PAGANDO A CONTA DE UMA FESTA QUE JÁ ACABOU
Num evento literário em Nova Deli, a aclamada escritora indiana Arundhati Roy fez um discurso contundente que transcendeu as fronteiras da literatura para mergulhar no cerne da geopolítica e da identidade nacional. Com a sua característica coragem intelectual, Roy dirigiu críticas severas não apenas às potências ocidentais, mas também, e de forma mais pungente, ao actual governo do seu próprio país, liderado por Narendra Modi. As suas palavras, carregadas de um profundo desalento, expõem o que considera ser a perda da dignidade e da autonomia da Índia no cenário internacional.
Ora vejamos! Arundhati Roy, autora premiada com o Man Booker Prize pelo romance "O Deus das Pequenas Coisas", é conhecida pelo seu activismo político e pelas suas posições corajosas contra injustiças sociais e políticas. Na sua intervenção, Roy não poupou críticas à administração Modi, acusando-a de subserviência e cumplicidade com o que designou como "forças imperiais".
A escritora iniciou a sua arguição condenando a postura dos Estados Unidos, a quem caracterizou como uma "força imperial hiperdimensionada, mentirosa, enganadora, gananciosa, que se apropria de recursos e lança bombas". Contudo, o alvo principal da sua ira foi a política externa do seu próprio governo.
Com uma linguagem visceral, Roy traçou um paralelo entre o passado e o presente da Índia: "Antes éramos um país pobre, cujo povo sofria de pobreza extrema, mas tínhamos dignidade e orgulho. Hoje, somos um país rico, mas o seu povo sofre de pobreza extrema e desemprego, e alimenta-se de ódio, venenos e mentiras, em vez de alimento verdadeiro." Esta dicotomia serviu de base para questionar a cumplicidade do governo indiano em acções internacionais que, segundo ela, violam a soberania e a dignidade humana.
Roy questionou a inércia do governo indiano perante acções unilaterais dos EUA, como o assassínio selectivo de líderes estrangeiros. A sua crítica estendeu-se à relação pessoal e política do primeiro-ministro Modi com Israel, particularmente num período sensível que antecedeu ataques ao Irão e durante a guerra em Gaza. A escritora denunciou o que considera ser uma humilhação nacional: a assinatura de acordos comerciais prejudiciais aos agricultores e à indústria têxtil indiana, os sorrisos cúmplices perante insultos de líderes estrangeiros e o recrutamento de trabalhadores indianos para substituir os palestinianos em Israel, num contexto de genocídio.
A culminar o seu discurso, Roy resgatou uma expressão da retórica política chinesa, "cão da imperialismo", para descrever a posição em que a Índia se colocou sob a liderança de Modi. "Nós brincávamos sobre o termo exagerado do comunismo chinês, 'cão do imperialismo'. Mas agora digo que ele nos descreve com precisão", afirmou, num misto de choque e reconhecimento da nova realidade geopolítica do seu país.
O discurso de Arundhati Roy funciona como um espelho desconfortável para a Índia contemporânea, reflectindo as tensões entre o crescimento económico e a erosão dos valores democráticos e da soberania nacional. Ao desafiar abertamente o consenso nacionalista imposto pelo governo de Modi, Roy coloca em evidência o preço do alinhamento incondicional com potências estrangeiras e a perda da voz independente que outrora caracterizou a política externa indiana. Mais do que uma crítica política, as suas palavras são um lamento pela alma de uma nação que, no seu entender, trocou a sua antiga dignidade por um lugar subalterno na ordem global.
Arundhati Roy é uma aclamada escritora e activista indiana, nascida em 1961, em Shillong. Ganhou reconhecimento internacional com o seu romance de estreia, "O Deus das Pequenas Coisas" (1997), que lhe valeu o prestigiado Prémio Booker. Para além da sua carreira literária, Roy é uma voz proeminente no activismo político, destacando-se pelas suas posições críticas em relação à política externa dos EUA, ao imperialismo, às violações dos direitos humanos e às políticas internas da Índia, especialmente no que concerne ao governo de Narendra Modi e à situação na Caxemira. Os seus ensaios e discursos são conhecidos pela sua perspicácia analítica e pela coragem com que aborda temas controversos.
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