EM VEZ DE ACEITAR O QUE ENCONTRA, O HOMEM DECIDE CRIAR A MULHER IDEAL DO ZERO
Adãs Impossíveis: Como os Desejos Masculinos e Tradições Africanas Roubam a Autonomia e a Naturalidade das Mulheres
Num pátio empoeirado de terra batida, sob o sol escaldante que pinta tudo de tons ocre, um grupo de homens molda, com as mãos calejadas e cheias de argila, o que o desejo não ousa confessar em voz alta. A imagem que tenho diante de mim – “Mulher feita à sua vontade” – é mais do que uma cena de artesãos africanos: é um espelho cru da fantasia masculina. Dois ou mesmo três corpos femininos emergem da lama vermelha como deusas improvisadas: seios pesados e generosos, ancas largas que desafiam a gravidade, nádegas protuberantes e firmes que gritam fertilidade e prazer.
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| Mulher feita à sua medida. |
Um jovem, de short e t-shirt suja, aperta com delicadeza o peito de uma das figuras, como quem testa a maciez da carne que ainda não existe. Outro, de costas, esculpe com devoção a curva exagerada da bunda, enquanto um ancião de barba branca e capulana observa, aprovando em silêncio. Ao fundo, uma cabra pasta indiferente e o mercado continua a sua vida. É o homem a exercer o poder genesial que a Bíblia reservou a Deus: criar a sua Eva à imagem e semelhança do seu desejo mais profundo.
E se, de facto, esse poder lhes fosse dado? Que tipo de mulher os homens moldariam, se pudessem pegar na argila da vida real e dar-lhe forma sem limites? A resposta está ali, naquelas esculturas hiperbólicas: um corpo que grita “fecunda-me, nutre-me, excita-me”. Estudos de psicologia evolutiva, repetidos de Londres a Maputo, confirmam o que a argila revela sem pudor. A razão cintura-anca (WHR) ideal ronda os 0,7 – essa curva clássica que sinaliza juventude, saúde reprodutiva e reservas de gordura para o cérebro dos filhos. Na África subsaariana, onde a fome e a incerteza ainda rondam, a preferência cultural vai mais longe: ancas largas, nádegas proeminentes e seios fartos não são capricho, são sinónimo de prosperidade e capacidade de gerar vida num continente onde a maternidade ainda define status. Uma pesquisa de 2025 com leitores moçambicanos e sul-africanos mostrou que 58% dos homens colocam a “bunda bem feita” no topo da atracção física, mesmo quando dizem preferir “aparência natural”. O bumbum tornou-se o novo totem: cirurgias de BBL explodem nas clínicas de Joanesburgo e Maputo, influenciadas pelo Instagram e pelo desejo masculino que as esculturas de argila eternizam.
Mas o que esta “criação” revela não é só biologia. É poder. Enquanto as mulheres, no artigo anterior, sonhavam com um Adão que não bate, não trai e não abandona, os homens, quando têm argila nas mãos, não pedem personalidade: pedem forma. Pedem curvas que não envelhecem, que não engordam onde não deve, que não questionam. Pedem uma Eva que seja ao mesmo tempo mãe, amante e troféu – tudo num corpo que a realidade raramente concede. E aqui entra o roubo silencioso: as tradições africanas, que sempre celebraram a mulher “bem proporcionada” como símbolo de riqueza tribal, hoje aliam-se ao consumismo global. A miúda magra que não tem “bunda” é olhada de lado no mercado de matrimónio; a mulher pós-parto que não recupera a cintura é lembrada, em sussurros, que “o homem precisa de motivação”. O poder genesial transforma-se em pressão social: dietas, ginásios, cremes, cirurgias. A mulher real é esculpida à força para caber no molde que o homem desenhou na argila do seu imaginário.
Reflectindo nesta imagem, percebo o paradoxo doloroso. O homem que molda a Adã=Eva perfeita não está apenas a satisfazer um instinto ancestral; está a confessar a sua fragilidade. Porque, no fundo, a argila é obediente, mas a mulher de carne e osso não é. Ela envelhece, muda, questiona, sonha. E é exactamente nessa desobediência que reside a sua beleza verdadeira. Se os homens tivessem o poder de criar do zero, talvez descobrissem, tarde demais, que a Eva ideal que moldaram na praça não tem voz, não tem riso, não tem cicatrizes de parto nem histórias de luta. Seria perfeita… e vazia. Aliás, os mais 'pervertidos' 'a indústria de silicone ajudou-lhe a construir tal objectos, embora precisem importar da Ásia ou Europa, porém, há opções para personalizar.
Enquanto as tradições patriarcais e os desejos masculinos não forem confrontados com honestidade, as mulheres continuarão a ser esculpidas – não com argila, mas com olhares, comentários, likes e cirurgias. O verdadeiro acto de criação não está em dar forma ao corpo alheio. Está em respeitar a forma que a vida, teimosa e livre, já deu.
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Desculpa o silêncio que deixou feridas no ar,
Inspiro-me no teu corpo de curvas que o tempo não apagou,
Renuncio ao orgulho que nos separou sem razão,
Chamo-te em segredo quando a noite traz a tua imagem,
Imploro que o passado nos dê uma segunda chance de amar.
Por: Paulino INTEPO.
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