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O PREÇO DA GRATIDÃO AUSENTE ("Cozinhou e Foi Negado Comer")

Quando o Amor se Torna Investimento com Prestação de Contas

Imagine um jovem que, com as mãos calejadas pelo trabalho e o estômago a roncar por noites a fio, decide apostar tudo no futuro de quem ama. Ele paga propinas, livros, transporte e até a refeição diária, convencido de que aquele gesto solidário é o alicerce de um lar que virá. A família dela aprova, os planos são traçados em voz alta e o sonho parece inabalável. Depois, a graduação chega como um sol radiante – e, com ela, a notícia fria: “Já não sinto o mesmo”. O que resta? Um vazio financeiro, um coração em frangalhos e a pergunta que ecoa em tantas conversas de varanda moçambicana: será que o amor pode ser cobrado?

Não se trata aqui de forçar ninguém a casar. Ninguém, em sã consciência, defende o casamento por decreto judicial. Mas o que fazer quando o acordo implícito – ou mesmo explícito, selado diante de testemunhas – é quebrado com a mesma leveza com que se descarta um sapato velho? Nas nossas sociedades, onde a família ainda participa activamente na construção de uniões, o financiamento da educação de um parceiro não é mero gesto romântico: é investimento colectivo, acto de confiança mútua. É a promessa de que o amanhã será construído a dois, não a expensas de um só.

O que vemos hoje, nas redes e nas ruas de Maputo a Nampula, é uma geração que aprende, a duras penas, que o amor líquido – aquele que Bauman tanto analisou – não suporta ilusões de gratuidade eterna. As mulheres conquistaram, com justiça, o direito à autonomia; ninguém questiona isso. Mas a autonomia não pode significar impunidade para quem aceita ajuda e depois vira as costas sem olhar para trás. O homem que financia estudos não é ingénuo por amor: é generoso. E a generosidade, quando traída, merece protecção – não por machismo, mas por equidade humana.

Penso nos pais moçambicanos que, em casa de adobe ou em apartamentos apertados da cidade, ensinam aos filhos que “quem come deve pagar”. Por que razão esse princípio elementar desaparece quando entra em cena o afecto? Por que razão alguns ainda romantizam a ideia de que o sacrifício masculino é “normal” e a devolução, “opressão”? A resposta está na cultura do “direito sem dever”: um veneno que envenena tanto homens como mulheres. Os primeiros aprendem a blindar-se com contratos frios; as segundas perdem a oportunidade de cultivar a gratidão que enobrece.

Há quem argumente que o coração não se mede em meticais. Concordo. Mas o bolso também não é infinito. Quando o investimento é feito com transparência – “ajudo-te porque acredito no nosso projecto juntos” –, a quebra dessa expectativa gera dano real: emocional, sim, mas também material. E o direito, em sociedades maduras, existe exactamente para reparar danos reais. Não se trata de transformar o amor em negócio, mas de impedir que o amor sirva de pretexto para exploração.

No fim, a verdadeira lição não está no tribunal, mas no espelho. Homens: documentem expectativas, sim, mas sobretudo escolham com critério. Mulheres: honrem quem vos ergueu quando ninguém mais acreditava. E todos nós: cultivemos a maturidade afectiva que transforma o “eu ajudo-te” em “nós construímos”. Porque o amor que não respeita o investimento do outro não é amor – é comodismo disfarçado de liberdade.

E tu, leitor? Já alguma vez colocaste o futuro de alguém à frente do teu e viste esse gesto transformado em poeira? Ou já recebeste ajuda e sentiste o peso doce da gratidão que transforma dívidas em laços eternos? A resposta que dermos a estas perguntas dirá mais sobre o tipo de sociedade que estamos a construir do que qualquer sentença judicial. O amor, afinal, não pede reembolso. Mas a dignidade, essa sim, cobra sempre a sua quota-parte.

NB: Inspirado de um caso Nigeriano. Não conheço algum caso moçambicano! Saudações. 

Por: Paulino INTEPO

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