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AUTENTICIDADE E AS MARCAS QUE CARREGAMOS NA ALMA

A Sanidade Mental Religiosa ou a Santidade tem Tatuagens?

Uma reflexão sobre fé, autenticidade e as marcas que carregamos na alma

Há imagens que nos perturbam precisamente porque nos obrigam a olhar para dentro. A fotografia que hoje partilhamos — uma figura de hábito branco e preto, com um halo azul brilhante sobre a cabeça, os braços cobertos de tatuagens florais, um cigarro entre os dedos e uma pistola firmemente segura — é dessas que não nos deixam indiferentes. E talvez seja exactamente esse o seu propósito: questionar onde termina a sanidade mental religiosa e começa a autenticidade da alma.

Em Moçambique, terra de forte sincretismo religioso, crescemos a ouvir que santidade rima com pureza, com ausência de mácula. A freira é vista como esposa de Cristo, modelo de renúncia ao mundano. O padre é o pastor imaculado. O sheik, o guardião da retidão. Mas será que esta exigência de perfeição externa não está, ela própria, a empurrar-nos para uma espécie de loucura espiritual? Uma neurose colectiva onde representamos um papel no templo e vivemos outro lá fora?

A chamada "sanidade mental religiosa" merece ser escrutinada. Quantas vezes não vemos líderes espirituais a pregar uma coisa e a fazer outra? Quantos fiéis não escondem as suas dores, os seus vícios, as suas contradições, com medo de serem julgados no banco da igreja? A história da Igreja, infelizmente, está repleta de escândalos que revelam o abismo entre o discurso e a prática: casos de pedofilia encobertos, desvios de dízimos, julgamentos severos a quem ousa ser diferente.

Mas a Bíblia que dizemos seguir está cheia de personagens que desafiam essa ideia de santidade asséptica. Maria Madalena, rotulada de pecadora, foi das primeiras a testemunhar a ressurreição. Paulo perseguia e matava cristãos antes de se tornar o apóstolo das nações. Pedro negou Jesus três vezes e ainda assim foi chamado de rocha da Igreja. Davi, o homem segundo o coração de Deus, foi adúltero e assassino. O que nos ensina esta galeria de imperfeitos? Que a fé não exige perfeição; exige direcção. Não elimina as quedas; ensina a levantar.

A questão central que a imagem nos coloca é: a santidade tem tatuagens?

Numa sociedade como a nossa, onde muitos jovens moçambicanos inscrevem na pele as suas histórias de dor, de amor, de sobrevivência ou simplesmente de expressão pessoal, esta pergunta é profundamente actual. A tatuagem, vista por alguns círculos religiosos como profanação do corpo — templo do Espírito Santo —, pode ser precisamente o oposto: um testemunho público de que a fé se vive com marcas. As cicatrizes da vida não nos desqualificam diante de Deus; pelo contrário, humanizam-nos.

E a pistola? Num país onde a violência urbana é realidade em bairros como Mafalala, Chamanculo ou nos arredores das grandes cidades, uma arma na mão de uma mulher pode significar protecção, resistência, luta pela sobrevivência. O cigarro pode ser o escape momentâneo de quem carrega o peso de múltiplas jornadas. Julgar estas expressões sem conhecer a história por detrás delas é cair na armadilha do farisaísmo que Jesus tanto combateu.

Jesus não andava com os "perfeitos". Andava com cobradores de impostos, prostitutas, pescadores rudes, gente de má fama. A sua mesa era inclusiva. O seu olhar atravessava a casca e via a essência. E é exactamente isso que esta freira tatuada nos convida a fazer: a olhar para além do hábito, para além do cigarro, para além da arma. O halo azul brilhante que ilumina a sua cabeça não se apaga por causa das tatuagens. A cruz gravada na sua pele não é menos sagrada por estar sobre um braço que já segurou uma pistola.

A verdadeira questão, talvez, não seja se a santidade tem tatuagens. Mas sim se nós, que nos dizemos crentes, temos sanidade mental para aceitar que Deus cabe em corpos imperfeitos, em histórias contraditórias, em vidas que não cabem nos moldes estreitos que criamos.

Em Moçambique, país de gente profundamente religiosa mas também profundamente resiliente, esta reflexão é urgente. Urgente porque muitos jovens estão a abandonar as instituições religiosas por se sentirem julgados, não acolhidos. Urgente porque a fé deveria ser espaço de cura, não de adoecimento mental. Urgente porque precisamos de líderes espirituais autênticos, que não tenham medo de mostrar as suas próprias tatuagens da alma.

Que nesta segunda-feira possamos iniciar a semana com esta pergunta a incomodar-nos: o meu halo ainda brilha, mesmo com todas as marcas que a vida me gravou? E eu, consigo ver o brilho no halo do outro, mesmo quando as suas marcas são diferentes das minhas?

A freira da foto não é um insulto à religião. É um espelho. E o que vemos nele diz mais sobre nós do que sobre ela.

Que a vossa semana seja de olhar mais generoso e de fé mais autêntica.

Deixem o vosso comentário: o que acham desta reflexão? A santidade pode coexistir com as nossas contradições?





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