às grandes perguntas da existência e como tentativa de organizar a vida colectiva em torno de valores partilhados. O desvio começa quando essa necessidade legítima é capturada por interesses que nada têm de espirituais.
Ao longo da história, observa-se que as religiões, enquanto sistemas de crença, não actuam sozinhas. Elas ganham forma prática através de líderes, instituições, intérpretes e estruturas de poder. É nesse ponto que o risco se instala. Quando dirigentes religiosos passam a confundir autoridade espiritual com poder absoluto, a fé deixa de ser um espaço de libertação interior e transforma-se num instrumento de controlo. A mensagem simbólica, ética e espiritual é simplificada, distorcida ou selectivamente usada para justificar ambições pessoais, acumulação de riqueza, influência política ou dominação social.
No contexto contemporâneo, este fenómeno assume contornos ainda mais delicados. A religião, associada a estratégias de marketing, linguagem emocional e promessas imediatas, entra facilmente na lógica do consumo. A fé passa a ser vendida como solução rápida para problemas complexos, como pobreza, doença, desemprego ou frustração social. Em vez de estimular consciência crítica, responsabilidade pessoal e solidariedade colectiva, certos discursos religiosos promovem dependência psicológica, medo, culpa ou esperança condicionada a contribuições financeiras e lealdade inquestionável aos líderes. O problema, portanto, não é crer, mas a forma como a crença é mediada e explorada.
Do ponto de vista político, a instrumentalização da religião revela-se ainda mais perigosa. Quando líderes religiosos se alinham a projectos de poder, ou quando actores políticos usam símbolos e discursos religiosos para legitimar decisões injustas, cria-se um ambiente onde a fé serve para silenciar o questionamento e normalizar o abuso. A religião, que poderia ser uma força ética de denúncia e justiça, torna-se cúmplice da exclusão, da desigualdade e da manipulação das massas. Em muitos casos, os benefícios são claros para poucos: prestígio, protecção, acesso a recursos e influência internacional, enquanto as comunidades permanecem vulneráveis e desinformadas.
Importa sublinhar que esta crítica não implica negar o valor da religiosidade nem desrespeitar a fé alheia. Pelo contrário, trata-se de resgatar a responsabilidade humana diante da religião. Nenhuma crença actua no vazio. São as pessoas que interpretam textos, constroem doutrinas, erguem instituições e decidem como a fé será vivida no quotidiano. Quando falta ética, humildade e compromisso com o bem comum, qualquer religião, por mais nobre que seja a sua origem, pode ser pervertida.
Num país como Moçambique, onde a religiosidade ocupa um espaço social relevante, esta reflexão torna-se particularmente necessária. A fé pode ser uma força positiva de coesão, esperança e acção solidária, mas também pode ser usada para anestesiar consciências e desviar a atenção de problemas estruturais. Cabe aos crentes, às comunidades e à sociedade em geral desenvolver uma relação mais madura com a religião, onde questionar não seja visto como falta de fé, mas como sinal de responsabilidade e lucidez.
Em última análise, a religião não é intrinsecamente o problema. O verdadeiro desafio está na forma como os seres humanos lidam com o poder simbólico que ela oferece. Quando a fé é usada para servir pessoas, promover dignidade e fortalecer valores éticos, cumpre a sua função mais elevada. Quando é transformada em negócio, palco de vaidades ou arma política, revela não uma falha da espiritualidade, mas as fragilidades morais de quem a manipula.
Comentários
Enviar um comentário