QUANDO A FÉ VIRA ARMADILHA
O Astrólogo, as 58 Fitas e a Questão que Ninguém Quer Responder
Perguntam como conseguir de forma acertada uma esposa/marido ou mulher/Homem para se casar ou pelo menos passar a vida juntos, nunca tive uma resposta certa ou sólida, sempre arrumo um conjunto de palavras até mudar de conversa. O que sei e é fácil dizer, digo, bem como tenho certeza, é nada mais que: se quiser "envolver-se intimamente" com uma mulher ou um homem, tenha dinheiro ou saiba mentir. Desde que não seja menor de idade, que dá cadeia e é contra a moral social, isso funciona, vi e vivi. Porém não é padrão... Mas vamos ao assunto que me arrepiou nas mensagens de sugestões para a publicação.
Um homem foi detido. Cinquenta e oito gravações sexuais encontradas na sua posse. As mulheres filmadas são casadas. Que já é por si só um agravante nessa situação embaraçosa. E a pergunta que circula nas redes sociais não é "como é que ele fez isso?" — é "como é que elas deixaram?".
E naturalmente de boca cheia, ambos os géneros dizem por aí que homens são como crianças que nunca crescem ou mulheres nunca crescem, igualmente. É precisamente essa pergunta que merece ser desmontada com cuidado. Aliás, só para as mulheres, por enquanto: como é que elas deixaram?
O Astrólogo Como Arquitecto da Confiança
Antes de julgarmos quem se deitou com quem, convém entender o que é um astrólogo no imaginário de quem o procura. Não é um charlatão qualquer. É alguém investido de autoridade simbólica — alguém que, supostamente, sabe o que os outros não sabem. Conhece o futuro. Lê os astros. Tem acesso ao invisível.
Esse estatuto não nasce do nada. É construído com paciência, com linguagem específica, com rituais que criam uma atmosfera de excepcionalidade. Quem entra num consultório assim não entra apenas com um problema — entra com esperança, com medo, com uma ferida. E alguém que recebe a sua ferida com aparente sabedoria torna-se, rapidamente, uma figura de confiança.
A manipulação começa muito antes do acto sexual. Começa na criação de uma relação de dependência emocional. Muitos que sabem sobre isso, acredito que usam ao seu favor, seja para não morrer a fome ou mesmo para além da sobrevivência: enriquecimento através da fraqueza mental dos outros.
O Erro de Chamar "Estupidez" ao que É Vulnerabilidade
O post que originou esta reflexão perguntava, sem rodeios: "Será que elas não tinham cérebro?"
A pergunta é compreensível. É humana. Mas é errada.
Chamar estupidez ao que é vulnerabilidade é uma das formas mais convenientes de desviar o debate. Porque se o problema é a inteligência das vítimas, então não há sistema a questionar, não há manipulação a analisar, não há cultura a criticar. Há apenas mulheres que falharam individualmente.
Ora, mulheres inteligentes, educadas, bem-sucedidas são manipuladas todos os dias — em seitas, em relações abusivas, em esquemas financeiros. A inteligência não é imunidade. A vulnerabilidade não é burrice. São coisas distintas. Há uma voz que diz nos vídeos que circulam nas redes sociais, que a vulnerabilidade feminina é entediante. Se sofre abuso ao ir queixar é aproveitada, quem vai pretender lhe ajudar também vai tentar aproveitá-la, e assim por diante.
Além disso, há que perguntar: que tipo de desespero leva alguém a um astrólogo? Em muitos contextos — e particularmente em sociedades onde o acesso a terapia psicológica é limitado, onde as mulheres casadas enfrentam pressões silenciosas e estruturais — a busca por um "conselho dos astros" é, na verdade, uma busca por orientação, por alívio, por alguém que escute.
Esse alguém, neste caso, usou essa posição para explorar.
O Crime É Dele. A Responsabilidade Não Desaparece Com Isso.
Aqui o debate fica mais complexo — e é importante não o simplificar em nenhuma direcção.
O homem gravou mulheres sem o seu consentimento para gravação. Isso é crime. Isso é violação da privacidade. Isso é inaceitável. Merece punição plena. Nesse ponto, não há debate.
Mas há uma segunda camada: estas mulheres tiveram relações sexuais consensuais com ele. Isso é uma escolha — ainda que feita sob influência de manipulação emocional e psicológica. A questão de até que ponto uma relação com alguém em posição de autoridade simbólica pode ser verdadeiramente "consensual" é legítima e séria. Mas não pode ser respondida com um simples sim ou não.
O que podemos dizer com certeza é que a responsabilidade criminal é clara e unilateral. A responsabilidade moral, essa é mais difusa — e inclui o que estas mulheres escolheram fazer nas suas vidas privadas, o impacto nos seus casamentos, a ingenuidade (ou não) com que depositaram confiança num estranho.
Não é misoginia reconhecer que as escolhas têm consequências. É misoginia, porém, reduzir mulheres adultas a vítimas passivas quando são também agentes das suas próprias vidas — ou, inversamente, reduzir a exploração masculina a "culpa das mulheres".
A Armadilha da Pergunta Simples
"Elas não tinham cérebro?" é uma pergunta que satisfaz quem já tomou partido. Não serve quem quer entender.
A pergunta útil é outra: que condições — sociais, emocionais, culturais — tornam possível que dezenas de mulheres, em separado, caiam no mesmo padrão com o mesmo homem?
Porque quando não é um, mas cinquenta e oito casos, o problema já não é individual. É sistémico. É sobre como certas figuras de autoridade conseguem acumular poder sobre pessoas em estado de fragilidade. É sobre como a ausência de literacia emocional e espiritual cria espaço para predadores. É sobre como a solidão conjugal, o silêncio doméstico e a falta de alternativas empurram pessoas para braços errados.
Esse é o debate que vale a pena ter.
O Que Fica Depois das Câmeras Apagadas
O astrólogo será julgado. As fitas serão usadas como prova. E as mulheres? Voltarão para os seus casamentos, para as suas vidas, para o silêncio — carregando uma exposição que não escolheram, mesmo que tenham escolhido o encontro.
Há uma injustiça dupla aqui: foram exploradas por alguém em quem confiavam, e agora são julgadas publicamente por uma escolha que, na sua mente, era privada.
Isso não as isenta de nada. Mas exige que sejamos mais precisos no que criticamos — e mais honestos sobre o que, no fundo, nos incomoda nesta história.
Incomoda a manipulação? Incomoda a infidelidade? Incomoda a crença nos astros? Incomoda a ingenuidade? Ou incomoda, simplesmente, que mulheres tenham uma vida sexual que não controlamos?
Vale a pena saber a resposta antes de fazer a pergunta.
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