MOTOCICLISTAS QUE PROTEGEM CRIANÇAS
A fotografia correu mundo e conquistou as redes sociais com a força de uma verdade visual, e, tal como tantas outras forçosamente caiu numa das nossas caixas e com sugestão de uma abordagem para o próximo tema de debate. Nesse quesito, enquanto sentíamos amargurados as torturas de alguns troços de centenas de quilómetros na N1 - Estrada Nacional número 1 de Moçambique, no sentido centro - sul, a imaginação deu lugar a reflexão ou vice-e-versa, mas daí o argumento seguinte:
de um lado, prédios brancos e simétricos em Sichuan, legendados “casas para pobres na China”; do outro, tendas azuis num parque de estacionamento em São Francisco, apresentadas como “casas para pobres na América”. E pronto — o tribunal das redes decidiu. China, exemplo de eficiência social; Estados Unidos, retrato da decadência capitalista. Será essa a verdade? É certo que dos dois lados há pobrezas que nenhum dos governos ousa expor e quanto mais, tende afastar, sobre tudo dos olhos dos turistas e entidades que lhe interessam.
Mas a realidade, como quase sempre, não cabe simplesmente num meme. Ou, às vezes não pura e simplesmente não cabe.
Na China, o Estado realojou milhões de camponeses em blocos de betão com subsídios generosos — até 70% do valor — entregando chaves e fotografias sorridentes para o arquivo do “progresso”.
Contudo, por trás das fachadas brancas, vive o hukou, o sistema de registo que separa os cidadãos urbanos dos rurais.
Mais de 300 milhões de migrantes vivem em dormitórios improvisados, barracas ou alojamentos temporários sem direito a residência legal.
No papel, a pobreza foi “erradicada”; nas ruas, os pobres foram apenas empurrados para fora do enquadramento.
Nos Estados Unidos, as tendas existem — e foram, de facto, erguidas durante a pandemia como solução de emergência.
Cada uma custava cerca de 60 mil dólares por ano, um absurdo económico que reflectia o caos do momento.
Mas a imagem é antiga: desde 2021, São Francisco removeu mais de 70% dos acampamentos e aumentou em 50% as camas permanentes para pessoas em situação de rua.
A pobreza ali é visível não por descuido, mas porque a democracia permite que seja vista.
A imagem é uma armadilha com formato de denúncia. Sim. Mas quem a partilha não quer informar — quer convencer. Pois até já se pode encontrar sob carregada com títulos ou legendas como: Socialismo com características chinesas FUNCIONA!
Mas observemos que isso mostra o melhor ângulo da China (um projecto fotogénico de realojamento) e o pior momento da América (um parque transformado em abrigo durante uma crise sanitária).
É um duelo fabricado, feito para alimentar certezas ideológicas: “o socialismo dá dignidade; o capitalismo dá lona”. Ou melhor, o socialismo serve e o capitalismo escraviza.
Só que a tenda, nos Estados Unidos, vem com liberdade de escolha — e a casa, na China, vem com vigilância de 24 horas. Que é difinitivamente o contrário das narrativas e até deslocam o contexto real sobre os factos. Já que podemos apurar que na tenda, há protesto; no apartamento, há silêncio.
E isso muda tudo.
Comparar sistemas inteiros a partir de duas fotografias é como julgar um casamento por uma selfie de lua-de-mel.
Cada país expõe ou esconde o sofrimento à sua maneira:
Ambos erram. Mas erram de modos diferentes.
China: solução vertical, autoritária, rápida — com custo humano e urbano. As cidades-fantasma contam hoje mais de 65 milhões de apartamentos vazios.
EUA: solução horizontal, democrática, lenta — mas com mecanismos de reintegração social; cerca de 84% dos sem-abrigo acabam por regressar a casas permanentes.
Responder a estas três perguntas é o suficiente para matar um meme antes que ele mate o teu pensamento crítico e se propague pelas redes sociais, contribuindo desta feita na construção de um mundo melhor para nós e para as futuras gerações.
Porque, no fim das contas, a verdade raramente cabe num quadrado de 1080x1080 pixels. Ainda que rebatam que uma imagem vale mais que mil palavras, mas que palavras?
Comentários
Enviar um comentário